domingo, 28 de novembro de 2021

Um olhar sem idealismo sobre a luta armada


 Por Geraldo Lima

 

A Ditadura Militar, que se estendeu de 1964 a 1985, já rendeu, na literatura brasileira, livros nas mais diversas áreas, da poesia ao ensaio. Dentre os mais recentes livros de ficção que abordam esse período tenebroso da nossa história, encontra-se o romance Noites Simultâneas [Bagaço, 2017, 173 páginas], do jornalista e escritor Maurício Melo Júnior.

O livro, que não teve o devido destaque no ano de sua publicação, conta a história de um indivíduo que, tendo como projeto de vida apenas formar-se em Medicina e, posteriormente, cuidar da fazenda dos pais, vê-se, de repente, envolvido com a luta armada. “O moço não se apega às revoltas, nunca leu ou viveu política, mergulha a existência em certa capa de ingenuidade e alienação...” [pág. 13]. A cena em que ele se vê envolvido numa manifestação de protesto, no momento em que vai atravessar uma ponte, lembra um pouco a cena do filme Tempos Modernos em que Carlitos, de uma hora pra outra, involuntariamente, começa a marchar à frente de uma manifestação de trabalhadores e acaba sendo tomado como seu líder. O protagonista de Noites Simultâneas, até então um pacato jovem vindo do interior, sem ligação alguma com as manifestações políticas que agitam o país, vê-se em meio à repressão policial aos manifestantes e, ajudado por uma moça, com a qual vai se envolver ideológica e amorosamente, consegue escapar. A partir desse instante, começará a fazer parte de uma organização guerrilheira e seu projeto de vida muda radicalmente. E tudo vai acontecendo assim, de um modo bem frenético, numa narrativa que não se detém muito em detalhes descritivos, seja do espaço externo, seja do mundo interior das personagens. O foco, neste caso, é a ação, é o desejo de captar o clima tenso e buliçoso da agitação política dos Anos de Chumbo.

Uma estratégia narrativa empregada por Maurício Melo Júnior, para caracterizar bem a imagem daquele período de lutas clandestinas contra o regime, é referir-se aos personagens não pelo nome próprio, mas, sim, pela sua profissão, pelo gênero, pelo seu papel no movimento de guerrilha etc. Assim, o protagonista é apresentado, inicialmente, como “o moço”, depois, como “o prisioneiro”, e, por último, como “o aposentado”. É como se essa espécie de codinome tivesse a função de criar um certo distanciamento, como no teatro épico de Brecht, para evitar que os aspectos puramente emocionais nos afastem da visão histórica. Ainda assim, é possível perceber, em certas ações do protagonista, diante do esfacelamento das forças revolucionárias, uma natureza nebulosa e capaz de fraquezas imperdoáveis. A partir de então, sua trajetória de vida torna-se incompatível com aquele momento de adesão radical ao movimento de guerrilha, com aquela travessia da ponte que funciona, simbolicamente, como elemento de ligação entre seu estado anterior de alienação e sua posterior tomada de consciência política.  É ele mesmo que confessa: “Era a vida que eu queria, mas sempre fui fraco, covarde, medíocre” [pág. 145]. Sabemos que, na vida real, não pouco foram os que traíram também a causa, sob tortura ou não. Noites simultâneas é, de certa maneira, um romance que escancara essa ferida, essa mácula presente no ideário revolucionário que combateu a ditadura em nosso país.

A narrativa, que se dá em terceira pessoa, acompanha ágil o ir e vir do protagonista num espaço geográfico que também não é nomeado, apenas sugerido nos seus elementos naturais, arquitetônicos, urbanísticos etc. No início da história, por exemplo, deduzimos que a ação se dá numa cidade litorânea ao nos depararmos com esta afirmação: “...a greve só não interrompe o vento atirado pelo mar...” [pág. 12]. Seria Recife?  E assim vai até o final. O que sabemos é que o protagonista percorre um longo espaço, através do qual vai mudando, também, seu modo de pensar e de agir. Às vezes, está mesmo é em fuga, tentando livrar-se do passado, de “Uma vida de nódoas, mágoas, segredos” [pág. 145]. Mas, como deduz a certa altura da vida, “O passado é uma pedra coberta de limo, impossível limpar” [pág. 166]. Resta-lhe, ao final, a tentativa de se contrapor [num texto que parece ecoar apenas para si mesmo] à presença heroica da antiga namorada, dos tempos de guerrilha, que, fiel aos antigos ideais, pode se dirigir às novas gerações e falar sobre o seu passado de luta revolucionária.     


[Resenha publicada, originalmente, no JORNAL OPÇÃO ]


quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Entressonhos

Por Geraldo Lima


Estou numa banca de revistas, coisa que não faço desde que começou a pandemia de Covid-19. Pego o exemplar de um jornal [me escapa o nome dele agora] e começo a folheá-lo. O encarte cultural me agrada e resolvo comprar o jornal [há tempos não faço isso].

A banca está cheia, gente da UnB, poetas da cidade, e pelo jeito a pandemia já acabou: não estamos usando máscara!
No caminho para o caixa, topo com um amigo [não vou declinar o nome dele aqui]. Ele nem me cumprimenta, só diz que estou lhe devendo duzentos reais. De onde você tirou isso?!, lhe pergunto. Ele só diz que devo, e pronto. Viro-lhe as costas e me dirijo à moça do caixa.
Meto a mão nos bolsos e descubro que não tenho um tostão sequer. Sem carteira, sem nada. Digo-lhe que vou buscar o dinheiro, ela olha pro jornal em minha mão, depois, para mim, só na desconfiança. Peço que guarde o exemplar para mim, sou vizinho de vocês, volto rápido. Ela abranda a desconfiança e deixa que eu leve logo o jornal.
Dou dois passos para fora da banca... e acordo! No instante em que percebo isso, me apavoro: não gosto de ficar devendo os outros nem em sonho.

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Deixou a mão na testa dele por alguns segundos, como quem afere a temperatura de um enfermo. A mão leve, milagrosa, mão de mãe ou de amante zelosa.
Em seguida, com o mesmo cuidado, dois dedos pressionaram-lhe o pescoço, tentando sentir a pulsação da artéria, a passagem subterrânea do sangue até o cérebro.
O toque no peito pareceu-lhe insinuante, indo além do desejo de conferir-lhe os batimentos cardíacos. A mão tornou-se extremamente macia e elétrica, deixando-se escorregar um tanto até o umbigo, como se fosse adentrar o cobertor em busca de outros vãos.
Por algum motivo, a mulher mudou de ideia e segurou-lhe o braço, descolando-o do corpo. Esse gesto, meio brusco, fez com que ele acordasse e desse com a esposa ao lado da cama, o olhar atento e preocupado de quem confere se o outro ainda está vivo.
O marido não tinha o hábito de dormir até as onze da manhã, ainda mais com aquele calorão de derreter os miolos.

domingo, 21 de março de 2021

É melhor ficar em casa

                                                                              [foto:geraldolima]

Por Geraldo Lima

 

Sei que há os que ainda saem de casa despreocupadíssimos como se nada de importante e perigoso estivesse acontecendo, mas o fato é que, pelo menos para mim, sair de casa para resolver as questões do dia a dia tornou-se um ato trabalhoso e estressante. São muitos os cuidados que devem ser tomados para que essa saída esteja dentro do protocolo com as medidas sanitárias adotadas para conter o avanço da Covid-19.

E é aí que o sair de casa se complica.

O ritual – para os que estão fora do grupo dos negacionistas – começa com a colocação da máscara. Até aí, tranquilo. É só escolher um dos modelitos na gaveta da cômoda [a máscara com emblema do time do coração, a máscara com as cores da Bandeira Nacional, a máscara combinando com a blusa e o sapato, a máscara indicada pelo especialista tal...], prender os elásticos atrás das orelhas [nunca pensamos que elas teriam outra utilidade senão a de sustentar as hastes dos óculos] e sair sem temor.

Por falar em óculos, nestes tempos de cuidados extremos, usá-los acarreta um trabalho extra na hora de sair, principalmente se for de carro. Caso você use óculos de grau, precisará passar sabonete nas lentes para que não embacem com o hálito quente que escapa pelas bordas superiores da máscara. Aliás, esse foi um dos primeiros macetes que aprendi logo no início da pandemia, e tem me valido muito! É impressionante o grande número de MacGyvers que surge para auxiliar-nos nessas horas de aperto.

Um viva para eles!

Com máscara no rosto e óculos preparados contra embaçamento, você se lança à missão do dia.  Já na porta, quase transpondo a soleira, lembra-se de que não pegou o frasco de álcool em gel, e volta meio irritado para pegá-lo! Sim, mesmo tendo uma infinidade de recipientes e de totens contendo álcool em gel 70% em todos os estabelecimentos comerciais, clínicas médicas, clínicas veterinárias, hospitais, bancos etc., você, como cidadão prevenido, leva o seu. E faz muito bem, vai que o seu seja de melhor qualidade que os disponibilizados nesses ambientes, né? Eu, particularmente, sempre levo um vidrinho de álcool em gel no bolso ou dentro do carro. Um homem prevenido vale por dois, não é o que dizem?

Parar complicar um pouco mais o simples ato de sair, junte-se a isso outros objetos que você teria que levar, mas que, por focar nos listados acima, indispensáveis nesses dias pandêmicos, acaba se esquecendo deles, como a carteira, a chave do carro, a lista de compras, o celular, a garrafa d’água, a blusa de frio, o guarda-chuva etc. etc. Quando você consegue, enfim, cruzar o portão de casa ou a portaria do prédio, já gastou um tempo enorme e seus nervos se desgastaram um pouco mais.

Agora, pense na volta. Pense no chegar em casa vindo da padaria, do supermercado, do hospital, do laboratório, do banco, lugares onde você, inevitavelmente, cruzou com pessoas, umas usando a máscara no queixo, ou nem isso, respirou o mesmo ar que elas, sentou-se no mesmo banco que elas, sem poder manter o devido distanciamento, tocou em objetos, em embalagens. Os cuidados se redobram, mais canseira: ter que lavar alguns itens da lista de compras, aspergir álcool em outros, livrar-se das embalagens, reaproveitar outras após higienizá-las, despir-se das roupas e colocá-las logo para lavar, tomar banho.

Ou seja, outra trabalheira!

Isso, obviamente, para quem está preocupado em se proteger do Coronavírus, estando ou não no grupo de risco. Preocupa-se em proteger a si mesmo e aos outros. Em outras palavras, prima por valorizar a vida.


[Crônica publicada, originalmente, no Jornal Opção, Goiânia, 2021]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Leitura de miniconto

 


A narrativa ácida e inquietante de Rodrigo Novaes de Almeida

 


 
Por Geraldo Lima

 

Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos [Patuá Editora, 2018], do escritor e editor Rodrigo Novaes de Almeida, traz vinte contos relativamente curtos que escancaram, com uma linguagem direta, sem rebuscamentos e pudores vocabulares, uma realidade dura, incômoda, em que os afetos e a esperança não prosperam. A obra, que esteve entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti 2019, é um exemplo da literatura contundente e essencial que se produz hoje no país.

Dito assim, entendemos logo que não se trata de literatura de entretenimento. Nada de prosa água com açúcar. A arma de fogo, o falo ereto, a masturbação, a violência urbana, a indiferença permeiam as histórias narradas, ora na primeira pessoa, ora na terceira. A temática, nesse caso, contempla, na maioria dos casos, o lado sombrio do ser humano. “Eu era uma criança que desejava crescer logo, odiava não ser levado a sério pelos adultos. Eu enxergava o desdém nos seus olhos. Tinha vontade de matar todos eles. O sentimento mudou um pouco aos doze anos, quando ganhei de dia da criança minha primeira arma de fogo” [pág. 75]. Como não enxergar, nessa criatura, um dos muitos tipos que foram forjados nesse caldo de brutalidade e boçalidade que hoje gangrenam nosso mundo?  

Ao adentrarmos as páginas do livro de Rodrigo Novaes, vamos nos deparar com a realidade brutal e distópica dos nossos dias e com os mistérios e pavores que rondam a vida humana. Num conto como Ondina, é o mistério, avizinhando-se do terror, que impera; já em Voyeur, a violência e a indiferença diante do ato atroz.  Que fique então bem claro: o autor não tem, realmente, com essas narrativas cruas e mergulhadas no mundo abissal da violência, do abuso sexual na infância, do voyeurismo, da solidão urbana, da masturbação desenfreada etc., a intenção de apaziguar o espírito do leitor ou da leitora. Sua narrativa é do tipo que provoca o desassossego, a reflexão sobre a natureza humana e suas atitudes, às vezes, desprovidas de lucidez e afeto.  

Rodrigo tece sua narrativa sem aliviar a mão, usando, às veze, frases curtas, que nos colocam diretamente em contato com a mais devastadora realidade, como a do conto Aos oito anos: “papai morreu em um acidente de carro quando eu tinha quinze anos. meu presente torto de debutante, ter me livrado daquele homem. dois mil quinhentos e cinquenta e oito dias, como foi que eu esqueci?”.  Além disso, usa da sutileza de fazer com que elementos de uma história apareçam em outra, criando, dessa maneira, um elo entre elas, um sentido de continuidade. Há que se prestar atenção nesse detalhe para entender, inclusive, o que acontece em determinada história.   

Ao concluirmos a leitura da obra Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos, somos, de imediato, instigados a pensar na contística de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que têm retratado, de modo preciso e implacável, esse universo sombrio das relações humanas, contaminadas, principalmente, pela violência e pela secura de afetos. Nessa linha de construção de uma narrativa ficcional que nos assombra e nos lança na inquietude, Rodrigo Novaes de Almeida se apresenta como um dos mais promissores escritores da sua geração. 


[Resenha publicada, originalmente, no Jornal Opção

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um recorte da construção de Brasília no romance de Lima Trindade


 
Por Geraldo Lima

 

Brasília tem servido de cenário ou tema para obras de gêneros literários diversos, mostrando, com isso, sua importância como centro do Poder e, ao mesmo tempo, como cidade que vai, aos poucos, criando sua própria identidade cultural. Quase sempre a vemos retratada já como centro urbano consolidado, em pleno desenvolvimento, exibindo tanto sua beleza arquitetônica, seu inusitado plano urbanístico, quanto os problemas sociais que a cercam ou espalham-se em seu interior. Vê-la retratada ainda durante a sua construção, ora com olhar de encanto, ora com olhar de crítica severa, é coisa rara de se ver. Em As margens do paraíso [romance, Cepe Editora, 2019, 269 páginas], o escritor Lima Trindade, nascido em Brasília e vivendo atualmente em Salvador, cumpre esse papel e nos transporta para o cenário de avenidas empoeiradas, canteiros de obras sob o comando de empreiteiras e empresas públicas, alojamentos precários, escritórios, boates e zonas de baixo meretrício, numa Brasília que marcha para ser inaugurada, impreterivelmente, no dia 21 de abril de 1960.

Antes, porém, de fazer com que a vida de seus protagonistas – três jovens brancos de diferentes camadas sociais – convirja para esse cenário épico da construção da nova capital do país, ele apresenta cada um deles em sua respectiva cidade: Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro. É nessas localidades, distantes umas das outras, que vemos como se deu a formação intelectual e afetiva desses jovens e de como os ecos da construção de Brasília chegavam até eles.  


A ESTRUTURA DO ROMANCE E A VIDA DOS PERSONAGENS

 

Como há dois momentos importantes marcando a vida dos protagonistas Leda, Rubem e Zaqueu, Lima Trindade optou, acertadamente, por dividir o livro em duas partes.

Na primeira, a narrativa é feita em 1ª pessoa e cada capítulo recebe o nome do narrador-personagem [Leda, Rubem, Zaqueu], assemelhando-se, nesse aspecto, ao romance Enquanto agonizo, de Faulkner. Desse modo, ficamos sabendo das frustrações, desejos e aspirações de cada protagonista, quase sempre em confronto com o meio em que vive. Leda sofre ao ser explorada na casa do padrinho, em Juazeiro, enquanto sonha com os artistas do rádio e do cinema. Aos poucos, o desejo que sente pelo padrinho vai complicando sua vida, a ponto de levá-la a um desfecho trágico.  Rubem, ao mesmo tempo em que se anima com a ascensão no emprego, frustra-se na vida amorosa, e isso será decisivo para que mude radicalmente seu projeto de vida longe dos bares e praias do Rio. Zaqueu, filho de pais ricos, pertencentes à elite anapolina, rebela-se e nega-se a continuar os estudos. O pai, que o leva ao prostíbulo para que se inicie na vida sexual, é o mesmo com o qual tem duros embates. Todos eles, impactados por acontecimentos trágicos, como é o caso de Leda e Zaqueu, ou frustrantes, no caso de Rubem, vão amadurecer e ganhar, praticamente, uma nova personalidade no universo agitado e tenso da capital que se ergue em pleno cerrado.  

Na segunda, ainda que haja dois capítulos curtos, que recebem também o nome do narrador-personagem [Mauro] e com narrativa em 1ª pessoa, vai predominar a narrativa em 3ª pessoa no longo capítulo intitulado “Brasília”.  No novo cenário de cidade em construção, de busca de novos horizontes, de adaptações ao novo ambiente, o narrador onisciente cumprirá bem a função de nos apresentar os personagens com maior riqueza de detalhes, tanto física quanto psicológica. Assim, ficará bem clara a mudança de caráter de Zaqueu e de estilo de vida de Rubem, e isso terá papel fundamental no desfecho da história. O uso do narrador onisciente permitirá, também, que o autor nos forneça um panorama das atividades desenvolvidas na construção da capital, envolvendo desde as empreiteiras até os prostíbulos na Cidade Livre, os quais, de certo modo, ganham relevo nesta narrativa de Lima Trindade. Aliás, o sexo tem um grande destaque nessa história, chegando a influenciar no seu andamento. Assim, podemos perceber que é nos prostíbulos e boates da Cidade Livre que ocorrerá boa parte dos encontros dos personagens. “Zaqueu estivera em outros bordéis da Cidade Livre antes. Divertira-se, bebera e, afora o prazer que desfrutara nos braços femininos, descobriu ser nesses espaços que as oportunidades de negócios se apresentavam com maior frequência. Não quaisquer negócios. Mas justamente os mais lucrativos. Assim como não se apresentavam em quaisquer bordéis” [página 180].

É interessante observar também que a construção frasal muda de uma parte para outra. Na primeira, ouvimos a voz de cada protagonista narrando, no presente, seu cotidiano e os conflitos nele inseridos, e sempre num ritmo mais acelerado, entrecortado, devido ao uso sistemático de frases curtas. Esse procedimento está bem de acordo com a estratégia narrativa adotada pelo autor para esse momento da história. Já na segunda, sob a ótica do narrador onisciente, com amplitude de olhar, as frases longas imprimem à narrativa, que se dá no passado, um ritmo mais lento e possibilitam um maior detalhamento do espaço, dos estados psicológicos e das características físicas dos vários personagens que aí transitam.

 

PESQUISA HISTÓRICA E IMAGINAÇÃO

 

As margens do paraíso é fruto de apurada pesquisa histórica realizada por Lima em cada localidade em que ocorrem os fatos narrados. Durante sua leitura, deparamo-nos com personagens reais envolvidos na construção de Brasília, como é o caso do político Israel Pinheiro e do escritor e também engenheiro Samuel Rawet, e com fatos do conhecimento de todos hoje em dia, como o massacre no alojamento da Pacheco Fernandes. No livro, já com a interferência da imaginação do autor, assistimos a esse triste episódio acontecer em outro lugar: “Meia hora depois, dois caminhões repletos de soldados da GEB ultrapassaram a fronteira dos portões da Estevão Muniz e estacionaram na parte dianteira do alojamento de solteiros, onde havia a maior concentração de operários da empreiteira” [página 258]. Em Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro, percebe-se o cuidado do autor em apresentar ambientes e situações culturais pertinentes ao momento histórico em que os personagens vivem. Vemos já a presença de mulheres com discurso e postura feminista, jovens articulando ações de esquerda no ambiente estudantil, uma juventude influenciada pelas novidades no campo da música e da moda etc.

Assim, a trama deste primeiro romance de Lima Trindade envolve um elemento ficcional, em que a imaginação do autor molda e move as ações dos personagens, até se cruzarem no cenário da construção de Brasília, e um elemento histórico, que serve tanto como cenário, ou pano de fundo, quanto como elemento fundamental no desenvolvimento da história e do seu desfecho.



Lima Trindade, nesta sua obra, além de nos apresentar de modo intenso a trajetória de três jovens brasileiros na década de 1950, nos transporta a um momento singular da história do nosso país, em que se sonhou verdadeiramente grande. Porém, ele não se furta ao dever de apontar os sérios problemas que essa empreitada, levada a cabo por Juscelino Kubitschek, produziu, como, por exemplo, a exploração da mão de obra dos candangos pelas empreiteiras. Em As margens do paraíso, como o título mesmo sugere, de modo irônico, já anunciam-se os graves problemas sociais que ainda hoje cercam o Plano Piloto e dão conta do fracasso do sonho de JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.    


[Resenha publicada, originalmente, na revista digital Diversos Afins]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Duelos: ou o descortinar da tragédia cotidiana que nos assombra



Por Geraldo Lima

 

Eltânia André, mineira de Cataguases, estreou na literatura com o livro de contos Meu nome agora é Jaque [Rona Editora, 2007]. Esse livro reúne várias histórias contadas por um único narrador [um contador de causos, podemos dizer assim], o Tizé, que, aposentado, passa a se denominar Jaque [“Já que estou aqui no mundo, vou viver plenamente cada dia”, pág.146]. São histórias que se passam no interior e são contadas num tom leve e bem-humorado. No seu segundo livro, Manhãs adiadas [contos, dobra literatura, 2012], a autora dá uma guinada no tom narrativo: as histórias, narradas por vozes diversas, são densas e desvelam o cotidiano de vidas humanas marcadas pela desilusão e pela falta de perspectiva. Assenta-lhes bem o verso do poeta Manuel Bandeira no poema Pneumatórax: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Agora, em Duelos [contos, Editora Patuá, 2018], Eltânia nos apresenta uma série de histórias em que adensa mais ainda o tom narrativo, expondo com lirismo e, às vezes, com secura, o desencanto da vida contemporânea num Brasil sitiado pela violência e pela mercantilização da vida humana.  

O livro já abre com um conto impactante, intitulado Uma das mil e uma noites, no qual a autora apresenta um recorte aterrador do Brasil atual: a violência contra homossexuais perpetrada por indivíduos de tendência fascista. “Um dos pontapés atingiu o crânio. Outro quebrou uma costela. O chute na cara. Bicha” (pág. 9). É esse espírito de extermínio, que contaminou a alma de parte do nosso povo, solapando o conceito de cordialidade do brasileiro, criado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, que esse conto expõe com crueza. É tão forte e apavorante a cena descrita que, a certa altura, o autor interrompe a sua criação, enojado: “...o sujeito ia partir para o ato – eu asfixiado, sem planejamento, retiro os dedos do teclado num átimo de lucidez, tentando estabelecer em que mundo dormitava meu pesadelo” (pág. 13). Podemos vê-lo, sufocado, premido pela necessidade de mostrar ao mundo essa atrocidade e, ao mesmo tempo, tomado pela sensação de impotência ante o terror: “Salve a Wanderléa, porra! Resignado, entendo que nunca pude salvar ninguém. Apenas indignar-me. Sinto náuseas. Não me reestabeleço. Os personagens assaltam-me, pedem para que a literatura seja vida e sopre neles o espírito que os moverá” (pág. 13). A metalinguagem aqui não se apresenta como mero artifício, mas, sim, como meio para expor os limites da criação literária e o papel do escritor diante do horror que nos sitia: “Estamos sitiados. Peço desculpas àquele poeta que sussurrou pela rede seu apelo por histórias mais líricas, poéticas e ternas – que também me rodeiam –, contudo elas hão de esperar, porque o mundo é esse caos obsessivo e possesso ladrando nos quintais” (pág.14).

Frente à ameaça de perda das liberdades democráticas e da escalada da violência, o escritor brasileiro parece se encontrar de novo diante da questão que Luís Costa Lima tentou responder no seu livro Por que Literatura? (Editora Vozes, 1969). Expondo sempre a importância de se valorizar a questão estética e nos alertando para o risco da simplificação da linguagem em busca de uma comunicação direta, ele escreve num dos ensaios que compõem o livro: “A tarefa da literatura continuará a ser, agora como antes, a de atingir e a de trazer na palavra a raiz das coisas onde se deposita a raiz do homem” (pág. 38). Imerso nesse dilema e nessa crise, o autor/personagem/narrador do conto de Eltânia se socorre das palavras de Ortega y Gasset [“eu sou eu e minha circunstância”], sabendo que não poderá jamais fechar os olhos para o mundo ao seu redor. “Ainda há para contar pelo menos outras mil histórias que não recolhi na Pérsia distante de Sherazade” (págs. 14 e 15). O como contar essas histórias, sem prejuízo do fator literário, é a questão que se impõe agora, e isso, como podemos ver nos demais contos de Duelos, Eltânia faz com perícia e extrema sensibilidade.

 

EXPERIMENTALISMO, BELEZA ESTÉTICA E TEMÁTICA RELEVANTE

 

Em pelo menos quatro dos contos de Duelos, Eltânia explora o aspecto experimental da narrativa. São eles: Uma das mil e uma noites, Enquanto lia Faulkner, Matança de passarinhos e Teatro a céu aberto.

Em Uma das mil e uma noites, como já destaquei, há o corte abrupto da narrativa, no momento em que se intensifica a violência contra o personagem homossexual, para dar voz ao autor que, diante da gravidade da situação, sente-se incapaz de seguir adiante com a história que está contando. Só o narrar, no plano da imaginação, não lhe basta mais. A realidade que o cerca é brutal demais e precisa ser denunciada. “Então, entendo finalmente que eu preciso falar do nosso assombro, preciso falar da violência” (pág. 13). Nesse instante, o narrativo e o argumentativo se mesclam para dar conta da necessidade de desabafo do autor. No conto Enquanto lia Faulkner, temos uma narrativa em várias vozes: a do moribundo, a do irmão, a da esposa e a de outros parentes que estão ao lado do leito de morte do protagonista. É uma cena bastante teatral. São blocos de narrativa, de monólogo, de fluxo de consciência, que se justapõem para nos revelar o universo de hipocrisia e superficialidade das relações familiares no meio burguês. O título e a própria estrutura do texto fazem referência, como se pode notar, ao maravilhoso romance de William Faulkner, Enquanto agonizo. Matança de Passarinhos, que nos mostra o inseguro e tenso mundo de um grupo de crianças vivendo em meio a tiroteios na periferia, mais especificamente no trajeto escola-casa, estrutura-se como um texto-coral, ou narrativa-coral, em que as vozes, tensionadas pelo risco de morte iminente, se sucedem num falar exaltado e sem prévia indicação. Desse modo, temos uma visão precisa da situação caótica e violenta em que vivem essas crianças, que são abatidas como se fossem passarinhos.  Teatro a céu aberto, como o título aponta, tem muito a ver com teatro mesmo: a estrutura do texto é o de uma peça teatral. O diálogo, embate ou duelo, dá-se entre o Narrador e Romeu, e mais uma vez discute-se aqui a questão literária ou o real poder da literatura. “Há a pergunta com a resposta implícita: a literatura muda o mundo?”, indaga o Narrador a Romeu (pág. 110). O Narrador, neste caso, tem o poder de demiurgo e pode decidir sobre o destino do personagem, no caso, Romeu, este uma clara referência ao personagem de Shakespeare. Metalinguagem e mistura de gêneros literários fazem-se presentes também neste texto, dando conta da grande habilidade da autora de transitar entre as várias camadas da criação estética.

Compondo ainda o volume, temos dois contos de extrema beleza estética e força literária. São narrativas em que a densidade poética da linguagem e a presença de frases, geralmente curtas, tornam o conteúdo ainda mais expressivo e impactante. O primeiro, Águas de dezembro, nos introduz no ambiente de pobreza, assolado todos os anos pela fúria da natureza [no caso, as cheias do rio], no qual uma mulher, marcada pela passagem do tempo e pela tragédia, tem ainda disposição para “garimpar sombras nessas águas-barcas do Lava-pés, riozinho da vida que corre em nós” (pág. 69). O segundo é Barreira liberada, que nos fala de um amor lésbico e da angústia da espera. Aos poucos, vamos conhecendo a personalidade complicada da protagonista e sua busca por um viver intenso. “Fui embora, batendo a porta. Mais uma que fecho” (pág. 96). E olhem só a beleza desta imagem: “Macia sua pele, seu perdão” (pág. 96).  É, para mim, uma das narrativas ficcionais mais belas escritas em língua portuguesa. Merece estar em qualquer antologia dos melhores contos do século XXI. Desse modo, devemos prestar mais atenção à produção literária da mineira Eltânia André, que vem dando mostras de estar, cada vez mais, afiada no trato com a linguagem literária e com aflorada sensibilidade para captar as angústias do ser humano e retratar criticamente as mazelas sociais do nosso país. linguagem e a presença de frases, geralmente curtas, tornam o conteúdo ainda mais expressivo e impactante. O primeiro, Águas de dezembro, nos introduz no ambiente de pobreza, assolado todos os anos pela fúria da natureza [no caso, as cheias do rio], no qual uma mulher, marcada pela passagem do tempo e pela tragédia, tem ainda disposição para “garimpar sombras nessas águas-barcas do Lava-pés, riozinho da vida que corre em nós” (pág. 69). O segundo é Barreira liberada, que nos fala de um amor lésbico e da angústia da espera. Aos poucos, vamos conhecendo a personalidade complicada da protagonista e sua busca por um viver intenso. “Fui embora, batendo a porta. Mais uma que fecho” (pág. 96). E olhem só a beleza desta imagem: “Macia sua pele, seu perdão” (pág. 96).  É, para mim, uma das narrativas ficcionais mais belas escritas em língua portuguesa. Merece estar em qualquer antologia dos melhores contos do século XXI. Desse modo, devemos prestar mais atenção à produção literária da mineira Eltânia André, que vem dando mostras de estar, cada vez mais, afiada no trato com a linguagem literária e com aflorada sensibilidade para captar as angústias do ser humano e retratar criticamente as mazelas sociais do nosso país.


[Resenha publicada, originalmente, no Correio Braziliense e no Suplemento Literário de Minas Gerais]