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sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Entrevista

Entrevista que dei ao cineasta e  diretor de teatro André Amaro, que comanda o Programa Trilha das Artes, na Rádio Câmara. Na oportunidade, falei sobre meu novo livro de contos Uma mulher à beira do caminho (Editora Patuá, 2017), sobre minha dramaturgia e minha atividade como roteirista de cinema. Escolhi algumas músicas como trilha sonora do nosso encontro artístico. Para acessar e ouvir a nossa conversa, basta clicar no link abaixo e, na página do programa, baixar o áudio:




sábado, 20 de agosto de 2016

Um poema?

 Por Geraldo Lima

Me deu um rompante à tardezinha hoje e resolvi fazer uns exercícios físicos: me retorci um pouco no solo, estalando articulações e distendendo músculos e nervos, depois dei umas pedaladas na Elíptica – longos 15 minutos –, tudo ao som tocante de Johnny Cash querendo me arrancar do aparelho de ginástica para me jogar na estrada. A cabeça, saturada de Olimpíadas e de ver o Brasil bater na trave sempre, pedia um esvaziar tranquilo e urgente, então fiquei um tempo sentado na biblioteca, com intenção de não fazer nada mesmo, apenas liberando o pensamento para vaguear por regiões ermas.  No entanto, depois de alguns minutos, achei melhor ocupar a mente com algo leve, próximo do riso, da galhofa – peguei o volume com todas as tirinhas do Garfield (presente do meu filho no dia do meu aniversário) e planejei ler pelo menos umas quinze, como venho fazendo todos os dias ao longo desses meses. Li umas dez tirinhas, ri das safadezas do Garfield se atracando com a balança e sacaneando o tolo do Jon, às vezes o tonto do Odie, às vezes o pobre do carteiro, às vezes as aranhas que teimam em descer do teto ou andar sobre a mesa (é sem fim o rol de vítimas desse gato debochado, perverso e simpático ao mesmo tempo), até bater uma sonolência que me obrigou a fechar o volume de tirinhas e ficar alguns minutos de olhos fechados, esperando Morfeu desistir de mim e ir em busca de alguém que estivesse a fim de se embrenhar no mundo dos sonhos antes do escurecer. Parecia que o mais estratégico era ficar mesmo ali sentado sem fazer nada, mal mal olhando pela porta entreaberta, que dá para a sacada e para o longe, um longe que morre nas luzes já acesas lá na Rodovia DF-150 e na BR-020, no vulto dos carros descendo rumo aos condomínios do Grande Colorado e à Fercal. Por um instante isso me deixou satisfeito, porém logo me veio a sensação de inutilidade e perda de tempo, que me obrigou a buscar de novo algo para ler, para ocupar a mente. Peguei o Jornal Rascunho, já com a intenção de ler os poemas de William Stafford, traduzidos por André Caramuru Aubert. Essa poesia falando sobre natureza, uma poesia que brota mesmo da natureza, de dentro dela, que revela os sentimento do poeta a partir desse contato íntimo com árvores, colinas e bichos, suas sensações e desejos mais profundos, esse é o tipo de poesia que eu gostaria de fazer e nunca fiz, o que talvez tenha me levado a me desgostar da minha temática sempre sombria e urbana, até o quase abandono do fazer poético. Essa poesia, como a do brasileiro Leonardo Fróes e a do norte-americano William Stafford, é que me diz muito agora, nesta quadra da minha vida que já declina e pende do galho-tempo. Em seguida, ainda no Rascunho, li um texto do poeta Ademir Assunção. Nesse texto híbrido, o narrador diz estar pensando em transformar o diário num romance. Por fim decide que será mesmo um romance, tudo num estilo que me lembrou muito o do escritor Claudio Parreira, com seu nonsense, seu tom irônico e escrachado. Achei que já havia lido demais e parei, fitando a noite que já dominava a paisagem despovoada de vagalumes e o céu vazio de estrelas cadentes. Minhas vistas alcançavam até as luzes nas cercanias da Torre de TV Digital, mas esse brilho distante me cansou também, empurrando-me para a sensação de angústia e de urgência de registrar esse instante e as sensações que dele emergiam, como legado para um futuro incerto e oco.


(Texto publicado, originalmente, no Jornal de Sobradinho)

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Dionísio na Esplanada dos Ministérios





Por Geraldo Lima


Zé Celso Martinez montou seu Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona no gramado da Esplanada dos Ministérios, ao lado da Biblioteca Nacional de Brasília, de frente para o Poder, e nos brindou com suas Dionisíacas. Das quatro peças apresentadas, assisti a duas: Taniko e As bacantes. Perdi as peças Calcida! e O banquete. Pudesse, teria assistido a todas. Um presente dos deuses assim não se deve menosprezar. Coisa que não teríamos chance de ver senão indo a São Paulo, estava ali, à nossa disposição, e praticamente de graça: o ingresso era trocado por um quilo de alimento não perecível.

Não é fácil assistir às montagens desse gênio do teatro brasileiro. Imagine uma peça cuja duração é de seis horas! Corpos e mentes mais cansados não aguentam mesmo. Além disso, a dramaturgia de Zé Celso segue as ideias antropofágicas do modernista Oswald de Andrade. Uma peça como As bacantes, nas mãos do diretor do Oficina, vira um barco delirante. À Grécia Antiga, presente nos textos de Eurípedes, Ésquilo, Sófocles e Aristófanes, junta-se a “Grécia do Brasil”, e aí entram o Candomblé, o Carnaval, Os mamonas assassinas, o sertão nordestino, o rock etc etc.  Em Taniko, o Teatro Nô funde-se com o ritual do Candomblé, com a Bossa Nova, enfim, com a cultura brasileira. O ritual é sempre no sentido da fusão, da miscigenação, do encontro entre culturas diferentes. O que se opõe de forma brutal, não-antropofágica, ao estrangeiro, à alegria e ao prazer paga um alto preço.  Penteu, rei de Tebas,  que se opõe à presença de Dionísio e ao ritual das bacantes, simboliza bem esse tipo de atitude, e paga caro por isso.

A estética teatral de Zé Celso Martinez é irmã siamesa da estética cinematográfica de Glauber Rocha. Todo esse ritual delirante e antropofágico pode ser visto, por exemplo, no filme A idade da Terra. Ambos os diretores bebem na fonte da cultura grega clássica e na  da cultura brasileira. O processo é o mesmo: trazer o mito para o mais próximo da nossa realidade, de modo que a leitura dos nossos problemas políticos, sociais, psicológicos e estéticos seja ampliada. Na base de tudo isso está, sem dúvida, a antropofagia de Oswald de Andrade.


Um texto levado à cena por Zé Celso é puro ritual. No caso d’As bacantes, isso fica ainda mais evidente. É preciso entender que o que ele procura, nesse caso, é nos fazer mergulhar no mundo dionisíaco de fato. Corpos nus e erotismo tomam conta do palco. Dionísio está ali, e sua presença contamina até a plateia. Pessoas menos afeitas a esses rituais cênicos vão embora logo. Um espetáculo assim, que une as pulsões do ser natural e o mito grego ao mundo tecnológico, num tom de orgia e de crítica às estruturas de poder, não agradará mesmo a todos. Porém, os que ficam e resistem ao cansaço e à ousadia cênica levam na memória a imagem e a pulsação dessa experiência teatral única entre nós.

quinta-feira, 22 de abril de 2010


VII. Sibila.

Por Geraldo Lima

        Aceitara o nome, o destino, enfim, que ele implicava, mesmo porque não havia para onde fugir num mundo sitiado pelo Absoluto.
        Faça alguma coisa, não és bruxa? Risos. Perversa alegria. Campônios, servos das trevas. Que ela os fulminasse com apenas um olhar! Ou os petrificasse então com seu poder de górgone. Satã brotaria das profundas do inferno, a qualquer momento, para salvar das chamas sua amante. Tensos, excitados, exigiam mais ação. Que a cruz na mão do cura, por exemplo, se incendiasse.
        Aceitara o nome e toda a praga semântica que ele carregava. Cristo, instigado por Lúcifer, revelara sua força? Aceitara o nome, assim como o oco do seu absurdo.      
        A tocha acesa na mão do verdugo, aguardando apenas o cura concluir sua fala. Fogo mínimo iluminando o dianoite. Crepitar de lenha seca logo em seguida. As labaredas, enfim, ganharam altura.
De certo modo, mesmo a contragosto, era preciso admitir: nada de anormal estava acontecendo ali. Em meio à turba, porém, comovia-se um rapazola reduzido ao máximo encanto, tomado de assombro, enfeitiçado definitivamente pela mulher ardendo  nas chamas.

(Do livro inédito Tesselário, que será publicado pela Editora Multifoco.)

sábado, 10 de abril de 2010





Ronaldo Costa Fernandes, escritor nascido no Maranhão e residente em Brasília há alguns anos, é autor de vários livros (romances, contos, poesia, ensaios) e ganhador de importantes  prêmios literários, entre eles o APCA e o Casa de las Américas.
Isso parece ser suficiente para mostrar que estamos diante de um autor que não precisa provar mais nada a ninguém.  Trata-se de um escritor rigoroso na construção do texto, capaz de mesclar técnica e olhar crítico sobre a realidade cotidiana, angústia e ironia ao revelar seu mal-estar no mundo. Ele é desses escritores que escrevem com a fiação do corpo exposta. Sua poesia é do tipo que repercute em nossa alma, – coisa rara hoje em dia.  Ler os seus poemas é mergulhar no lirismo denso e ácido.
Sobre o seu livro a Máquina das Mãos, publicado pela 7 Letras, escreveu o jornalista e professor Sérgio  Sá:

       Resenha de A máquina das mãos / Correio Braziliense (abril 2009)

RONALDO, O CRAQUE

                                                Sérgio Sá

Recebo em casa e leio na contracapa o poema intitulado “Hopper”. É o suficiente para voltar ao forte e imobilizador impacto (como se diante de um quadro de Edward Hopper) sempre provocado pela poesia de Ronaldo Costa Fernandes (foto), que está de livro novo, com título de ressonância drummondiana: A máquina das mãos (7Letras). Autor de outros quatro volumes de poesia e uma série de obras em prosa, Ronaldo escreve porque precisa sobreviver, porque não poderia ser diferente, escreve porque do contrário não haveria existência. A poesia de Ronaldo oferece a cabeça do leitor em bandeja de prata, tira-lhe do prumo, sufoca, faz respirar, angustia, abre o sorriso em meio a um humor despedaçado, triste, melancólico.
Ronaldo faz poemas legíveis sobre uma erudição sem tamanho, submersa na paisagem desoladora da vida urbana. No posfácio, Hildeberto Barbosa Filho diz que Ronaldo toca “o exato limite entre a falta e o excesso, evitando a obscuridade dita inventiva por um lado e, por outro, a facilidade expressiva”. Equilibra-se, portanto, na corda bamba entre a experimentação e a comunicação.
Escreve sobre as cidades de modo geral e sobre Brasília em particular. Em “Lúcio Costa”, pergunta: “São de rodas teus sonhos?/ Há eixos e tesouras na utopia?/ De que material é feito o desejo/ Existe forma no escape, na fuga, na evasão das avenidas?/ Os aviões com sua turbo-hélice obsedante/ A cidade redonda sem círculo que a encerre”. E a mão continua certeira em “Torre”, “Samuel Rawet” e “Rodoviária”. Ronaldo também escreve “Poema para o poeta Fernando Mendes Vianna morto”.
O que mais esperar da poesia senão essa queda no abismo? A máquina formata os versos que já são pensamentos. As mãos tremem para repetir no papel a mente “que quer ser corpo e que dói”. É dolorido ler os poemas projetados por essa tecnologia humana que luta contra as asperezas da vida sem nunca deixar de senti-las.
Se a poesia ainda fizesse sentido, se ainda mexesse nos sentimentos do mundo, Ronaldo Costa Fernandes seria um bambambã, em seu sentido de autoridade. Remexe dentro da língua e da linguagem, traz novos significados para esse marasmo sem chuva, leva o leitor para dentro de um corpo que somente a poesia promete: coração dilacerado pelo que poderia ser mas não é, pelo rito do nascimento-e-morte, pela sede de saber que o tempo está passando e vivemos tão pouco, tão mesquinhamente, tão perto do afeto de sermos sós e tão pouco. O leitor agradece que Ronaldo cometa o “delito da poesia”, uma poesia que dá cãibra, colocando-nos em outro lugar, distante, dormente e, ainda assim, doce.

        SEGUEM DOIS POEMAS DO LIVRO A MÁQUINA DAS MÃOS:

CARTA PARA A MÃE

Por que me deste dois pés de esponja,
se sabias que o caminho era pantanoso?
Por que me deste este desequilíbrio,
este perigo de alto mar ao atravessar a rua?
Esta saliva de areia,
este estômago que digere a si próprio
este nervo exposto,
esta memória feita de cobogós?
Por que me fizeste
com estatura pequena,
eu, que tenho um metro e oitenta?
Por que não terminaste meu rosto
que só tem um lado
e, por isso, não posso dar a outra face?

HOPPER

Em Hopper, não há a solidão que todos dizem.

Aquele casal na lanchonete,
as moças no quarto
ou no vagão de trem
estão imobilizados de vida
 – de vida tão grave
que nada escapa (como nos buracos negros)
de seu campo de gravidade.

Ali estão os autômatos de Hopper
Em sua fantástica viagem em torno de si mesmo.

Não é a vida americana
que é criticada.
O que nos desnorteia em Hopper
– e nos fascina –
é que nos vemos na lanchonete,
na parada de ônibus ou no vagão de trem.
Estamos imobilizados – hopperianos –
em têmpera e coloridos,
fixos na tela do tempo,
e, irremediavelmente, presos a nós mesmos,
a vida como um quadro americano
do qual não podemos escapar.

Ronaldo Costa Fernandes é autor de mais quatro livros de poesia. Estreou com Estrangeiro (1997). Vieram em seguida Terratreme (1998), que ganhou o Prêmio Bolsa de Literatura, pela Secretaria de Cultura de Brasília. Mais tarde publicou Andarilho (2000) e Eterno passageiro (2004). Ganhou vários prêmios (APCA, Casa de las Américas, entre outros).  Também publicou livros na área de ficção e ensaios.

domingo, 28 de março de 2010



Publiquei Baque em 2004, pela LGE Editora. É um livro composto por seis contos (Pus, Baque, Limbo, Adaga, Ermo e Vigília) que expõem, de forma dramática, a precariedade da existência humana.  Na apresentação do livro, o escritor Ronaldo Cagiano escreveu: “Da mesma forma, os seis contos de ‘Baque’ comunicam-se pela semelhança de universos, sempre carregados de dificuldades, angústias humanas e desertos existenciais, que moldam os dramas e tensões, formando um candente painel em que seus personagens vivem situações-limite, no limbo, numa espécie de underground, entre um baque e outro”.  
 Quem se interessar pelo livro, pode adquiri-lo pelo site da editora www.lgeeditora.com.br  ou em outras lojas virtuais.
Eis um dos seus contos.

PUS


Por Geraldo Lima                                                       

E a ideia é essa mesma, ele resmunga, enquanto tenta se erguer sob o sol implacável de agosto. A ideia é esta mesma, quase grita já de pé, as pernas bambas: apodrecer diante de todos como uma fruta no lixo da feira ou um cão morto na beira da estrada!
 No oco da mente ainda resistem vestígios de um tempo do qual ele até sente nostalgia, mesmo que persista a sensação de nem tê-lo vivido verdadeiramente. Talvez tenha sido só mesmo um desejo, um plano abortado em meio aos atropelos do dia-a-dia. Há, no entanto, essa imagem rota de um eu perdido na borrasca cotidiana. 
Então é isto: aquele que ele imagina que perdeu há tempos, ah, esse parece mesmo perdido para sempre. E se está perdido, se a máquina do mundo o triturou completamente, então, este que ele adotou, este corpo-molambo em que vive agora, não merece cuidado algum. Que apodreça sobre o altar do mundo! Que desça então sobre ele a fúria de um deus sem piedade alguma!
Precisa buscar uma sombra, talvez o toldo de uma loja ou uma parada de ônibus. Sente uma vontade imensa de desabar num sono profundo, sem volta, para dentro de uma noite infinita. Já não tem mais forças para arrastar o corpo enfermo.  Cambaleante, atravessa a rua e, aos tropeções, chega até uma árvore. A sombra é mínima, mas nela cabe muito bem o seu corpo magro.
É de se admirar que, depois de tanto tempo, ainda sinta dor de cabeça. Que o seu corpo não esteja anestesiado. Que ele ainda se disponha a pensar, a refletir. Não, não, não quer mais pensar. O seu esforço é esse mesmo: apagar a lucidez. Turvar a mente. Deixá-la à deriva. O objetivo é um só: se aniquilar diante das câmeras, dos olhares indiferentes ou chocados das pessoas. Da pressa cotidiana. O intuito é que um belo dia alguém, vendo-o passar pelo outro lado da rua, diga, aquele cara ali já foi alguém na vida... agora, veja só que molambo! 
Quer verdadeiramente suscitar esse tipo de indagação sem resposta, esse espanto que mais angustia quem ousa sair de si para entender o outro. Quem procura explicações precisas, esclarecedoras para o profundo mistério da vida, — se é que a vida tem algum mistério. Talvez haja tão-somente uma ou duas explicações para a vida, mas há quem queira sempre saber mais, e mais, e mais. A causa de tudo. O antídoto. A cura. Não, jamais chegarão ao cerne do que chamariam mistério, ainda que mergulhem num indagar incessante, por que abandonou aquele roteiro que parecia ir dar num final feliz? As coisas não estavam funcionando bem? Mas, de repente, deu para falar assim, amargo, contrário a tudo. Há dias não vai ao trabalho. Há dias não toma nem banho!  Dizem mesmo que está apodrecendo. Moscas o acompanham em festa. O lixo é seu restaurante. À noite, o mundo o acolhe como um anjo perdido.
Agora mesmo, não faz dez minutos, voltou do banheiro da rodoviária suando frio, escorando-se nas paredes. Sentou-se no meio-fio e deixou-se ficar assim, a cabeça amparada pela mão esquerda, pesada, latejando, como se alguém a estivesse partindo ao meio com uma serra. Foi quando se ergueu e pôs-se em marcha em busca de um lugar fresco para descansar. Sorte ter encontrado essa sombra, esse lugar tranquilo fora do trajeto das pessoas. Acha-se tão sem forças, sem alma, que o inseto que escala o seu pé esquerdo não deve encontrar resistência alguma até chegar à borda da sua boca escancarada. Os muros do seu corpo estão demolidos. Qualquer invasor chega e invade o seu território sem encontrar resistência.  É como costumam dizer: está entregue às moscas. 
Há sérias complicações que denunciam a falência do seu ser. O organismo já dá sinais de corrosão, de completa debilidade: vez ou outra, o que engole volta à tona num jato violento e azedo. No corpo, várias escoriações traçam mapas de ruínas e desertos. Há muito perdeu o senso de direção e equilíbrio: costuma vir tombando ora no asfalto ora na terra. 
Há tempos anda sem rumo pelas veias da cidade. Um tronco podre levado pela enchente. Um ramo seco varrido pelo vento. Pelos terrenos baldios, pelas esquinas, pelas calçadas, sem bússola, sem mapa. Cada manhã um roteiro diferente. Um sem-destino. Um sem-que-fazer todos os dias. Um vagabundo para os que ainda labutam, para os que retomam a rotina todas as segundas-feiras. Não fosse a precariedade da sua existência, o depender ainda da caridade dos outros, poderia até dizer numa última tentativa de se firmar no mundo: sou livre, sou livre. Mas, com certa amargura, conclui, só mesmo a morte liberta.
O inseto está a três dedos da sua boca: chegou à ponta do queixo e tenta vencer o emaranhado de pelos. Se não mudar a sua rota, logo, logo cairá nesse buraco úmido e fétido. Talvez, num movimento reflexo, o homem feche a boca violentamente e o esmague. Mas pode ser que a sorte o ajude: um sono profundo, que não deve tardar, apagará os últimos vestígios de energia que move esse ser. 
Sob a sombra mínima da árvore, a boca aberta, o olhar esbarrando com o céu de folhas verdes, o homem experimenta a tosca sensação de completo abandono, de não fazer parte de nada, de não existir mais.