domingo, 10 de abril de 2011

SOBRE MICRONARRATIVAS


Por Geraldo Lima

Quando se fala de narrativa curta, vem sempre à nossa lembrança o famoso miniconto do guatemalteco Augusto Monterroso: “Quando acordou o dinossauro ainda estava lá”.  É, sem dúvida, um caso espantoso de síntese e expressividade. É essa capacidade de construir um universo de significação intensa em poucas linhas que caracteriza o miniconto. Construir e deixar os vazios para que o leitor os preencha.  “No miniconto, muito mais importante que mostrar é sugerir, deixando ao leitor a tarefa de ‘preencher’ as elipses narrativas e entender a história por trás da história escrita”, informa-nos a Wikipédia.  Dessa maneira, mais do que qualquer outro texto narrativo, o miniconto exige do leitor uma coparticipação efetiva na construção final da história.

Talvez não seja consenso, mas gosto de distinguir miniconto de microconto ou nanoconto. Para mim, o miniconto ainda comporta um número maior de palavras, de linhas ou de páginas. Nele seria ainda possível descrever um pouco mais a situação narrada. Já no microconto ou nanoconto, eliminam-se ao máximo as informações sobre espaço, tempo, personagem e assunto. Cabe ao leitor, num grau mais intenso de coparticipação, imaginar o restante das informações ou da história. O texto de Augusto Monterroso é, para mim, o exemplo clássico do microconto. E é interessante perceber como esse tipo de texto curtíssimo se adapta muito bem às exigências de síntese, por exemplo, do twitter. Seguindo essa lógica, venho compondo, há alguns meses, micronarrativas (a série Lascas) para serem publicadas, primeiramente, nessa rede social. Algumas são compostas, diretamente, no microblog, obrigando-me eliminar, sistematicamente, os excessos. Eis uma das Lascas: Disse que não, que gritaria, mas depois gemeu, chamando-o de meu amor. O exercício de síntese e de busca de máxima significação que se exige do autor, nesse caso, é muito grande.

Outros escritores famosos escreveram também micronarrativas, como é o caso do estadunidense Ernest Hemingway, que nos legou esta pérola: “Vende-se: sapatos de bebê, sem uso” (For sale: baby shoes, never Worn). No Brasil, Dalton Trevisan tornou-se um mestre na criação de micronarrativas, tanto que o seu livro Ah é? (Editora Record, 1994) é tido como o marco da produção de microcontos, na sua configuração contemporânea, em terras tupiniquins. Marcelino Freire, em 2004, reuniu um time de escritores e os desafiou a escrever uma narrativa com no máximo 50 letras. O resultado desse desafio foi a publicação, em 2004, da coletânea Os cem menores contos brasileiros do século, pela Ateliê Editorial.  Embora muitos possam não concordar, coloco alguns poemas-minuto ou poemas-piada de Oswald de Andrade e alguns poemas mais narrativos de Manuel Bandeira (“Poema tirado de uma notícia de jornal” seria um deles) como exemplos de microcontos entre nós. Cito este poema de Oswald para que o leitor concorde ou não comigo:

O medroso

A assombração apagou a candeia
Depois no escuro veio com a mão
Pertinho dele
Ver se o coração ainda batia.

A intenção do autor, obviamente, foi compor um poema dentro das diretrizes modernistas, rompendo com o estilo clássico, parnasiano. O tom coloquial e narrativo, no entanto, dão-nos a ideia clara de estarmos lendo uma narrativa curta. Nesse caso, a fronteira entre os gêneros praticamente desaparece.

Mais do que nunca a produção de micronarrativas tem crescido entre os autores brasileiros, ora dando realce ao humor, ora ao drama. Novos talentos têm surgido a cada ano, o que levou, inclusive, o escritor Wilson Gorj a criar o selo 3 x 4  (incorporado pela Editora Multifoco), destinado a publicar, principalmente,  microcontos. O blog O BULE, seguindo essa tendência,  preparou, recentemente, um Especial de Micronarrativas com alguns escritores que têm focado sua produção nessa área, são eles: Wilson Gorj, Felipe Valério, Angela Schnoor, Hélverton Baiano, Ana Mello, Tiago Moralles, Raphael Gancz e Chico Pascoal.

Aos poucos esse gênero literário vai ocupando seu espaço. Se ele  será alçado ao patamar da grande literatura, só o tempo nos dirá. Por enquanto, encontrou nas novas tecnologias o suporte ideal e vai se disseminando.

quinta-feira, 31 de março de 2011

ONDE COMPRAR O LIVRO 'TRINTA GATOS E UM CÃO ENVENENADO'



Quem se interessar em comprar o meu livro TRINTA GATOS E UM CÃO ENVENENADO, publicado recentemente pela Ponteio Edições, pode encomendá-lo nos seguintes endereços:

Site da Livraria Saraiva. http://migre.me/49B6E   
(Pode ser encomendado também diretamente na livraria física da Saraiva.)
 
Site da FNAC http://migre.me/49Bkk
                     http://migre.me/49BD5
 (Em vinte dias, poderá ser comprado diretamente nas lojas da FNAC; já pode ser encomendado por telefone.)

Site da Loja Singular http://migre.me/49BNi
 
Site da Livraria Travessa http://migre.me/49BRE

(Em breve estará à venda na Livraria Cultura.)

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Resenha

A peça “Trinta gatos e um cão envenenado” trata, basicamente, de uma tragédia familiar. Vidas que deveriam seguir juntas, unidas por laços de afetividade, estão em pleno processo de ruptura, de esfacelamento. A impossibilidade de afeto inviabiliza a convivência. Qual a causa de tudo isso?  Por que Zeza nutre tanto rancor pelo pai?  O que há de lucidez na sua loucura? O texto é um mergulho radical na sua existência e revela de forma poderosa a organização familiar contemporânea, com as suas crenças e mitos.


Trinta gatos e um cão envenenado
1ª edição, 2011
Peça de teatro
Autor: Geraldo Lima
ISBN: 978-85-64116-05-4
Ponteio Edições
Preço: R$ 21,00
 

domingo, 13 de março de 2011

GENEROSIDADE E SARCASMO NA NARRATIVA DE FERNANDO MARQUES



 
Por Geraldo Lima


Título: Contos canhotos
Contos, LGE Editora, 2010  
Autor: Fernando Marques
Preço: 30,00

A produção literária em Brasília mostra-se cada vez mais intensa e com qualidade, prova disso é o livro Contos Canhotos (LGE Editora, 2010), do jornalista, professor universitário, escritor e compositor Fernando Marques. O volume traz vinte e sete contos, divididos em duas partes: Primeiro Tempo e Segundo Tempo. São textos curtos, de no máximo quatro páginas, com temática variada, focada em situações do cotidiano, nos contrastes sociais e na precariedade da vida humana. Revelam, em suma, a capacidade de o autor captar variados aspectos da vida moderna com olhar crítico e, às vezes, bem humorado.

Na leitura desses contos de Fernando Marques, devemos observar, com atenção, o modo como ele lida com alguns personagens, em especial o tipo metido a esperto, a Macunaíma, ou o quarentão que se comporta ainda como um jovem, enchendo a cara e se metendo em fria. “De fora, lembrava o Piquet com 20 anos de atraso, o adolescente vetusto na pândega irresponsável” (sobre o protagonista do conto No hospital, que, de vítima, passa a réu). O narrador, geralmente em terceira pessoa, mostra-se, às vezes, implacável com essas figuras. É sarcástico e irônico ao ponto de nos fazer rir da desgraça do personagem. “Fiel ao próprio modus operandi, exibidos nos episódios recentes, quebrou o jejum para perguntar quando seria ouvido. Pediu pressa, ora essa. Exigiu pressa da polícia, teve a coragem. Responderam, ríspidos, que se calasse” (do conto  Na delegacia, que é, na verdade, continuação dos contos Noturno, Pizzarelli na danceteria, No hospital).

Embora o autor dispense a alguns dos seus personagens esse tipo de tratamento, revela-se, no entanto, generoso em relação a outros. Às prostitutas, por exemplo, é reservado um olhar mais condescendente e cúmplice. Chega a dizer: “Ninguém mais dedicado a seu ofício que as moças de vida fácil. Fossem assim os deputados.” É, no mínimo, divertido ver como elas conseguem depenar os otários ou deixá-los na mão, por exemplo, após a promessa de uma transa em troca de uma carona. É sempre o quarentão perdido na noite, à deriva, ou o jovem classe média desfilando com o carro do pai. Nesse mundo cão, somos levados a concordar com o narrador do conto Pizzarelli na danceteria: “Os pobres se entendem. Ele no carro, à espera. Mas quem sente pena de otário?”.

Como ninguém está imune às influências dos autores com que mais se identificou, impossível seria dizer-se escritor sem ter absorvido essas influências, podemos identificar no texto de Fernando Marques a presença da narrativa elíptica de Dalton Trevisan e o recurso machadiano de se dirigir ao leitor, muitas vezes em tom sarcástico. O estilo de Fernando Marques brota daí, dessa mescla entre os dois grandes autores nacionais. A sua narrativa dispensa os malabarismos verbais, as frases complicadas, o vocabulário rebuscado. Com certeza o leitor se sentirá muito à vontade lendo esses contos canhotos, e talvez se identifique com algumas das situações narradas, tendo vivido algo parecido ou simplesmente presenciado na rua. 

Dois aspectos podem ser ainda destacados em alguns contos desse livro de Fernando Marques: a presença de Brasília como espaço onde ocorrem algumas situações narradas e a representação do negro como protagonista. Podemos ver isso na tríade composta pelos contos Pizzarelli na danceteria, No hospital e Na delegacia. Aliás, essa tríade de contos, somando-se a ela o conto Noturno, é o ponto alto do livro. Sarcasmo, lirismo e melancolia mesclam-se aí numa narrativa ágil e arrebatadora. Só esses textos bastariam para provar o talento e a maturidade narrativa de Fernando Marques.       
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Fernando Marques é professor universitário, jornalista, escritor e compositor. Publicou Retratos de mulher (poesia, Varandas) e duas peças  teatrais: Zé, adaptação em verso do drama Woyzeck, de Büchner, e o livro-disco Últimos – comédia musical em dois atos (ambos pela Perspectiva). Autor da comédia  A quatro, encenada  em Brasília. www.fernandomarques.art.br

sábado, 26 de fevereiro de 2011

MENTES MAQUIAVÉLICAS



 
Por Geraldo Lima

O que tem me assustado e me deixado intrigado nos últimos tempos é a capacidade de a mente humana forjar maldades e planos maquiavélicos para se dar bem e arruinar a vida de milhares de pessoas. Falo daquelas mentes que trabalham, nas trevas (excluo aqui a ideia de religião; situo o caso puramente no espaço da ética, da prática humana), para criar meios de se apoderar dos bens públicos, de se beneficiar de posições estratégicas que ocupam na sociedade para agir de forma ilegal, de se perpetuar no poder fazendo uso do poderio militar e burocrático que detém sob seu comando.

O que acabo de dizer parece meio abstrato, vago, mas posso elencar aqui três fatos recentes para ilustrá-lo. Vivemos isso aqui em Brasília, com a ação orquestrada por um grupo de pessoas, com cargos estratégicos no governo, para saquear o erário público.  Alguém já esqueceu o escândalo da Caixa de Pandora? Não pode esquecer, não! E é preciso gravar bem a cara dos que dela participaram. Ainda hoje amargamos os prejuízos herdados da ação nefasta desses indivíduos: mato tomando conta das cidades, o caos nos hospitais públicos, rombo nas contas do governo etc. Agora mesmo, no Rio de Janeiro, um grupo de policiais malfeitores (e como é triste dizer isso!) foi preso pela Polícia Federal. Policiais prendendo policiais: uma inversão de valores terrível. Que faziam de errado essas mentes que deveriam ser talhadas para cuidar do cidadão? Associavam-se aos traficantes para ganhar dinheiro dando-lhes proteção, informando-os da ação da polícia, extorquiam bandidos, aproveitavam-se da situação no Morro do Alemão para manter o esquema criminoso. Vexame para a corporação! Vexame para a sociedade que construímos! Distante daqui, lá no Oriente Médio, na terra dos faraós, da antiga civilização egípcia, o ditador Hosni Mubarak foi enxotado do cargo pela ação firme do povo egípcio. Assistimos à sua queda em tempo real – eis aí o poder da mídia eletrônica. O homem se agarrou ao cargo por longos trinta anos. Aproveitou-se da situação, o assassinato do presidente do qual era o vice, e assumiu o poder ad eternum. Ou quase isso, pois o povo, nas ruas, deu-lhe um belo pé na bunda. Mas durante esse tempo todo em que esteve no poder, quanto ele não desviou de recursos que eram destinados a melhorar a vida do povo? Estão lá os bancos suíços bloqueando sua fortuna.     

Fico pasmo ainda com tudo isso (vão me dizer, com ar de conformismo: Mas o ser humano sempre foi assim!) porque, ao longo dos séculos, não tem sido outro o esforço de pensadores e pessoas de boa-fé: inculcar nos indivíduos o respeito à ética e à moral, ou seja, ao semelhante (estou lendo “A Potência de Existir”, do filósofo francês Michel Onfray, e lá está ele nos ensinando: “A construção de um cérebro ético constitui o primeiro degrau para uma revolução política digna desse nome. Foi outrora a ideia maior dos filósofos ultras do século dito das Luzes”).

O que se percebe é que, para essas mentes-aleijão, o prazer maior é forjar canalhices em meio ao desejo da maioria de ver o mundo, o país, a cidade, a rua, o local de trabalho seguindo em ordem e em paz. Digo prazer porque me veio à mente (e a minha procura trabalhar na luz) a indagação do meu filho mais velho: “Pai, esses corruptos devem sentir prazer em armar esses golpes todos, não é?” Quando o meu filho diz que eles “devem sentir prazer”, compreendo que o mal está entranhado no indivíduo até o mais fundo da sua mente, como uma droga, de modo que tudo o que ele faz de errado é resultante da busca de satisfação para esse vício. Pode ser isso, e Freud explicaria tudo. Mas pode ser também que, entre nós, a falta de uma Lei rigorosa (dura lex, sed lex, ou seja, a lei é dura, mas é a lei), que deixe essa gente ruim mofando por anos e anos na cadeia, não iniba a busca dessa satisfação.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

BOM-DIA, MEUS ANJINHOS!


 
Por Nilto Maciel

Padre Coutinho passava tempos a observar a abóbada da igreja, as figuras, os desenhos. Admirava os anjos gordinhos, as nuvens, o céu imaginado pelo pintor. Cansava o pescoço de tanto olhar para o alto. Gostava também de ir e vir pelos corredores, andar até as portas de frente do templo, espiar a rua, voltar-se e caminhar até o altar. Quando aparecia algum fiel, escapulia sorrateiro, como se o temesse, como se não quisesse contato nenhum com ele, ou como se estivesse em pecado. Alcançava o pátio que levava aos fundos, aos seus aposentos ou dos padres idosos. Gostava de cuidar deles. Sua missão havia algum tempo, embora não fosse enfermeiro. Cuidava especialmente de padre Diógenes.

Antes de dormir, depois das rezas, depois de tudo, deitado, luz apagada, silêncio, uma tosse aqui, um chiado ali, ia e vinha por outros corredores, via e revia outras abóbadas. A igreja da cidadezinha, as ruas de pedras lisas, os meninos, a mãe. Meu filho, você vai ser padre. Levou-o à presença do vigário. Precisava fazer a primeira comunhão. Coutinho passou a frequentar a igreja todo dia. E aprendeu tudo com padre Diógenes: missa, latim, orações. Bem como outras primícias da vida. O pároco o sentava nas pernas. Não dissesse nada a ninguém. Deus não gostava de menino mal-educado. A mãe se entusiasmava cada vez mais com a possibilidade de ver o garoto vestido de batina. Estive com padre Diógenes. Gosta muito de você. É um santo. O pai andava longe, noutra cidade, talvez casado com outra. Chegada a hora da reclusão, o menino chorou.

Passados os anos, padre Diógenes, envelhecido, perdeu de repente a fala e quase todos os movimentos. Mandaram-no para uma casa de repouso religiosa. Padre Coutinho se encarregou de cuidar dele e de outros idosos. O antigo sacerdote, combalido, triste, de olhar perdido, nem lembrava aquele das missas, do latim, das orações, dos carinhos. Na hora das refeições, sentava o ancião na cadeira de rodas e o conduzia a um quarto. Trazia a sopa quente e a mostrava a Diógenes. Trancava a porta e sorria. O outro o observava sério e nada dizia. Em seus olhos havia espanto. O jovem erguia a batina e baixava a cueca. Onanizava-se até conseguir despejar no prato algumas gotas. Aproximava-se mais do doente, que resmungava pedaços de palavras incompreensíveis. Agora tome a sopinha, meu anjinho decaído. O ancião balançava a cabeça para lá e para cá, a rezingar monossílabos, chorar baixinho. Ou toma a sopa toda ou fica com fome até amanhã. Levava-lhe à boca a colher cheia de sopa. Abra bem a boca e engula tudo, sem resmungo. No meio da refeição, deitava o ancião de bruços na cama, retirava-lhe a roupa e lambuzava sopa nas nádegas. Depois eu o banho, padre Diógenes. À noite, acordava-o para tomar cápsulas. O velhinho se retorcia na cama, como se dissesse não. Fechava a boca sem dentes. O outro lhe mostrava um chicote. Ou tomava o remédio ou apanhava. Baixava de novo a cueca e repetia os gestos da noitinha. Besuntava-lhe a cara com o creme. Beba, engula. Se não quiser, não vai dormir tão cedo. Morto de sono, o antigo pároco abria a boca e recebia o líquido, como se tomasse vinho ou comesse hóstia. De manhã, Coutinho voltava a contemplar os anjinhos no teto da igreja. Benzia-se, ajoelhava-se diante do altar e corria sorrateiro para o quarto dos anciãos. Bom-dia, meus anjinhos!

                                       Fortaleza, junho de 2006.   
 
Nilto Maciel é escritor e vive em Fortaleza, Ceará. É autor de vários livros, entre eles: Itinerário (contos, 1ª ed. 1974, Ed. Do Autor, Fortaleza; 2ª ed. 1990, João Scortecci Editora, São Paulo, SP); A guerra da donzela (novela, 1ª ed. 1982, 2ª ed. 1984, 3ª ed. 1985, Editora Mercado Aberto, Porto Alegre, RS); O cabra que virou bode (romance, 1ª ed. 1991, 2ª ed. 1992, 3ª ed. 1995, 4ª ed. 1996, Editora Atual,  SP).Blog:Literatura sem Fronteiras www.literaturasemfronteiras.blogspot.com

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

AS FALSAS AUTORIAS



Por Geraldo Lima

É público e notório que a internet encurtou a distância entre as pessoas. A facilidade de comunicação através de e-mail, Facebook, Orkut, MSN etc. é a comprovação do que acabo de dizer.  

Nesse espaço virtual, a informação circula livre e, às vezes, sem critérios. Um texto pode ser repassado ad infinitum  e sofrer, nesse percurso, modificações.  Isso, no entanto, não é novidade. Os textos orais, compilados tempos depois, sofrem também esse tipo de intervenção: os copistas podem introduzir ali modificações que alterarão o sentido do texto. Os textos bíblicos são um bom exemplo disso.

Esse preâmbulo todo tem um único objetivo: arejar o ambiente para que eu fale de um fenômeno que tomou conta da internet: os tais textos atribuídos, de maneira equivocada ou não, a alguns escritores e artistas, como Luís Fernando Veríssimo, Arnaldo Jabor, Charles Chaplin, Artur da Távola e, acabo de descobrir, nosso poeta-mor Carlos Drummond de Andrade.
 
Tocadas pelo caráter positivo de muitos desses textos, as pessoas vão repassando-os numa cadeia infinita, sem se preocuparem com a veracidade da autoria. O importante, nesse caso, é o teor da mensagem. Logo, o impulso maior é passar adiante essa mensagem tocante, instrutiva e apaziguadora. É um processo contagioso. Como nos diz Jean Baudrillard, “... a mídia moderna tem em si uma potência viral, e sua virulência é contagiosa”. E esse vírus, esse texto de falsa autoria, mas engraçado ou edificante, vai bater, sem dúvida, na sua caixa de mensagens.

A essa altura da crônica, alguém já deve estar me indagando indignado: E qual o problema de se repassar esses textos, seu estraga-prazeres, se a intenção é sempre a melhor possível? A princípio, não vejo nenhum problema, mas para alguns autores cujo nome aparece nesses textos talvez haja sim. Alguns sentiram a necessidade de negar publicamente a autoria do texto atribuída a eles.  Ariano Suassuna, por exemplo, negou, num programa de TV, a autoria de uma carta que começou a circular na internet após a derrota do Sport na Libertadores. Na carta, entre outras coisas, havia provocações à torcida de outros times pernambucanos, coisa que o autor de O Auto da Compadecida jamais faria, ainda que seja torcedor apaixonado do Sport.

O que me deixa pasmo é a facilidade com que as pessoas vão tomando esses textos como verdadeiros em relação à sua autoria. Se você conhece o texto de Luis Fernando Veríssimo, jamais vai tomar como de sua autoria um texto que apresente um humor grosseiro, sem sutilezas, e de linguagem deselegante. O mesmo pode-se dizer do texto de um Jabor, sempre inteligente. O estilo deve ser inconfundível. A temática também. Desde 1999, circula na internet um poema atribuído ao ganhador do Nobel de 1982. Trata-se do poema La marioneta, ou a despedida de Gabriel García Márquez. De teor sentimental, o poema espalhou-se pela rede e chegou a ser comentando em importantes jornais. Como se descobre a falsa autoria do tal poema? O uso insistente da invocação a Deus. Marxista e humanista, o autor de Cem anos de solidão dificilmente faria uso desse recurso.  Linguagem e conteúdo, nesse caso, estão distante do estilo do autor colombiano.
Recebi, dia desses, um texto atribuído a Carlos Drummond de Andrade. O título do poema: Eterno. De cara tomei os primeiros versos como sendo, realmente, do autor de A rosa do povo; os outros, porém, destoavam em muito do seu estilo. Não dava para engolir aquilo como obra do poeta itabirano. Eis os primeiros versos: “Eterno é tudo aquilo que dura uma fração de segundo,/mas com tamanha intensidade, que se petrifica,/e nenhuma força jamais o resgata”. Caramba, isso é lindo! E é lindo não só pela mensagem, mas por apresentar um estilo elegante, refinado. Nota-se, por trás de cada verso, o labor do poeta, o domínio da técnica e da língua. Aí vem a segunda estrofe e a coisa desanda. É como se você saltasse do lombo de um mangalarga marchador para o de um pangaré trotão. Vejam se não tenho razão: “Fácil é ouvir a música que toca./Difícil é ouvir a sua consciência./Acenando o tempo todo,/mostrando nossas escolhas erradas”. Onde que isso é Drummond?! Você pode achar que é bonito, que é construtivo, sei lá, mas a quebra de estilo é violenta. Sai-se do alto padrão de expressão para o simplismo da construção frasal.

Pesquisando na internet, descobri variações desse texto, onde  os versos de Drummond ( os verdadeiros!) vêm ora no início, ora no meio,  ora no final. O que mostra as intervenções que cada copista  faz no texto, adaptando-o, talvez, ao seu gosto e, por que não dizer, ao seu estilo.  O poema de Drummond, cujo título é Eterno, passa longe do tom otimista e edificante desse texto ( ou textos) que circula na rede.  Nesse poema, Drummond apresenta-se irônico como em muitos dos seus textos, e logo no início deixa isso bem claro: “E como ficou chato ser moderno./Agora serei eterno.” Aqui o eu  lírico afirma sua intenção de ser eterno, talvez por enxergar no espírito do moderno apenas o transitório, a precariedade da existência. Nos textos apócrifos, tudo isso desaparece. E continuará desaparecendo na grande rede da globalização

(Texto publicado, originalmente, no Jornal Opção, em Goiânia, e no blog O BULE)