domingo, 21 de março de 2021

É melhor ficar em casa

                                                                              [foto:geraldolima]

Por Geraldo Lima

 

Sei que há os que ainda saem de casa despreocupadíssimos como se nada de importante e perigoso estivesse acontecendo, mas o fato é que, pelo menos para mim, sair de casa para resolver as questões do dia a dia tornou-se um ato trabalhoso e estressante. São muitos os cuidados que devem ser tomados para que essa saída esteja dentro do protocolo com as medidas sanitárias adotadas para conter o avanço da Covid-19.

E é aí que o sair de casa se complica.

O ritual – para os que estão fora do grupo dos negacionistas – começa com a colocação da máscara. Até aí, tranquilo. É só escolher um dos modelitos na gaveta da cômoda [a máscara com emblema do time do coração, a máscara com as cores da Bandeira Nacional, a máscara combinando com a blusa e o sapato, a máscara indicada pelo especialista tal...], prender os elásticos atrás das orelhas [nunca pensamos que elas teriam outra utilidade senão a de sustentar as hastes dos óculos] e sair sem temor.

Por falar em óculos, nestes tempos de cuidados extremos, usá-los acarreta um trabalho extra na hora de sair, principalmente se for de carro. Caso você use óculos de grau, precisará passar sabonete nas lentes para que não embacem com o hálito quente que escapa pelas bordas superiores da máscara. Aliás, esse foi um dos primeiros macetes que aprendi logo no início da pandemia, e tem me valido muito! É impressionante o grande número de MacGyvers que surge para auxiliar-nos nessas horas de aperto.

Um viva para eles!

Com máscara no rosto e óculos preparados contra embaçamento, você se lança à missão do dia.  Já na porta, quase transpondo a soleira, lembra-se de que não pegou o frasco de álcool em gel, e volta meio irritado para pegá-lo! Sim, mesmo tendo uma infinidade de recipientes e de totens contendo álcool em gel 70% em todos os estabelecimentos comerciais, clínicas médicas, clínicas veterinárias, hospitais, bancos etc., você, como cidadão prevenido, leva o seu. E faz muito bem, vai que o seu seja de melhor qualidade que os disponibilizados nesses ambientes, né? Eu, particularmente, sempre levo um vidrinho de álcool em gel no bolso ou dentro do carro. Um homem prevenido vale por dois, não é o que dizem?

Parar complicar um pouco mais o simples ato de sair, junte-se a isso outros objetos que você teria que levar, mas que, por focar nos listados acima, indispensáveis nesses dias pandêmicos, acaba se esquecendo deles, como a carteira, a chave do carro, a lista de compras, o celular, a garrafa d’água, a blusa de frio, o guarda-chuva etc. etc. Quando você consegue, enfim, cruzar o portão de casa ou a portaria do prédio, já gastou um tempo enorme e seus nervos se desgastaram um pouco mais.

Agora, pense na volta. Pense no chegar em casa vindo da padaria, do supermercado, do hospital, do laboratório, do banco, lugares onde você, inevitavelmente, cruzou com pessoas, umas usando a máscara no queixo, ou nem isso, respirou o mesmo ar que elas, sentou-se no mesmo banco que elas, sem poder manter o devido distanciamento, tocou em objetos, em embalagens. Os cuidados se redobram, mais canseira: ter que lavar alguns itens da lista de compras, aspergir álcool em outros, livrar-se das embalagens, reaproveitar outras após higienizá-las, despir-se das roupas e colocá-las logo para lavar, tomar banho.

Ou seja, outra trabalheira!

Isso, obviamente, para quem está preocupado em se proteger do Coronavírus, estando ou não no grupo de risco. Preocupa-se em proteger a si mesmo e aos outros. Em outras palavras, prima por valorizar a vida.


[Crônica publicada, originalmente, no Jornal Opção, Goiânia, 2021]

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

Leitura de miniconto

 


A narrativa ácida e inquietante de Rodrigo Novaes de Almeida

 


 
Por Geraldo Lima

 

Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos [Patuá Editora, 2018], do escritor e editor Rodrigo Novaes de Almeida, traz vinte contos relativamente curtos que escancaram, com uma linguagem direta, sem rebuscamentos e pudores vocabulares, uma realidade dura, incômoda, em que os afetos e a esperança não prosperam. A obra, que esteve entre os semifinalistas do Prêmio Jabuti 2019, é um exemplo da literatura contundente e essencial que se produz hoje no país.

Dito assim, entendemos logo que não se trata de literatura de entretenimento. Nada de prosa água com açúcar. A arma de fogo, o falo ereto, a masturbação, a violência urbana, a indiferença permeiam as histórias narradas, ora na primeira pessoa, ora na terceira. A temática, nesse caso, contempla, na maioria dos casos, o lado sombrio do ser humano. “Eu era uma criança que desejava crescer logo, odiava não ser levado a sério pelos adultos. Eu enxergava o desdém nos seus olhos. Tinha vontade de matar todos eles. O sentimento mudou um pouco aos doze anos, quando ganhei de dia da criança minha primeira arma de fogo” [pág. 75]. Como não enxergar, nessa criatura, um dos muitos tipos que foram forjados nesse caldo de brutalidade e boçalidade que hoje gangrenam nosso mundo?  

Ao adentrarmos as páginas do livro de Rodrigo Novaes, vamos nos deparar com a realidade brutal e distópica dos nossos dias e com os mistérios e pavores que rondam a vida humana. Num conto como Ondina, é o mistério, avizinhando-se do terror, que impera; já em Voyeur, a violência e a indiferença diante do ato atroz.  Que fique então bem claro: o autor não tem, realmente, com essas narrativas cruas e mergulhadas no mundo abissal da violência, do abuso sexual na infância, do voyeurismo, da solidão urbana, da masturbação desenfreada etc., a intenção de apaziguar o espírito do leitor ou da leitora. Sua narrativa é do tipo que provoca o desassossego, a reflexão sobre a natureza humana e suas atitudes, às vezes, desprovidas de lucidez e afeto.  

Rodrigo tece sua narrativa sem aliviar a mão, usando, às veze, frases curtas, que nos colocam diretamente em contato com a mais devastadora realidade, como a do conto Aos oito anos: “papai morreu em um acidente de carro quando eu tinha quinze anos. meu presente torto de debutante, ter me livrado daquele homem. dois mil quinhentos e cinquenta e oito dias, como foi que eu esqueci?”.  Além disso, usa da sutileza de fazer com que elementos de uma história apareçam em outra, criando, dessa maneira, um elo entre elas, um sentido de continuidade. Há que se prestar atenção nesse detalhe para entender, inclusive, o que acontece em determinada história.   

Ao concluirmos a leitura da obra Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos, somos, de imediato, instigados a pensar na contística de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que têm retratado, de modo preciso e implacável, esse universo sombrio das relações humanas, contaminadas, principalmente, pela violência e pela secura de afetos. Nessa linha de construção de uma narrativa ficcional que nos assombra e nos lança na inquietude, Rodrigo Novaes de Almeida se apresenta como um dos mais promissores escritores da sua geração. 


[Resenha publicada, originalmente, no Jornal Opção

quarta-feira, 23 de dezembro de 2020

Um recorte da construção de Brasília no romance de Lima Trindade


 
Por Geraldo Lima

 

Brasília tem servido de cenário ou tema para obras de gêneros literários diversos, mostrando, com isso, sua importância como centro do Poder e, ao mesmo tempo, como cidade que vai, aos poucos, criando sua própria identidade cultural. Quase sempre a vemos retratada já como centro urbano consolidado, em pleno desenvolvimento, exibindo tanto sua beleza arquitetônica, seu inusitado plano urbanístico, quanto os problemas sociais que a cercam ou espalham-se em seu interior. Vê-la retratada ainda durante a sua construção, ora com olhar de encanto, ora com olhar de crítica severa, é coisa rara de se ver. Em As margens do paraíso [romance, Cepe Editora, 2019, 269 páginas], o escritor Lima Trindade, nascido em Brasília e vivendo atualmente em Salvador, cumpre esse papel e nos transporta para o cenário de avenidas empoeiradas, canteiros de obras sob o comando de empreiteiras e empresas públicas, alojamentos precários, escritórios, boates e zonas de baixo meretrício, numa Brasília que marcha para ser inaugurada, impreterivelmente, no dia 21 de abril de 1960.

Antes, porém, de fazer com que a vida de seus protagonistas – três jovens brancos de diferentes camadas sociais – convirja para esse cenário épico da construção da nova capital do país, ele apresenta cada um deles em sua respectiva cidade: Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro. É nessas localidades, distantes umas das outras, que vemos como se deu a formação intelectual e afetiva desses jovens e de como os ecos da construção de Brasília chegavam até eles.  


A ESTRUTURA DO ROMANCE E A VIDA DOS PERSONAGENS

 

Como há dois momentos importantes marcando a vida dos protagonistas Leda, Rubem e Zaqueu, Lima Trindade optou, acertadamente, por dividir o livro em duas partes.

Na primeira, a narrativa é feita em 1ª pessoa e cada capítulo recebe o nome do narrador-personagem [Leda, Rubem, Zaqueu], assemelhando-se, nesse aspecto, ao romance Enquanto agonizo, de Faulkner. Desse modo, ficamos sabendo das frustrações, desejos e aspirações de cada protagonista, quase sempre em confronto com o meio em que vive. Leda sofre ao ser explorada na casa do padrinho, em Juazeiro, enquanto sonha com os artistas do rádio e do cinema. Aos poucos, o desejo que sente pelo padrinho vai complicando sua vida, a ponto de levá-la a um desfecho trágico.  Rubem, ao mesmo tempo em que se anima com a ascensão no emprego, frustra-se na vida amorosa, e isso será decisivo para que mude radicalmente seu projeto de vida longe dos bares e praias do Rio. Zaqueu, filho de pais ricos, pertencentes à elite anapolina, rebela-se e nega-se a continuar os estudos. O pai, que o leva ao prostíbulo para que se inicie na vida sexual, é o mesmo com o qual tem duros embates. Todos eles, impactados por acontecimentos trágicos, como é o caso de Leda e Zaqueu, ou frustrantes, no caso de Rubem, vão amadurecer e ganhar, praticamente, uma nova personalidade no universo agitado e tenso da capital que se ergue em pleno cerrado.  

Na segunda, ainda que haja dois capítulos curtos, que recebem também o nome do narrador-personagem [Mauro] e com narrativa em 1ª pessoa, vai predominar a narrativa em 3ª pessoa no longo capítulo intitulado “Brasília”.  No novo cenário de cidade em construção, de busca de novos horizontes, de adaptações ao novo ambiente, o narrador onisciente cumprirá bem a função de nos apresentar os personagens com maior riqueza de detalhes, tanto física quanto psicológica. Assim, ficará bem clara a mudança de caráter de Zaqueu e de estilo de vida de Rubem, e isso terá papel fundamental no desfecho da história. O uso do narrador onisciente permitirá, também, que o autor nos forneça um panorama das atividades desenvolvidas na construção da capital, envolvendo desde as empreiteiras até os prostíbulos na Cidade Livre, os quais, de certo modo, ganham relevo nesta narrativa de Lima Trindade. Aliás, o sexo tem um grande destaque nessa história, chegando a influenciar no seu andamento. Assim, podemos perceber que é nos prostíbulos e boates da Cidade Livre que ocorrerá boa parte dos encontros dos personagens. “Zaqueu estivera em outros bordéis da Cidade Livre antes. Divertira-se, bebera e, afora o prazer que desfrutara nos braços femininos, descobriu ser nesses espaços que as oportunidades de negócios se apresentavam com maior frequência. Não quaisquer negócios. Mas justamente os mais lucrativos. Assim como não se apresentavam em quaisquer bordéis” [página 180].

É interessante observar também que a construção frasal muda de uma parte para outra. Na primeira, ouvimos a voz de cada protagonista narrando, no presente, seu cotidiano e os conflitos nele inseridos, e sempre num ritmo mais acelerado, entrecortado, devido ao uso sistemático de frases curtas. Esse procedimento está bem de acordo com a estratégia narrativa adotada pelo autor para esse momento da história. Já na segunda, sob a ótica do narrador onisciente, com amplitude de olhar, as frases longas imprimem à narrativa, que se dá no passado, um ritmo mais lento e possibilitam um maior detalhamento do espaço, dos estados psicológicos e das características físicas dos vários personagens que aí transitam.

 

PESQUISA HISTÓRICA E IMAGINAÇÃO

 

As margens do paraíso é fruto de apurada pesquisa histórica realizada por Lima em cada localidade em que ocorrem os fatos narrados. Durante sua leitura, deparamo-nos com personagens reais envolvidos na construção de Brasília, como é o caso do político Israel Pinheiro e do escritor e também engenheiro Samuel Rawet, e com fatos do conhecimento de todos hoje em dia, como o massacre no alojamento da Pacheco Fernandes. No livro, já com a interferência da imaginação do autor, assistimos a esse triste episódio acontecer em outro lugar: “Meia hora depois, dois caminhões repletos de soldados da GEB ultrapassaram a fronteira dos portões da Estevão Muniz e estacionaram na parte dianteira do alojamento de solteiros, onde havia a maior concentração de operários da empreiteira” [página 258]. Em Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro, percebe-se o cuidado do autor em apresentar ambientes e situações culturais pertinentes ao momento histórico em que os personagens vivem. Vemos já a presença de mulheres com discurso e postura feminista, jovens articulando ações de esquerda no ambiente estudantil, uma juventude influenciada pelas novidades no campo da música e da moda etc.

Assim, a trama deste primeiro romance de Lima Trindade envolve um elemento ficcional, em que a imaginação do autor molda e move as ações dos personagens, até se cruzarem no cenário da construção de Brasília, e um elemento histórico, que serve tanto como cenário, ou pano de fundo, quanto como elemento fundamental no desenvolvimento da história e do seu desfecho.



Lima Trindade, nesta sua obra, além de nos apresentar de modo intenso a trajetória de três jovens brasileiros na década de 1950, nos transporta a um momento singular da história do nosso país, em que se sonhou verdadeiramente grande. Porém, ele não se furta ao dever de apontar os sérios problemas que essa empreitada, levada a cabo por Juscelino Kubitschek, produziu, como, por exemplo, a exploração da mão de obra dos candangos pelas empreiteiras. Em As margens do paraíso, como o título mesmo sugere, de modo irônico, já anunciam-se os graves problemas sociais que ainda hoje cercam o Plano Piloto e dão conta do fracasso do sonho de JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.    


[Resenha publicada, originalmente, na revista digital Diversos Afins]

segunda-feira, 7 de dezembro de 2020

Duelos: ou o descortinar da tragédia cotidiana que nos assombra



Por Geraldo Lima

 

Eltânia André, mineira de Cataguases, estreou na literatura com o livro de contos Meu nome agora é Jaque [Rona Editora, 2007]. Esse livro reúne várias histórias contadas por um único narrador [um contador de causos, podemos dizer assim], o Tizé, que, aposentado, passa a se denominar Jaque [“Já que estou aqui no mundo, vou viver plenamente cada dia”, pág.146]. São histórias que se passam no interior e são contadas num tom leve e bem-humorado. No seu segundo livro, Manhãs adiadas [contos, dobra literatura, 2012], a autora dá uma guinada no tom narrativo: as histórias, narradas por vozes diversas, são densas e desvelam o cotidiano de vidas humanas marcadas pela desilusão e pela falta de perspectiva. Assenta-lhes bem o verso do poeta Manuel Bandeira no poema Pneumatórax: “A vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Agora, em Duelos [contos, Editora Patuá, 2018], Eltânia nos apresenta uma série de histórias em que adensa mais ainda o tom narrativo, expondo com lirismo e, às vezes, com secura, o desencanto da vida contemporânea num Brasil sitiado pela violência e pela mercantilização da vida humana.  

O livro já abre com um conto impactante, intitulado Uma das mil e uma noites, no qual a autora apresenta um recorte aterrador do Brasil atual: a violência contra homossexuais perpetrada por indivíduos de tendência fascista. “Um dos pontapés atingiu o crânio. Outro quebrou uma costela. O chute na cara. Bicha” (pág. 9). É esse espírito de extermínio, que contaminou a alma de parte do nosso povo, solapando o conceito de cordialidade do brasileiro, criado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, que esse conto expõe com crueza. É tão forte e apavorante a cena descrita que, a certa altura, o autor interrompe a sua criação, enojado: “...o sujeito ia partir para o ato – eu asfixiado, sem planejamento, retiro os dedos do teclado num átimo de lucidez, tentando estabelecer em que mundo dormitava meu pesadelo” (pág. 13). Podemos vê-lo, sufocado, premido pela necessidade de mostrar ao mundo essa atrocidade e, ao mesmo tempo, tomado pela sensação de impotência ante o terror: “Salve a Wanderléa, porra! Resignado, entendo que nunca pude salvar ninguém. Apenas indignar-me. Sinto náuseas. Não me reestabeleço. Os personagens assaltam-me, pedem para que a literatura seja vida e sopre neles o espírito que os moverá” (pág. 13). A metalinguagem aqui não se apresenta como mero artifício, mas, sim, como meio para expor os limites da criação literária e o papel do escritor diante do horror que nos sitia: “Estamos sitiados. Peço desculpas àquele poeta que sussurrou pela rede seu apelo por histórias mais líricas, poéticas e ternas – que também me rodeiam –, contudo elas hão de esperar, porque o mundo é esse caos obsessivo e possesso ladrando nos quintais” (pág.14).

Frente à ameaça de perda das liberdades democráticas e da escalada da violência, o escritor brasileiro parece se encontrar de novo diante da questão que Luís Costa Lima tentou responder no seu livro Por que Literatura? (Editora Vozes, 1969). Expondo sempre a importância de se valorizar a questão estética e nos alertando para o risco da simplificação da linguagem em busca de uma comunicação direta, ele escreve num dos ensaios que compõem o livro: “A tarefa da literatura continuará a ser, agora como antes, a de atingir e a de trazer na palavra a raiz das coisas onde se deposita a raiz do homem” (pág. 38). Imerso nesse dilema e nessa crise, o autor/personagem/narrador do conto de Eltânia se socorre das palavras de Ortega y Gasset [“eu sou eu e minha circunstância”], sabendo que não poderá jamais fechar os olhos para o mundo ao seu redor. “Ainda há para contar pelo menos outras mil histórias que não recolhi na Pérsia distante de Sherazade” (págs. 14 e 15). O como contar essas histórias, sem prejuízo do fator literário, é a questão que se impõe agora, e isso, como podemos ver nos demais contos de Duelos, Eltânia faz com perícia e extrema sensibilidade.

 

EXPERIMENTALISMO, BELEZA ESTÉTICA E TEMÁTICA RELEVANTE

 

Em pelo menos quatro dos contos de Duelos, Eltânia explora o aspecto experimental da narrativa. São eles: Uma das mil e uma noites, Enquanto lia Faulkner, Matança de passarinhos e Teatro a céu aberto.

Em Uma das mil e uma noites, como já destaquei, há o corte abrupto da narrativa, no momento em que se intensifica a violência contra o personagem homossexual, para dar voz ao autor que, diante da gravidade da situação, sente-se incapaz de seguir adiante com a história que está contando. Só o narrar, no plano da imaginação, não lhe basta mais. A realidade que o cerca é brutal demais e precisa ser denunciada. “Então, entendo finalmente que eu preciso falar do nosso assombro, preciso falar da violência” (pág. 13). Nesse instante, o narrativo e o argumentativo se mesclam para dar conta da necessidade de desabafo do autor. No conto Enquanto lia Faulkner, temos uma narrativa em várias vozes: a do moribundo, a do irmão, a da esposa e a de outros parentes que estão ao lado do leito de morte do protagonista. É uma cena bastante teatral. São blocos de narrativa, de monólogo, de fluxo de consciência, que se justapõem para nos revelar o universo de hipocrisia e superficialidade das relações familiares no meio burguês. O título e a própria estrutura do texto fazem referência, como se pode notar, ao maravilhoso romance de William Faulkner, Enquanto agonizo. Matança de Passarinhos, que nos mostra o inseguro e tenso mundo de um grupo de crianças vivendo em meio a tiroteios na periferia, mais especificamente no trajeto escola-casa, estrutura-se como um texto-coral, ou narrativa-coral, em que as vozes, tensionadas pelo risco de morte iminente, se sucedem num falar exaltado e sem prévia indicação. Desse modo, temos uma visão precisa da situação caótica e violenta em que vivem essas crianças, que são abatidas como se fossem passarinhos.  Teatro a céu aberto, como o título aponta, tem muito a ver com teatro mesmo: a estrutura do texto é o de uma peça teatral. O diálogo, embate ou duelo, dá-se entre o Narrador e Romeu, e mais uma vez discute-se aqui a questão literária ou o real poder da literatura. “Há a pergunta com a resposta implícita: a literatura muda o mundo?”, indaga o Narrador a Romeu (pág. 110). O Narrador, neste caso, tem o poder de demiurgo e pode decidir sobre o destino do personagem, no caso, Romeu, este uma clara referência ao personagem de Shakespeare. Metalinguagem e mistura de gêneros literários fazem-se presentes também neste texto, dando conta da grande habilidade da autora de transitar entre as várias camadas da criação estética.

Compondo ainda o volume, temos dois contos de extrema beleza estética e força literária. São narrativas em que a densidade poética da linguagem e a presença de frases, geralmente curtas, tornam o conteúdo ainda mais expressivo e impactante. O primeiro, Águas de dezembro, nos introduz no ambiente de pobreza, assolado todos os anos pela fúria da natureza [no caso, as cheias do rio], no qual uma mulher, marcada pela passagem do tempo e pela tragédia, tem ainda disposição para “garimpar sombras nessas águas-barcas do Lava-pés, riozinho da vida que corre em nós” (pág. 69). O segundo é Barreira liberada, que nos fala de um amor lésbico e da angústia da espera. Aos poucos, vamos conhecendo a personalidade complicada da protagonista e sua busca por um viver intenso. “Fui embora, batendo a porta. Mais uma que fecho” (pág. 96). E olhem só a beleza desta imagem: “Macia sua pele, seu perdão” (pág. 96).  É, para mim, uma das narrativas ficcionais mais belas escritas em língua portuguesa. Merece estar em qualquer antologia dos melhores contos do século XXI. Desse modo, devemos prestar mais atenção à produção literária da mineira Eltânia André, que vem dando mostras de estar, cada vez mais, afiada no trato com a linguagem literária e com aflorada sensibilidade para captar as angústias do ser humano e retratar criticamente as mazelas sociais do nosso país. linguagem e a presença de frases, geralmente curtas, tornam o conteúdo ainda mais expressivo e impactante. O primeiro, Águas de dezembro, nos introduz no ambiente de pobreza, assolado todos os anos pela fúria da natureza [no caso, as cheias do rio], no qual uma mulher, marcada pela passagem do tempo e pela tragédia, tem ainda disposição para “garimpar sombras nessas águas-barcas do Lava-pés, riozinho da vida que corre em nós” (pág. 69). O segundo é Barreira liberada, que nos fala de um amor lésbico e da angústia da espera. Aos poucos, vamos conhecendo a personalidade complicada da protagonista e sua busca por um viver intenso. “Fui embora, batendo a porta. Mais uma que fecho” (pág. 96). E olhem só a beleza desta imagem: “Macia sua pele, seu perdão” (pág. 96).  É, para mim, uma das narrativas ficcionais mais belas escritas em língua portuguesa. Merece estar em qualquer antologia dos melhores contos do século XXI. Desse modo, devemos prestar mais atenção à produção literária da mineira Eltânia André, que vem dando mostras de estar, cada vez mais, afiada no trato com a linguagem literária e com aflorada sensibilidade para captar as angústias do ser humano e retratar criticamente as mazelas sociais do nosso país.


[Resenha publicada, originalmente, no Correio Braziliense e no Suplemento Literário de Minas Gerais]

sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A live

 

 Por Geraldo Lima

 

Do nada, decidiu fazer uma live.

Pensou em convidar os amigos [os das redes sociais, os do chope no boteco] e os parentes mais próximos para o evento? Que nada! Não postou cartaz no Instagram nem no Facebook, tampouco o mandou no direct ou no inbox. Não convidou ninguém pelo WhatsApp, embora tivesse um número bastante expressivo de pessoas na sua lista de contatos.

Nada, nada, nada. Simplesmente decidiu e, na mesma hora, apareceu no Instagram diante de uma multidão de usuários da rede cegos para a sua figura anônima.

Andrezinho acabara de entrar, para verificar quantas pessoas haviam visto e curtido o seu post de uma selfie que fizera à noite, só de pijama, quando deu de cara com a live do Jorjão. Na verdade, deu de cara com sua cara redonda aparentemente travada numa expressão que não denotava a que viera. Jorjão nem piscava. Os lábios grossos pareciam grudados com cola. A respiração parecia bem controlada, como se não entrasse nem saísse ar pelas narinas. Nem o aviso de que o amigo acabara de entrar mudou a fria expressão do seu rosto. Nem o segundo aviso de que outra pessoa havia entrado, a usuária laura_2233, alterou sua fisionomia fechada.

Que merda é essa?!, Andrezinho se perguntava. Então o cara ia fazer uma live [era uma live aquilo, não era?] e nem o havia convidado? Grande amigo, hein? Já meio puto, tanto com a falta de ação do outro quanto com o fato de ele não o ter avisado, resolveu lhe perguntar do que se tratava aquilo. Mas a mulher que havia entrado há pouco, talvez mais ansiosa que ele, perguntou primeiro.

Jorjão respondeu? Que nada! Continuava exibindo, impávido, a mesma cara negra travada num frame que não seguia adiante nem a pau.

 A essa altura, mais oito pessoas haviam entrado, o que já era um bom público para uma live sobre a qual ninguém ficara sabendo. Mas Jorjão continuava na dele, imutável. Há cinco minutos se encontrava assim, enquanto todos esperavam pelo início da live [se é que já não havia começado de fato]. O que levaria alguém sem status algum de celebridade ou subcelebridade, de artista famoso e de relevante importância para a cultura nacional, ainda mais em meio a uma quantidade absurda de lives pipocando todos os dias no Instagram, no Facebook, no YouTube, na TV, todas na busca frenética por audiência durante a pandemia de Covid-19, o que levaria alguém nessas condições a se lançar numa live-surpresa e permanecer assim, imóvel e enigmático como numa performance? Nesse ponto Andrezinho se lembrou das performances da sérvia Marina Abramovic.

É uma performance, Jorjão?

Nenhuma palavra, nenhum gesto, nada, nada. Só o olhar penetrante do amigo atravessando a tela do celular e batendo direto no olhar dos espectadores virtuais.

A mulher, a laura_2233, vazara há tempos. Restavam ainda nove curiosos, gente com tempo de sobra e muita paciência para ficar ali, tentando decifrar a cara negra e intransponível do Jorjão. A cara-performance do Jorjão.  Alguém entrou, deu uma espiada rápida e saiu. Mais dois aproveitaram a deixa e caíram fora. Jorjão parecia não se incomodar com esse entra e sai.  Uma amiga em comum dos dois entrou, ficou um pouco, clicou no emoticon de mãos batendo palmas, e foi-se também. Mais um saiu; antes, porém, escreveu: Que porra é isso?! Um minuto depois, restavam Andrezinho e um persistente aldodasilva3. Andrezinho estava doido pra se mandar, já não aguentava mais aquilo, mas a curiosidade batia mais forte: queria saber aonde Jorjão pretendia chegar com aquela esquisitice.  Se aquela imagem estática tinha algum significado, seria no campo da criação artística, da provocação estética. Mas até onde sabia, ele não tinha veia artística alguma. Sabia, sim, que gostava de tirar sarro com a cara dos outros, era um gozador nato, e talvez fosse essa a sua intenção agora. Mas poderia ser também um protesto: dia desses ele havia sido vítima de racismo, coisa que ele não gostava de comentar, mas que o tinha magoado muito. Vai ver era isso.

Ou não.

Na real, Jorjão havia virado estátua viva no Instagram, – e agora só restava Andrezinho contemplando sua imobilidade. 

Mais tarde, assim que ligasse para ele, Andrezinho ia querer saber que presepada tinha sido aquela. Mas ia tirar mesmo um sarro da cara dele só quando passasse a pandemia do Coronavírus e os dois pudessem tomar de novo um chope juntos. Até lá, máscara na cara e nada de aglomeração, que “o seguro morreu de velho”. 

Antes de sair, assim meio sem jeito de deixar o amigo ali, sozinho, escreveu e publicou, Valeu, Jorjão! Em seguida, clicou no emoticon das mãos batendo palmas, – e mandou logo uns vinte, no exagero mesmo, só pra zoar o performer.       


sábado, 18 de julho de 2020

Um crime e as feridas do nosso passado histórico



Por Geraldo Lima

O romance policial e o romance histórico sempre foram alvo do desprezo da crítica e da academia, apesar do enorme sucesso que sempre alcançaram junto ao público. Desde Edgar Allan Poe, pai da narrativa policial, e de Sir Walter Scott, tido como o criador do romance histórico, esses gêneros ficcionais têm se mantido de pé, e parece que vão continuar assim, visto que o número de autores e autoras que se dedicam a eles só tem crescido, fora e dentro do nosso país.

Agora, quando falamos do romance histórico-policial, temos uma outra realidade, porque aí a operação de construir uma estrutura narrativa que une os dois estilos, o policial e o histórico, torna-se mais complexa e arriscada.  No caso desse gênero literário, a estrutura narrativa apresenta uma trama policial, ligada, geralmente, à investigação de um crime, e, também, um registro histórico, juntando personagens reais e fictícios. Costurar essas duas realidades calcadas na imaginação e no fato histórico, num ritmo que prenda a atenção do leitor, é que demanda do escritor ou da escritora uma habilidade extra. A jornalista e escritora Eliana Alves Cruz encarou o desafio e trouxe a público o seu romance O crime do Cais do Valongo [Editora Malê, 2018], fruto de exaustiva pesquisa histórica e força imaginativa.

O crime do Cais do Valongo é um romance histórico-policial, já que sua narrativa parte da investigação de um crime e se soma às informações históricas referentes ao contexto em que ele se dá. O crime, no caso, refere-se ao assassinato do rico comerciante Bernardo Lourenço Viana, noticiado na Gazeta do Rio de Janeiro à época. Já o registro histórico apresenta o Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX, com a Família Real já residindo no Brasil, e, de maneira mais minuciosa, os arredores do Cais do Valongo, local de desembarque de africanos escravizados e onde se dá a morte do comerciante Bernardo Lourenço.

Porém, uma outra narrativa, de caráter mais subjetivo, se instaura a partir das memórias da africana escravizada Muana Lómuè, protagonista, juntamente com o mestiço Nuno Alcântara Moutinho, da história escrita por Eliana Alves. Essa narrativa abarca desde sua vida na aldeia natal, em Moçambique, junto à sua família, até sua chegada ao Cais do Valongo, num tumbeiro, e sua posterior destinação à casa do comerciante Bernardo Lourenço.  Essa narrativa, resultante do relato de Muana ao inglês Mr. Toole, que se diz contrário à escravidão, aproxima o leitor da cultura africana, com seus mitos e sua diversidade étnica, e, também, da triste realidade do processo de escravização do povo africano, do qual a protagonista não escapa.

Essa proximidade com os aspectos íntimos da personagem Muana, o seu encantamento com o mundo ao redor, com a sua cultura, o seu despertar para o amor etc.,  fará com que a destruição dos laços afetivos e culturais que sustentam a sua existência nos deixe profundamente impactados. Daí nos encantarmos com a figura feminina forte, resiliente, que não só sobrevive à tragédia que abate sobre seu povo, como vai se fortalecer intelectualmente e aprender a driblar os limites que a sua condição de escravizada lhe impõe.  “Na Gazeta Rio de Janeiro, o Justino estendia sua mão para receber o papel, mas não conseguia decifrar nada do que estava escrito nele e pensava que eu era sem letras como ele e quase todos os outros. Muito senhor também não sabia. Mais um motivo para esconder muito bem escondido meu segredo...” [pág. 23]. Muana vai utilizar seu domínio da leitura para se antecipar, inclusive, aos fatos, mostrando o quanto o conhecimento das letras pode ser uma arma poderosa: “O Nathaniel, coitado, quase foi parar nos infernos, se eu não entendesse o que o senhor escrevia” [pág. 19].  Além disso, ela detém um poder que a alça acima da maioria dos mortais: fala com os mortos, com o espírito dos ancestrais. E esse é um outro detalhe importante nesse romance de Eliana: a sua narrativa mescla, com sucesso, o olhar focado no elemento histórico, fidedigno, e os voos da imaginação atrelada ao mistério e ao fantástico com raízes fincadas no universo mítico-religioso da cultura africana.

A história é toda narrada em primeira pessoa: por Nuno Alcântara Moutinho, que conta sobre a investigação do crime cometido nas proximidades do Cais do Valongo, onde reside e pretende abrir um negócio, e por Muana Lómuè, que relata sobre os fatos envolvendo o cotidiano na residência do comerciante assassinado e a trajetória dela da África até o Brasil. Esses relatos de Muana, além de nos fornecerem uma imagem potente da África e de seus ancestrais, servirão também para nos esclarecer sobre a autoria do assassinato do seu senhor. É através do seu olhar afiado que teremos uma visão mais crítica sobre as condições de sobrevivência dos negros escravizados. Nuno Moutinho, que não é propriamente um detetive, mas faz bem o tipo do detetive de romance noir [beberrão, namorador e afeito a encrencas várias], por sua condição de mestiço, mulato, tem um trânsito mais livre naquele contexto social, daí poder nos apresentar, de modo até irônico, uma imagem mais direta das relações de poder que sustentavam a sociedade brasileira naquele momento histórico.

E sobre o ritmo da narrativa, que salta da investigação sobre o crime para os relatos de Muana? Talvez, para o leitor mais afeito à questão policialesca, essa quebra, que às vezes se estende um pouco mais no rememorar da africana, possa ser um problema, aborrecendo-o. Mas, atendo-se às intenções da autora, de nos oferecer um retrato mais amplo sobre a protagonista e a história do seu povo, ao trazer até nós um pouco da história e da cultura africana, é possível seguir a leitura, aguardando, para cada início de capítulo, a retomada do processo de investigação feito pelo Intendente-Geral da Polícia e acompanhado de perto por Nuno Moutinho. E olha que a autora guarda, aqui, uma surpresa sobre a autoria desse crime!

O crime do cais do Valongo é, portanto, leitura imprescindível para nos aproximar, através da imaginação estética e da pesquisa histórica, de parte do nosso passado, ao mesmo tempo em que amplia o leque da produção literária levada a cabo pelos autores e pelas autoras negras deste país tão excludente.


[Resenha publicada, originalmente, no JORNAL OPÇÃO]