terça-feira, 7 de janeiro de 2020
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Romance de Cinthia Kriemler nos convida ao mergulho nos abismos da alma humana
Por Geraldo Lima
Todos os Abismos convidam para um mergulho, romance de Cinthia Kriemler
publicado pela Editora Patuá em 2017, não é um livro de leitura fácil. Não que
apresente, em relação à linguagem ou à construção frasal, maiores dificuldades
para a fruição da leitura. O texto é costurado, na sua grande extensão, com
frases curtas, diretas, sem malabarismos verbais. Nada de linguagem poética,
tudo muito seco, sem rodeios, calcado num realismo brutal. Como um soco. É isso: a narrativa adotada por
Cinthia quer, na verdade, funcionar como um soco que desperte a consciência do
leitor! A narrativa quer, enfim, arrastar sem titubeios esse leitor para dentro
da zona nebulosa e trágica da protagonista.
É aí que a coisa se complica, que a
leitura torna-se uma prova de fogo, exigindo do leitor ou da leitora nervos de
aço, estômago para digerir situações de violência das quais temos conhecimento,
muitas das vezes, apenas pelos jornais ou por conversas de terceiros. Essas
narrativas, sem nos forçar a um mergulho profundo no tormento mental e no dia a
dia da personagem, mantêm-nos ainda numa posição bastante confortável. E é essa
posição de conforto que a narrativa de Cinthia nos tira. E aqui chegamos a mais
uma das razões de ser da literatura: levar-nos até o mais fundo da alma
humana.
Cinthia Kriemler, nascida no Rio de
Janeiro mas residindo em Brasília desde 1969, já está no seu quinto livro
publicado, sendo que o quarto, Na
escuridão não existe cor-de-rosa (contos, Editora Patuá, 2015), foi
semifinalista do Prêmio Oceanos 2016. Todos
os abismos convidam para um mergulho é seu primeiro romance.
Narrado em primeira pessoa pela
protagonista Beatriz, uma assistente social com sérios problemas pessoais, o
romance nos apresenta, sem suavizar o discurso, a realidade sombria e trágica
de mulheres e crianças que sofrem violência doméstica e abusos sexuais. Além
desse contexto social em que Beatriz atua como profissional, numa casa abrigo,
temos acesso também ao universo das suas relações pessoais e afetivas, com
todos os conflitos que lhe atormentam a alma: a perda da filha para a
depressão, a relação ambígua com o ex-marido Bernardo, os atritos com a mãe e o
irmão e os encontros sexuais estéreis com estranhos.
A narrativa ocorre, na maior parte do
tempo, no presente, um presente asfixiante e que não deixa brechas para o
ingresso num futuro de redenção e paz. Quando se descola desse tempo presente,
a narrativa descortina aos nossos olhos a vida pregressa da
narradora-personagem, com seu passado traumático, e a causa de seu lento e
progressivo mergulho no abismo do vício, tanto das drogas quanto do sexo. Essa
estratégia de narrativa adotada por Cinthia não permite ao leitor o
distanciamento que uma narrativa no tempo passado poderia propiciar, com a
ideia de que tudo são fatos passados. O tormento da personagem Beatriz é algo
que acontece agora, neste exato momento, diante dos olhos do leitor ou da
leitora, enquanto a narrativa se desenrola. “Nem eu sei de onde vem esta raiva.
Eu não sou assim. Nunca me exaltei desse
jeito. Tenho que respirar fundo. Daqui a uns minutos vou conversar com esse
sujeito anormal” (pág. 44).
Beatriz não é do tipo que podemos
alçar facilmente à categoria de heroína. É, antes de tudo, uma anti-heroína.
Incumbida de salvar vidas humanas, ela própria precisa ser salva das ruínas em
que sua vida pessoal está soterrada. Sua compulsão sexual leva-a aos mais
degradantes ambientes, dos quais retorna ainda mais insatisfeita. É também uma representante da classe média
com suas fissuras e vazios. Uma mulher branca, com livre trânsito na sociedade,
mas que sempre vai dar num beco sem saída ao fraquejar e ceder ao vício. Muito pouco nela nos desperta simpatia. A sua
existência paradoxal nos atordoa, levando-nos da compaixão à raiva em poucos
segundos. Como pode alguém, cuja função é resgatar pessoas soterradas nos
escombros da violência, descer às vezes tão baixo em busca de satisfação para
um desejo que é só válvula de escape? “Bunker. É a única palavra no néon vulgar
iluminando a porta de entrada para o inferno. Os degraus estreitos, sujos,
convenientes. Barro, cuspe, vômito, bebidas. Uma gosma permanente que mais
nenhuma água limpa. (...) Um cigarro. A mão que acende o cigarro. Grande,
suada. O corpo roçando o meu. Por trás. O cheiro de bebida, de maconha” (pág.
109). Mas aí, lembrando-nos da sua infância traumática, marcada por abusos, do
remorso que lhe corrói a consciência pelo que aconteceu à filha Laura, do quão
desgastante é a lida com o sofrimento alheio [sem a expectativa, às vezes, de
obter sucesso], da própria complexidade da existência humana e de que não
devemos esquecer “a variedade do mundo
humano e de sua vida psíquica”, como nos alertou Freud no seu O mal-estar na cultura, então,
lembrando-nos disso tudo, conseguimos vislumbrar uma Beatriz humana, retratada
em plena vertigem da sua queda.
E é por apresentar “o poder de
comunicar umas almas com as outras”, como queria Lima Barreto para a
literatura, e por nos convidar a esse mergulho em águas tão tormentosas, em que
a vida humana borbulha intensa e inquietante, tirando-nos da zona de conforto,
que vale a pena ler esse primeiro romance de Cinthia Kriemler.
[Texto publicado, originalmente, no JORNAL OPÇÃO e no SUPLEMENTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS]
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Participação na Jornada Literária do Distrito Federal 2019 - Gama
[fotos: Cícero Bezerra]
[Organização/realização da Jornada Marilda Bezerra e João Bosco Bezerra Bonfim]
segunda-feira, 22 de abril de 2019
A vida como uma busca infindável
Por Geraldo Lima
Allegro ma non troppo (editora Oito e
Meio, 2016) é o primeiro romance da escritora e jornalista brasiliense
Paulliny Gualbert Tort, que até então só se aventurara no conto, com participação
em antologias e publicações em revistas e sites.
A história contada
no livro é ambientada, na sua maior parte, em Brasília e arredores, mas leva o
leitor também ao ambiente exótico e cativante da Chapada dos Veadeiros, em
Goiás. É narrativa ágil e de grande movimentação, que não deixa o leitor cair
em pasmaceira. Aborda, em linhas gerais, o tema da busca pelo filho desgarrado.
Outros temas, no entanto, estão presentes, como o conflito familiar, a
incapacidade de se ligar afetivamente a alguém, a busca por um sentido verdadeiro
para a vida etc. Não escapa também à escrita em tom mordaz de Paulliny um
retrato crítico e esmaecido do modo de vida da classe média, principalmente a
que habita nas entrequadras do Plano Piloto.
O diálogo com outras narrativas, dos tempos
bíblicos aos atuais.
Estreia de
sucesso na narrativa mais longa, esse primeiro romance de Paulliny Tort foi
semifinalista do Prêmio Oceanos 2017, um dos mais prestigiados prêmios
literários a contemplar autores de língua portuguesa. Sem dúvida, esse feito a
coloca como uma das escritoras contemporâneas que despontam como grande
promessa de que a escrita feminina (ou a literatura feita por mulheres)
firma-se de fato em terras tupiniquins. E esse acontecimento literário torna-se
mais instigante ainda quando constatamos que o romance de Paulliny traz como
narrador em primeira pessoa um homem, o protagonista Daniel. Ou seja, a jovem
autora, a partir do olhar masculino, desenvolve um tema que nos foi
apresentado, pela primeira vez, no Evangelho de Lucas. Trata-se da famosa
Parábola do Filho Pródigo [Lucas 15:12 – 32].Mas vamos ao que aproxima a
narrativa romanesca da jovem escritora brasiliense da narrativa bíblica, na
qual Jesus expõe seus ensinamentos, e o que as distancia ao mesmo tempo.
Em ambas as histórias,
há a figura do filho que decide, num determinado momento da vida, deixar a casa
dos pais e sair pelo mundo. Na narrativa
do evangelista Lucas, é o filho mais moço que parte após receber do pai a sua
parte da herança. Na de Paulliny, é o filho mais velho (João) que parte, dois
anos antes da morte do pai, um Senador da República com o qual tinha uma
convivência conflituosa.[Aqui, é a mãe que se angustia com a partida e
posterior sumiço do filho.] Como é do conhecimento dos leitores do Novo
Testamento, o filho mais novo dissipa em farras o que recebeu como herança e,
em dificuldade financeira, retorna para a casa paterna em busca de perdão e
trabalho. O antagonismo se dá, nesse
caso, em relação ao filho mais velho, que, tendo ficado o tempo todo ao lado do
pai, ajudando-o na lida diária, sente-se injustiçado ao vê-lo receber o filho
pródigo com festa. Na história criada por Paulliny, há também esse antagonismo
entre os irmãos João e Daniel, que vai sendo exposto ao longo da narrativa e se
acentua mais fortemente ao final. Será possível uma reconciliação entre eles? E
que mistérios prendem tão fortemente a mãe ao filho mais velho? No texto
bíblico, entendemos que a explicação comovente e sábia do pai tenha sido aceita
pelo filho indignado.
Há ainda, como
elemento complicador desse estranhamento entre os dois irmãos do romance Allegro ma non tropo, o fato de Daniel
sentir-se menos acolhido pelo olhar dos outros por ser fisicamente diferente do
irmão. Nas palavras de Daniel, o fato de o irmão se parecer fisicamente com a
mãe, loira, alta, bonita, torna-o privilegiado e acima de qualquer suspeita,
enquanto ele, moreno e franzino, que se diz parecer com ninguém, figura-se suspeito,
por exemplo, ante o olhar dos porteiros. “O porteiro, novo no prédio, não me
deixou subir sem ser anunciado. Duvidou que eu fosse filho da madame.” Nesse
trecho, Paulliny deixa entrever um problema que afeta sobremaneira a população
negra no Brasil: a vigilância mais acirrada sobre o indivíduo negro, seja o de
pele mais escura, seja o de pele um pouco mais clara. Entrar em lugares mais
sofisticados, de classe média ou rica, só pelo elevador de serviço ou depois de
passar por severa revista. Embora a autora use a palavra “moreno” para
caracterizar a cor da pele de Daniel (caracterização rejeitada, hoje, por boa
parte da população afrodescendente), é nessa linha da questão racial que a
narrativa adentra.Mas, na realidade, sem ir além dessa insinuação de
discriminação racial, mesmo porque o foco da sua narrativa é outro: a busca
pelo filho desgarrado. E é nesse ponto que sua história envolvendo esse tipo de
busca, ou de tema, nos leva a outra história, esta pertencente à moderna
literatura brasileira. Trata-se do maravilhoso livro Lavoura arcaica, de Raduan Nassar.
No livro de
Paulliny, é o irmão mais novo, Daniel, o incumbido pela mãe de procurar pelo
irmão mais velho que partiu sem indicar paradeiro. No de Raduan Nassar, cabe ao
irmão mais velho, Pedro, trazer de volta à casa paterna o filho fujão (é como
fuga que é vista a partida de André). Em ambas as histórias, os protagonistas
são os narradores, mas cada um imprime um tom próprio ao seu discurso: poético
e extremado em André (Lavoura Arcaica),
prosaico e irônico em Daniel (Allegro ma
non tropo). No entanto, o sentido de possessão, de embate violento no campo
da moral, dos costumes familiares, o uso da linguagem poética em estado puro,
vibrante, presentes no romance Lavoura
arcaica, não fazem parte da configuração narrativa de Allegro ma non troppo.A narrativa de Paulliny não busca a densidade
psicológica ou trágica que podemos observar na obra de Raduan. É narrativa mais
fluida, que dá conta da movimentação do protagonista na busca pelo irmão, em
Alto Paraíso, cidade mística situada na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, ou nos
arredores de Brasília. É, em suma, narrativa que prima pelo tom de oralidade.
Outros pontos de
contato ou de afastamento entre os dois livro podem ser apontados: se em Lavoura arcaica há o elemento religioso
defendido com severidade e força pelo pai, em Allegro ma non troppo aparece o elemento místico, que é visto pelo
narrador-personagem com reserva e ironia. Aliás, esse é o principal elemento
que Daniel aponta como motivo de afastamento entre ele e o irmão: João enverada,
cada vez mais, pelos caminhos do misticismo, enquanto ele vai sendo tragado
pelo ceticismo. As duas histórias são dramas familiares que ilustram bem a
grande dificuldade de convivência entre as pessoas quando tomadas por ideias
extremas e apaixonadas. O sentido de liberdade e de busca pela própria
essência, mesmo que isso se dê de forma enviesada e incompreensível para os
demais, está presente tanto no livro de Raduan quanto no de Paulliny. Mas a
proximidade entre as duas obras acaba aí.
A
ligação com a música e alguns aspectos da vida do protagonista
Allegro ma non tropo [do italiano,
significa “rápido, mas não muito”] é uma expressão do universo da música
clássica e, segundo a Wikipédia, “é um andamento utilizado para indicar ao
músico que a execução deve ser moderadamente rápida. Em geral, o movimento allegro é executado com pulsão rápida e
expressão leve e alegre”. No caso do livro de Paulliny, podemos observar que a
narrativa segue um ritmo ágil, acelerado, mas sem a pressa exagerada que
resulta num atropelo de cenas desconexas. [A referência à música, tanto a
erudita quanto a popular, é uma constante ao longa da história.]
Embora o tema
seja pesado [o conflito familiar e existencial do protagonista, um músico
erudito em busca de afirmação profissional e compreensão dos problemas afetivos],
o uso da ironia quebra em parte essa sisudez e mantém a história num andamento
mais leve, o que permite, através do olhar do narrador-personagem, que outros
elementos ao redor sejam mostrados. É assim que, através dum olhar mais
descolado do seu mundo interior, Daniel, em sua jornada de busca pelo irmão,
apresenta ao leitor o universo místico da cidade de Alto Paraíso, com seus
tipos excêntricos, as cachoeiras que atraem tantos turistas ao vilarejo de São
Jorge [também na Chapada dos Veadeiros, a 300 km de Brasília] e os arredores da
Capital, até então desconhecidos para ele.Porém, os tipos que aparecem nesses
lugares marcados pelo misticismo [tipos geralmente em busca de autoconhecimento
ou de um sentido pleno para a vida] nem sempre são vistos com olhar complacente
por Daniel, que, não raro, destila aí sua verve irônica e contaminada pelo
ceticismo. “O Devananda usava um turbante branco enrolado na cabeça. Parecia
indiano, mas não era. Tinha sotaque de cearense, o que sabotava toda a sua
elaborada aparência de guru das montanhas.” É essa descrença, que o faz
desconfiar dos discursos pretensamente místicos, religiosos, e sua incapacidade
de se ligar mais fortemente a alguém que caracterizam mais fundamente a sua
vida. A sua relação instável e insegura com as mulheres é também um contraponto
com a forte personalidade do irmão, um notório conquistador e amante contumaz.
O seu caso com
Marina é bem emblemático: ela se entrega, declarando-se
apaixonado por ele, mas, no momento de ele se entregar também, recua,
justificando seu ato insensível: “Devia estar sentindo ao mesmo tempo muita
raiva e muita vergonha. Quase a puxei de volta para dizer que a amava, mas
fiquei com medo. Com medo de que ela acreditasse e ficasse e eu não conseguisse
mais afastá-la de mim. Eu não queria uma Marina para sempre”.
Paulliny se
revela uma excelente criadora de personagens. Em Alto Paraíso, por exemplo, o
protagonista se envolve com uma série de personagens estranhos e cativantes ao
mesmo tempo. E é com pesar que vemos esses personagens sumirem da história, já
que, em sua busca pelo irmão, Daniel vai e volta ao seu ponto de origem, perdendo
contato com essas pessoas no mínimo interessantes, como Berta, a simpática jovem
descendente de alemães, Gabriela, a garçonete mulata, exuberante e,
aparentemente, inacessível, e Ronald, com sua figura jovem já detonada pela
vida extravagante que leva, mas cheio de afeto.Todos esses personagens, cada um
a seu modo, em função de sua inquietude, mereceriam uma história à parte.
Todos, de certa maneira, são indivíduos que escaparam dos limites da casa dos
pais e se jogaram no mundo em busca de sentidos outros para a vida.
[Texto publicado, originalmente, no Correio das Artes e na revista Diversos Afins]
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Um mergulho nas entranhas do Brasil do atraso e da corrupção
Por Geraldo Lima
De quatro em quatro anos, durante as
eleições para o Legislativo e o Executivo, somos bombardeados pelos discursos
vãos dos políticos. Apresentando-se como políticos profissionais [dizem-se
“experientes”] ou como não políticos [nova maneira de iludir o eleitor ao
exibir uma pureza que não coaduna com o universo da política], todos têm como
objetivo conquistar a confiança e a esperança do povo. Isso exige uma retórica
mais condizente com os anseios da população, assim como a disposição para o
corpo a corpo na caça ao voto e o uso de novos recursos tecnológicos, como a
Internet, para alcançar o eleitor com mais eficácia. Em outros tempos, como bem
o sabemos, o modo de aliciamento de eleitores dava-se de forma mais direta, sem
a intermediação do discurso de convencimento. Para tanto, colocava-se em
prática o conhecido e abominável “voto de cabresto”. Era dessa maneira que os temidos
Coronéis mantinham com pulso firme os seus currais eleitorais no interior do
país. Embora pensemos que esse modo nefasto de fazer política encontre-se
completamente fora de uso no Brasil, ele continua a ser praticado, só que agora
de modo mais velado, encoberto com nova roupagem. O jogo democrático, assim
como a modernização do processo eleitoral, com adoção de novos meios para
coletar e aferir os votos, como é o caso da urna eletrônica, não inibem
completamente as velhas práticas de aliciamento eleitoral. Pelo menos é isso
que o livro Os Aliciadores, de
Lourenço Dutra [romance, Pulp BsB Edições, 2016, 174 páginas], procura nos
mostrar com uma narrativa irônica e sem lirismo.
A LIGAÇÃO DA HISTÓRIA FICCIONAL COM A HISTÓRIA REAL
A história contada nesse romance de
Lourenço Dutra nos é bem familiar, faz parte das entranhas podres do nosso
sistema político, senão, vejamos: Dioclécio e Alberto são aliciadores de
eleitores para a reeleição do governador Jorge Boriz, no Distrito Federal. E é
de forma direta, sem disfarce, que os dois se aproximam dos possíveis
candidatos. Tomemos como exemplo este diálogo que Alberto trava com um deles:
“– E o que eu preciso fazer?
– Nada de mais, somente transferir o
seu título de eleitor pra lá.
Ele riu.
– Ah, eu entendi. É pra votar em
quem?
– Pra votar na reeleição do
governador Jorge Boriz.”
No momento, a missão dos dois é ir ao
interior da Bahia, às margens do rio São Francisco, para arrebanhar eleitores
entre a gente pobre [sem-terra, desempregados, ciganos maltrapilhos, pequenos comerciantes
sem perspectiva de futuro etc.] e levá-los para o DF, com a promessa de
ganharem lotes e outros benefícios para votar no tal Jorge Boriz. Nesse ponto,
Lourenço não é nem um pouco sutil, nem faz questão de sê-lo: para quem mora no
Distrito Federal, é clara a referência a um conhecido político que governou o
Distrito Federal durante um bom tempo exatamente com essa estratégia de doar
lotes às pessoas pobres com o objetivo de obter delas o voto. Ou seja, a
nefasta prática do “voto de cabresto”, neste caso, sob a embalagem do espírito
de benfeitor ou de “pai dos pobres”. E
as promessas são mesmo irrecusáveis:
“– Somos enviados do governador Jorge
Boriz e viemos fazer um convite pra vocês. Que tal se mudarem para uma cidade
em início, com garantia da escritura do lote, água, luz, saneamento básico,
cesta básica e um botijão de gás mensal, de graça?”
Ou então esta:
“– Com Jorge Boriz não tem erro! O
homem é bom, bom mesmo, pai dos pobres de verdade!”
O romance Os Aliciadores filia-se a essa linhagem de obras de ficção que
fazem da sátira sua marca maior, seu diferencial em meio ao comodismo e ao
bom-mocismo. Seu deboche é corrosivo e provoca um rebaixamento no comportamento
de tipos respeitáveis perante a sociedade, e aí entra o político, o homem de
negócios, o gestor público, a esposa do prefeito, o filho do fazendeiro
etc. É impiedoso no modo de lidar com
essa gente, de caracterizá-la física e psicologicamente. “Nesse instante, a
mulher que portava dentes de chiclete Adams soltou um grito histérico e se pôs
a brigar com a mocinha que fazia os seus pés.” A figura retratada desse modo
zombeteiro é a esposa do prefeito de Ibotirama do Leste, na Bahia, cidade onde
Dioclécio e Alberto se encontram para executar o seu trabalho sujo.
A CARACTERIZAÇÃO DOS PERSONAGENS E A
ESTRUTURA DO ROMANCE
Dioclécio e Alberto, protagonistas
dessa história, são psicológica e moralmente antagônicos. Embora atuem juntos,
cumprindo a mesma missão de arrebanhar eleitores de modo fraudulento, não costumam
apresentar o mesmo tipo de comportamento em relação ao seu trabalho. Vemos, às
vezes, Alberto vacilar e questionar a sua atividade, enquanto Dioclécio, sem
escrúpulo moral algum, segue adiante sem se questionar.
“– Oferecemos o que não é nosso e nem
do Jorge Boriz. Oferecemos terra que não é nossa...
– Ô, Alberto! Sinceramente? Foda-se!
Não me venha com esse papo de terra pública, com essa frescurada de preservar o meio ambiente (...).”
Se Alberto vive um drama familiar
[está em vias de se separar da esposa, que o trai com o pastor da igreja],
Dioclécio, pelo contrário, vive muito bem seu estilo macho-comedor e bom de
porrada. Se mete em confusão, ora por conta de se envolver com mulher alheia,
ora por topar com tipos arrogantes, como o jovem gaúcho que ele humilha em
plena rua ao lhe aplicar uma tremenda surra. Mas algumas de suas atitudes podem
surpreender, como da vez em que ele toma as dores de um jovem homossexual agredido
por um grupo de filhinhos de papai [e aqui o quase vilão Dioclécio ganha ares
de herói, desconstruindo a sua péssima imagem frente ao leitor].
Também parecem se diferenciar no
aspecto físico, ainda que só as características físicas de Dioclécio estejam
mais definidas, com seus traços negroides [“Virei-me de lado e olhei seu perfil
com nariz achatado, cabelos pretos, boca carnuda”]. Alberto seria branco? Como
narrador, ele fala pouco de si, focando mais na figura do companheiro de
trabalho, visto por ele quase sempre de forma negativa: “No final da tarde me
separei de Dioclécio. Esse sujeito, por muito tempo, me cansa. Grosseria,
mau-caratismo e senso comum em excesso”.
O romance é dividido em partes,
quatro ao todo, cada uma com um título, e em capítulos, cada um também com seu
respectivo título [“Pesquisa de campo”, “Os donos da cidade”, “Rock às margens
do Velho Chico” etc.], que já adianta ao leitor o que irá ser tratado aí. O
narrador da história é Alberto, como já foi dito, e, através do seu olhar ainda
humanizado, podemos ter um recorte crítico da realidade e das ações
empreendidas pelos envolvidos na trama. Embora o autor procure conduzir sua
narrativa com segurança e agilidade, há alguns diálogos que se estendem demais
e poderiam ser descartados em nome de uma maior fluidez da narrativa.
A GENTE POBRE E SEU DESTINO NO
ROMANCE DE LOURENÇO DUTRA
A narrativa de Os Aliciadores vai nos conduzindo pelos meandros do poder no
interior brasileiro e expondo todas as suas mazelas. O romance, nesse aspecto,
ganha uma importância grande, pois trata de um assunto nem sempre valorizado
pelos nossos autores, quase sempre focados em dramas vividos por tipos brancos
e da classe-média nos grandes centros urbanos do país. No romance do
brasiliense Lourenço Dutra, professor de História e graduado também em
Jornalismo, é o povão desamparado que aparece na mira dos políticos aproveitadores,
como Jorge Boriz. E o que se cobra dessas pessoas, prisioneiras das
necessidades mais básicas, é que ajudem os poderosos a manterem sua hegemonia
política. Em tempo de eleição, esta pode ser uma leitura bastante instigante. Fica
então o convite para que o leitor [também eleitor] mergulhe na trama dessa obra
que mistura ação, violência, sexo, amor, crítica social e sátira, para chegar,
enfim, ao Brasil profundo, sinônimo de atraso e corrupção.
quinta-feira, 8 de novembro de 2018
Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro
Por Geraldo Lima
Cristiane
Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no
Rio de Janeiro e radicada em Brasília] é uma das vozes mais contundentes da
literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto
literário (poesia ou prosa) que, segundo Zilá Bernd, no seu livro Introdução à literatura negra (Editora
Brasiliense, 1988, pág. 95), “configura-se como uma forma privilegiada de
autoconhecimento e de reconstrução de uma imagem positiva do negro”. É, também,
literatura que tem o compromisso de denunciar a discriminação racial e o quadro
de exclusão em que vive a maior parte da população negra no Brasil. É, em suma,
uma literatura que se propõe como militante, engajada, com todos os riscos que
isso acarreta. E é assim nos dezoito contos que compõem o livro O tapete voador (Editora Malê, 2016), de
Cristiane Sobral.
Nesse
seu livro, Cristiane Sobral nos dá mostra de como esse tipo de narrativa se
propõe como objeto estético e, ao mesmo tempo, como instrumento de
conscientização do indivíduo negro sobre a importância de assumir a sua
verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, aí, é contra a ideologia do embranquecimento. A estratégia, nesse caso, é tomar uma situação
cotidiana que exponha o problema da discriminação racial ou do conflito
identitário do negro brasileiro, de modo objetivo, quase didático, de maneira
que o leitor saia da leitura do texto com sua consciência mudada, ou, na linha
do que alguns dos contos de O tapete
voador sugerem, renasça com nova identidade cultural ou resista sem abrir
mão das suas convicções raciais.
De
imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento literário um
defeito ou uma pobreza estética, ao qual faltaria sutileza na construção da
narrativa e na representação psicológica das personagens. Sobre isso, nos
alerta Zilá Bernd (ibid., pág. 98): “Assim, em literatura negra, a questão de
avaliação do nível estético atingido não deve se pôr como elemento exclusivo de
análise, ou como preocupação única da crítica. Jack Corzani, autor da
importante obra La Littérature des Antilles-Guyane Françaises (1978), (...)
recoloca o problema de privilegiar o estético no estudo de obras que se querem
essencialmente funcionais, concluindo que esse critério corresponderia a
condenar a pesquisa, a priori, à esterilidade”. Assim, devemos ver, em primeiro
plano, o caráter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para
explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro
brasileiro.
E é
de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos
(o estético e o ideológico) na construção dos dezoito contos que compõem esse
seu livro. A sua habilidade na construção da narrativa que privilegia o
elemento estético e a fabulação fica visível no conto Bife com batatas fritas. Nesse conto, a questão estética e a temática social são bem articuladas, de
modo que o leitor não tem como não se comover com o quadro de miséria e
orfandade de uma criança de periferia. Esse é, aliás, um dos melhores contos do
volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros.
No conto O limpador de janelas, o que
chama a atenção é o modo como a narrativa se constrói a partir de frases muito
curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando
conta das várias peripécias amorosas do protagonista. Ao final, o personagem Samuel, um quase
pícaro, um “pegador” nato, verá que a sua condição de negro em terras
tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagradáveis. Por falar em
final, é de se observar que há, propositalmente, um elevado tom de idealização
em alguns casos, beirando o inverossímil, como o que acontece no conto Metamorfose, em que tudo acaba
exageradamente bem.
Ainda
que predomine o realismo, algumas histórias flertam com o fantástico, como nos
contos O galo preto e A samambaia. O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia
molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e crítico o olhar da
autora sobre os episódios de discriminação racial e de negação da própria
negritude, como é o caso dos contos Lélio
e Afrodisíaco (neste, ironiza-se o
propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em
primeira – nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres –, as histórias
compõem um painel de situações variadas em que o indivíduo negro se vê frente a
frente com a questão do preconceito racial, da miséria ou da crise de
identidade. A subjetividade feminina é também ponto de destaque nessas
histórias de enfrentamento e reconstrução da imagem, como nos contos Vox mulher, em que a protagonista
expressa, numa linguagem marcadamente poética e intensa, seus desejos e seu
orgulho de ser mulher negra, e Pixaim,
no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua infância passada no Rio de
Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o
alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, já residindo em Brasília, seu
orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente é: uma mulher
negra e madura. “A gente só pode ser aquilo que é”, afirma ao final, num claro
recado aos que procuram negar a sua origem.
Nem
sempre os personagens são pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo
contrário, assumem a sua ancestralidade e suas características negras e as
defendem com convicção. Tomemos, como exemplo, o conto O tapete voador, que abre o volume, e o conto Renascença, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira
pessoa, a personagem Bárbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, é
funcionária de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No
momento, ela pretende se aperfeiçoar mais ainda e pede o apoio da empresa para
fazer uma pós-graduação. Mas qual não será o seu espanto e a sua decepção ao
ser levada à presença do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar
lá, no posto mais alto, um homem negro? A decepção ficará por conta do que ele,
partindo da sua estratégia de ascensão profissional e social, vai lhe
aconselhar a fazer em relação à sua aparência. No segundo conto, também narrado
em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua
orientação religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida
pelos homens negros da igreja evangélica que ela frequenta. “Teresa gostava
muito da sua igreja, mas seu corpo negro também sentia naquele ambiente o peso
do preconceito, da discriminação. Isso gerava muitos questionamentos. Por que
não despertava o interesse dos rapazes da congregação? (...) O fato é que,
naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres
brancas...” O fato de ser independente e
ter um estilo próprio (“não alisava os cabelos”), chocava os outros fiéis, e
sempre era aconselhada a mudar a sua aparência. Assim como Bárbara, só lhe
resta resistir e ir em busca de um convívio em que seja valorizada sem precisar
negar a sua identidade racial.
Num
país em que a representativa da população negra é baixíssima nos circuitos
literários, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores
brancos e das autoras brancas, é de se celebrar o trabalho de escritores e
escritoras como Cristiane Sobral, que dão voz e vez em suas narrativas e poemas
à nossa gente tão excluída.
[Resenha publicada, originalmente, na revista eletrônica Diversos Afins e no jornal Correio Braziliense]
[Resenha publicada, originalmente, na revista eletrônica Diversos Afins e no jornal Correio Braziliense]
terça-feira, 2 de outubro de 2018
Protagonistas negros nos contos de Cuti
Por Geraldo Lima
Meu primeiro contato com a obra
literária de Cuti deu-se através da poesia, mais precisamente com seus poemas
publicados nos Cadernos Negros, do coletivo
Quilombhoje-Literatura – do qual ele foi um dos fundadores –, e no livro de
Zilá Bernd, Introdução à Literatura Negra
(editora brasiliense). Nesse livro, no capítulo intitulado A literatura negra brasileira: suas leis fundamentais, a autora
cita a poesia de Cuti, assim como a de Oliveira Silveira, Ele Semog, Oswaldo de
Camargo, Paulo Colina, entre outros, como exemplo de poesia negra, ou seja, a
produção poética em que o negro busca assumir-se criticamente como sujeito da
enunciação. Não mais a poesia falando sobre o negro, ao modo de Castro Alves e
Jorge de Lima, mas, sim, “um-eu-que-se-quer-negro, evidenciando uma ruptura com
uma ordenação anterior que condenava o negro a ocupar a posição de objeto ou,
melhor, daquele de quem se fala”, nas palavras de Zilá Bernd.
Nesse mesmo livro, atendo-se à
realidade brasileira e à produção literária de autoria negra, Zilá aponta a
predominância da poesia sobre o conto e o romance até então. Há um discurso
poético dando conta do “processo de transformação da consciência negra”, mas
não há, ainda, uma narrativa nesse mesmo padrão. A causa, segunda a autora, é
que “para a maturação de um romance negro brasileiro, algumas etapas ainda
precisam ser vencidas, como o resgate da sua participação na História do
Brasil, sobre a qual tantas sombras se projetam, e a definição de sua própria
identidade. Para que exista um discurso ficcional do negro é preciso que o
negro defina a imagem que possui de si mesmo e que consolide o processo já
iniciado de construção de uma consciência de ser negro na América”. O livro de
Zilá Bernd é de 1988. De lá para cá, muita coisa mudou em relação a isso,
inclusive com o aumento no número de pessoas que, segundo as últimas pesquisas
realizadas pelo IBGE, têm se reconhecido como negras. Partindo então desse
raciocínio, podemos entender o crescente número de escritores negros
brasileiros que trazem a público narrativas em que homens negros e mulheres
negras são protagonistas. É o caso,
aqui, de Cuti, com seu livro Contos
escolhidos, publicado pela Editora Malê. A Malê, diga-se de passagem, veio
com a proposta de publicar e dar visibilidade aos autores negros.
A questão racial e seu enfoque ficcional
Cuti (pseudônimo de Luiz Silva),
doutor em Literatura Brasileira pela Unicamp, tem produção na área do ensaio,
da poesia, do teatro, do conto e da literatura juvenil. É um dos expoentes da
geração de autores negros que, no final dos anos 70, começou a publicar, de
forma independente, poemas marcados por uma voz descontente com a situação do
povo negro no Brasil. Nesse seu livro de contos publicado pela Editora Malê,
ele se revela um prosador hábil e conhecedor da alma humana. Nos dezesseis
contos reunidos no livro, o leitor vai se deparar com uma temática variada,
como violência urbana, inveja, desejo de vingança, marginalidade juvenil,
ciúme, racismo, questões de identidade racial, dificuldade financeira etc. E, o
mais importante, vivida por protagonistas negros.
Para se ter uma ideia de como o autor
trata a questão da identidade racial a partir da narrativa ficcional, vamos tomar
como exemplo o conto O batizado, que
abre o volume. Nesse conto narrado em
terceira pessoa, mas com o fluxo de consciência dando conta do desespero que
vai tomando conta de alguns personagens, o protagonista Paulino, jovem e
militante da causa negra, critica duramente o fato de terem colocado no
sobrinho um nome que não tem ligação alguma com a cultura africana. “Ouçam o
nome do meu adorado sobrinho: Luizinho... Já não chega o sobrenome Oliveira?
Luiz é nome de qual ancestral? Refere-se a qual matriz cultural? E, minha
gente, o nome é de origem francesa. Significa defensor do povo... que não é
nosso povo. O meu sobrinho é, pelo significado do nome, defensor do povo
francês. E o seu povo?” A sua atitude radical cria, como se pode imaginar, um
clima tenso e perigoso durante a comemoração do batizado. Naquele momento de
festa e alienação, sua postura é a do chato, do estraga-prazer que vem anunciar
uma verdade incômoda, a qual todos querem ignorar. É em meio a essa tensão
familiar, de confronto entre visões de mundo opostas, que a narrativa deixa
claro a fratura presente na formação da nossa identidade racial, que começa,
obviamente, no instante em que os africanos são trazidos à força para o Brasil
e, como estratégica de dominação imposta pelos brancos escravagistas, são
renomeados de acordo com a cultura dos seus senhores. Embora a atitude de
Paulino possa parecer exagerada e sem propósito, reivindicando que os negros
brasileiros passem a adotar nomes de origem africana, ela nos faz refletir
sobre essa perda de identidade cultural que propicia a dominação de um povo por
outro. A sua atitude nos lembra, de certa maneira, a de Policarpo Quaresma, que,
no seu nacionalismo exacerbado, propõe o tupi-guarani como língua oficial.
O tema do racismo está presente, de
modo mais explícito, em dois contos: Preto
no branco e Conluio das perdas,
ambos narrados em primeira pessoa. No primeiro, temos aquela famosa situação do
negro que começa a namorar uma mulher branca e tem que enfrentar a resistência
da família dela, neste caso, a resistência maior, com efeitos trágicos, vem do
cunhado. No segundo, a situação de racismo é bem corriqueira, aquela em que o
indivíduo negro é sempre visto como bandido. Neste caso, ao ser confundido com
bandidos que assaltam um banco, o jovem Malcolm fica traumatizado e decide
tomar outro rumo na vida quando já estava na iminência de prestar vestibular
para Engenharia. Essa sua decisão afeta sobremaneira a vida do seu pai,
narrador dessa história e cuja existência é marcada pela perda e pela vivência
também de situações de racismo.
Outras questões raciais marcam a vida
dos personagens dessas histórias de Cuti, como a do protagonista do conto Lembranças das lições. A história é
narrada no tempo presente pelo protagonista que, ainda criança, vê-se
massacrado psicológica e moralmente na aula de História, cujo tema é a
escravidão. Além do riso e dos olhares sacanas dos colegas brancos, o que afeta
mais ainda o protagonista, aumentando-lhe a angústia e o incômodo, é o modo
como a professora desenvolve o tema da aula, sempre realçando algumas palavras,
como negro e escravo. “Parece ter um
martelo na língua e um pé-de-cabra abrindo-lhe um sarcasmo de canto de boca”,
ele observa. Esse tipo de tormento e vergonha tem afetado, com certeza, muitas
crianças negras em sala de aula, levando-as, como o narrador dessa história, à
tentativa de evasão escolar.
Domínio da técnica narrativa e criação de tensão psicológica
Alguns aspectos de carácter literário
e estilístico devem ser destacados nos contos que formam esse volume, pois são
eles que revelam, aos nossos olhos de leitores, o escritor em pleno domínio da
técnica narrativa. Em dois contos, Dupla
culpa e Não era um vez, Cuti
mostra-se um hábil criador de tensão psicológica, dessas em que o personagem, à
deriva, vai nos arrastando junto para dentro do seu desespero e do seu
torvelinho mental. Com frases curtas, torna ainda mais acelerada e asfixiante a
situação do protagonista. A tensão é sempre grande e a expectativa do que vai
acontecer não nos deixa abandonar a leitura. Nesse caso, Cuti pode ser
colocado, sem receio algum, ao lado de Machado de Assis, Dostoiévski,
Graciliano Ramos e Dyonélio Machado. É preciso ressaltar ainda o sentido poético
que o autor imprime à linguagem de alguns textos, nos surpreendendo às vezes
com belas imagens como estas: “Apenas o silêncio empedrado deu indícios de que
ele não estava bem” (Não era uma vez, pág. 61). “A crueldade coloca-lhe o
revólver suavemente na mão” (Não era uma vez, pág. 65). “Júlio foi povoado de
pensamentos violentos, relâmpagos desatados riscando o céu de dentro” (Ponto
riscado no espelho, pág. 67). “Olhava apenas aquele inferno vivo, nele
procurando, talvez, alguma faísca de bondade” (Limite máximo, pág. 123).
Noutros casos, é a ironia e o sarcasmo que atravessam suas narrativas,
acrescentando-lhes um sabor ácido e cortante.
Os contos de Cuti, presentes no livro
Contos escolhidos, são, sem dúvida
alguma, um convite para mergulharmos nas questões étnicas e nas contradições
sociais que marcam a formação do nosso povo. Mas, acima de tudo, são um convite
à leitura de textos ficcionais que nos remetem à reflexão e nos arrancam da
cômoda posição de enxergarmos a nossa realidade apenas de um ponto de vista, o
dos prosadores brancos e, geralmente, de classe média.
[Resenha publicada, originalmente, no caderno de cultura do Jornal Opção-GO e no suplemento literário Correio das Artes-PB]
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