terça-feira, 12 de maio de 2020
quarta-feira, 25 de março de 2020
Uma narrativa que nos arrasta para junto do personagem
O tema do retorno à casa paterna, ou
ao antigo lar, perpassa a história da literatura desde os seus primórdios.
Começa na Odisseia, poema épico de Homero, com o herói grego Odisseu retornando
[ou tentando retornar] ao seu lar em Ítaca, após dez anos de guerra contra os
troianos. Séculos depois, aparece no livro sagrado dos cristãos, mais
especificamente no Evangelho de Lucas, na Parábola do Filho Pródigo [Lucas
15:12-32]; depois, em nossa era, já na moderna literatura brasileira, é tema
tratado com vertiginoso lirismo no romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar,
e, com realismo cravado de sarcasmo, no romance Allegro ma non tropo, da
escritora brasiliense Paulliny Tort. Agora, apresenta-se como a espinha dorsal
que sustenta os dois eixos temporais, presente e passado, no belo romance de
estreia de Carlos Eduardo Pereira, Enquanto os dentes [Todavia, 2017, 93
páginas], que, para coroar o seu êxito, já é semifinalista do Prêmio Oceanos
2018 e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria melhor
livro do ano de romance – autor estreante com mais de 40 anos.
Para efeito de comparação, ou de
contraponto a outras obras de abordagem temática semelhante ao romance de
Carlos Eduardo Pereira, fiquemos, a princípio, com a Parábola do Filho Pródigo
e com o romance Lavoura arcaica, obras que tratam, ainda que de modo diferente,
sobre o retorno do filho à casa paterna.
No texto do evangelista Lucas, o
filho decide, por si mesmo, retornar à casa dos pais após dissipar todo o
dinheiro que lhe foi dado assim que partiu para viver a vida ao seu modo e sem
regramento. Retorna, portanto, falido e em busca do perdão paterno. Por um
lance de sorte ou por ação divina, é recebido com festa pelos pais, ainda que
contrariando o primogênito, que ficara e labutara ao lado do pai o tempo todo.
Já no livro de Raduan Nassar, o filho fujão, assim André é mencionado, retorna
à casa dos pais sob a guarda do irmão mais velho, Pedro, que cumpria o dever de
levá-lo de volta. Não retorna, portanto, de livre e espontânea vontade. Não
traz, também, nenhum sinal de conquista material resultante dessa fuga e desse
enfrentamento do mundo fora dos domínios da casa comandada pela severa
disciplina religiosa do pai. Se fugiu para se livrar do que o atormentava, o
desejo reprimido pela irmã, retorna ainda mais tomado por ele e em completa
possessão. No texto bíblico, o filho pródigo encontra acolhida e compreensão
por parte dos pais; no romance de Raduan, o retorno de André será marcado pelo
confronto ao poder conservador do patriarca e pela tragédia que atinge a
família. No romance Enquanto os dentes, o protagonista Antônio, que havia
deixado a casa dos pais há 20 anos, logo após abandonar a Escola Nacional da
Armada, para onde fora mandado com o objetivo de se formar oficial da Marinha,
retorna completamente falido financeiramente, limitado no seu poder de
locomoção e sem a certeza de que irá encontrar uma acolhida favorável, já que
terá diante de si a figura conservadora e autoritária do pai militar. Da mãe,
religiosa, resignada e obediente às vontades do marido, pode-se esperar ainda
algum afeto e boa acolhida, mas nada está garantido claramente. Nesse sentido,
ainda que apresente um angustiante final em aberto, é com o romance Lavoura arcaica,
de Raduan Nassar, que o seu livro guarda maior parentesco quanto ao destino do
protagonista, que, para desgosto do pai, é homossexual e artista.
A TEMÁTICA E SUA ABRANGÊNCIA
Obviamente que o romance Enquanto os
dentes não aborda apenas o tema do retorno do filho pródigo à casa paterna.
Esse é só consequência do estado físico limitado e da debilidade financeira em
que o protagonista se encontra. Outros temas de suma importância estão
presentes, entre eles a questão da homossexualidade, da construção de uma
identidade individual, da mobilidade urbana para pessoas deficientes, o uso da
memória como fio condutor da narrativa etc.
Essa homossexualidade, que Antônio
procura não demonstrar ostensivamente, se manifestou desde cedo, o que lhe
criava problemas com o pai conservador, como da vez em que, tentando
reproduzir, junto a um grupo de garotos na rua, o modo entusiasmado com que o
pai falava do piloto Nelson Piquet, “aquele, sim, que era um macho de verdade.
Brigão, mulherengo e bom piloto” [pág. 13], acaba se excedendo nos trejeitos e
virando motivo de chacota de todos ali. [Talvez por isso, na vida adulta, tenha
se tornado reservado e discreto, tanto no modo de se vestir quanto no de
portar-se.] Além de ser castigado fisicamente pelo pai, como dessa vez, passa a
ser também motivo de desgosto para ele. “Lembra da cara do Comandante, incapaz
de disfarçar o desgosto pelo filho que não se virava muito bem com aquelas
questões” [pág. 33]. Aí se referindo ao universo da navegação e da sua relação problemática
com o mar, logo ele que, segundo os desejos do pai, devia servir à Marinha
brasileira. No ambiente da Escola da
Armada, como era de se prever, ele também se sentirá oprimido e será motivo de
piada em relação à sua sexualidade e ao seu modo de ser. “Ele era um cara
educado demais...” [pág. 51]. Só quando abandona esses dois ambientes, a casa
dos pais e a Escola, é que se sentirá livre de fato e poderá dar vazão à sua
verdadeira personalidade, que terá na arte um meio de expressão.
A sua identidade individual se forjou
nesses ambientes hostis, que o obrigaram a criar estratégias de sobrevivência,
ora se mostrando dócil e fraco, ora rebelde e forte. Se parece ser um cara
correto, amigável, hospitaleiro, houve momento, no entanto, em que foi capaz de
dedurar um companheiro de Escola por pura vingança, por ele lhe ter causado uma
punição. “Menos por ter ficado na Escola impedido e mais por um desejo de se
vingar, na semana seguinte, na capela, acabou contando em confissão ao padre do
fundo falso no armário onde Nascimento vez ou outra escondia uns papelotes de cocaína
trazidos para ele, com certa frequência, por um terceiro sargento lotado no
paiol” [pág. 63]. O ser reservado, contido, também o manterá fora do olhar
vigilante e condenador dos outros. De certo modo, parece não estar no mundo
para levantar bandeiras, sejam de que natureza for.
No momento em que a narrativa se
inicia, Antônio já está na rua, seguindo em direção ao terminal das barcas. É a
partir desse ponto que vamos segui-lo em sua trajetória até se aproximar da
casa dos pais. Essa chegada, aliás, vai sendo protelada por ele, ao tomar
pequenos desvios e ao demorar em alguns lugares. Assim, percebemos o quanto é
difícil e angustiante para ele empreender essa jornada. Nesse percurso, que é
narrado no presente e dura apenas algumas horas de uma sexta-feira, ele
encontra pequenos obstáculos que dificultam sua locomoção, os quais ele vence
sozinho ou com a ajuda de terceiros. Sem fazer disso um dramalhão, o autor vai
expondo as dificuldades por que passam os cadeirantes, assim como mostra,
também, o que já há de acessibilidade nas ruas. De modo muito sutil, o livro
funciona como um manual de como lidar com pessoas em situação de cadeirante,
evitando tomá-las por incapazes de se virarem sozinhas. Nesse trajeto, Antônio
encontra alguns antigos conhecidos, que, juntamente com o narrador, têm a
função de nos revelar passagens da sua vida, na infância ou na Escola, ligadas
à sua homossexualidade. É aí que vemos o quanto de pressão ele sofreu enquanto
esteve nesses ambientes marcados pela disciplina severa e o conservadorismo.
Essa sua pequena odisseia, ainda que sem os grandes incidentes da homérica,
mostra-se grandiosa pelo esforço empreendido por ele, tanto para se deslocar no
espaço físico, nem sempre adequado para a sua condição de deficiente, quanto no
de manter-se equilibrado psicologicamente, embora a situação lhe seja
desfavorável.
É do entrelaçar de passado e
presente, do buscar na memória elementos que nos permitem enxergar o personagem
em sua inteireza, ainda que de modo gradativo, que se compõe a estrutura do
romance de Carlos Eduardo Pereira. Enquanto Antônio se desloca no presente, em
sua cadeira de rodas, o passado vai sendo recuperado aos poucos, ora dividindo
espaço com o presente num mesmo parágrafo, ora compondo sozinho um parágrafo ou
mais. O narrador onisciente nos dá conta, nesse ir e vir, do presente ao
passado, dos aspectos que formaram ou deformaram a personalidade do
protagonista.
SUTILEZAS ADOTADAS PELO AUTOR NA
COMPOSIÇÃO DO TEXTO
Carlos Eduardo Pereira, nesse seu
livro de estreia, dá mostras de ser já autor veterano, tal a habilidade com que
tece a narrativa, costurando passado e presente, num enredo não-linear, sem, no
entanto, torná-lo confuso. O narrador em 3ª pessoa, que parece estar colado ao
personagem como se fosse alguém que empurrasse a sua cadeira de rodas, é também
um achado. Ele nos faz estar ali também, seguindo Antônio de perto no seu
retorno à casa dos pais. “Antônio sempre achou esta praça interessante” (pág.
6), diz o narrador a certa altura, como se a apontasse com o dedo. Um elemento que poderia deixar o texto chato
e pesado [as minuciosas descrições de espaços e objetos, como a do terminal das
barcas e a da cadeira de rodas] é desenvolvido com leveza e agilidade, sem
travar o escoar das ações. Mas, em
contraponto a isso, temos, em relação à caracterização do protagonista, e de
outros personagens, uma outra estratégia, ou seja, a da apresentação indireta
do personagem. Assim, sabemos bastante e
de uma vez só sobre como funciona o terminal das barcas, como é constituída a
barca, sobre a engrenagem da cadeira de rodas importada da Alemanha, mas muito
pouco sobre Antônio assim logo de início. O autor dilui, ao longo da narrativa,
as informações que compõem o caráter, os aspectos físicos e psicológicos do
protagonista. Desse modo, só aos poucos vamos tendo acesso aos elementos de
caracterização que nos permitem montar integralmente a sua figura. Só vamos
saber, por exemplo, da cor da pele de Antônio na página 39: “... e Antônio
tecnicamente é mulato, já que o Comandante é branco e a mãe é preta”. [A
questão racial, como poderia parecer aqui, não será tema desenvolvido pelo
autor. O personagem não vivencia, em relação a esse aspecto, nenhum caso de
discriminação.] Da homossexualidade de
Antônio vamos nos inteirando aos poucos também, ainda que o narrador vá
deixando pistas que apontam para essa orientação sexual. Ou seja, não é dito ao
leitor, logo de início, que o protagonista é homossexual, que teve esse ou
aquele caso. O leitor vai pegando cada uma dessas informações e vai montando a
história e o retrato do personagem. Isso obriga-o a manter uma atenção maior
caso queira, de fato, ter uma ideia precisa sobre a natureza dos
personagens.
Enquanto os dentes é romance de
narrativa fluida, sem excessos, que nos cativa desde o início, não nos
permitindo abandonar o personagem enquanto ele retorna fracassado para o antigo
lar. É essa história de tentativa de se firmar no mundo e de fracasso ao final,
que Carlos Eduardo nos apresenta com rigor técnico e estética refinada, sem deixar,
no entanto, que o leitor, ao término da leitura, abstenha-se da reflexão
crítica sobre o destino do ser humano.
[Resenha publicada, originalmente, no caderno de cultura do JORNAL OPÇÃO]
sexta-feira, 24 de janeiro de 2020
Lucky, um filme imperdível
Por Geraldo Lima
Lucky, de John Carroll Lynch, é um filme que nos trinca o coração,
tamanho o grau de humanidade que ele irradia, e nos força, esteticamente, a
mergulhar na vida do personagem e emergir dali com a alma repleta de afetos e
beleza.
O filme é de 2017 e passou batido diante do olhar dos principais prêmios
da indústria cinematográfica, mais especificamente o do Oscar, que ignorou a
magistral interpretação de Harry Dean Stanton, que, aos 90 anos de idade,
encarnou, com finesse e paixão, a vida de um homem também nos seus 90 anos, o
cético e ranzinza Lucky. O corpo de Lucky/Stanton está definhando, dando sinais
de que pode desabar a qualquer momento [o de Lucky, de fato, desaba em
determinado momento, alertando-o de que o fim está próximo], mas o espírito
mantém-se vivo, intenso, como se pudesse avançar ainda por décadas e décadas.
Lucky, embora pessimista e ranzinza, está cercado de afeto, e, no
lugarejo em que vive, num desses lugares esquecidos do interior dos Estados
Unidos, com cara de velho Oeste, não passa despercebido. Vive sozinho, mas não
é um solitário, como ele mesmo defende. Poderia ser um tipo apenas folclórico,
mas sua radicalidade existencial e seu discurso filosófico à la Cioran
afastam-no do puro tipo e nos entrega um ser complexo, cujo ato de viver nos
emociona e nos humaniza. Sua rotina, que parece que vai sempre dar em nada,
deságua em encontros em que a vida, naquele vilarejo, mostra-se mais intensa e
rica que em qualquer grande centro urbano.
Lucky é o primeiro filme de John Lynch como diretor, até então apenas um
ator coadjuvante. E ele acerta de primeira. A obra que ele entrega ao público é
recheada de poesia e sutilezas narrativas. Há que se ter paciência para seguir
a rotina do protagonista, despida de eventos mirabolantes e violentos, e olhar
agudo para perceber a riqueza estética e de conteúdo que o filme apresenta. É
assistir e se emocionar. E rir também, já que o filme tem elementos de comédia.
E a genial interpretação de Stanton nos leva de uma ponta a outra do espectro
de emoções. Com este filme, ele encerrou brilhantemente sua carreira de ator:
Harry Dean Stanton faleceu sem ver a estreia do filme.
Minha gente, em tempos tão torpes quanto este em que vivemos, só podemos
salvar nossa humanidade, nos reabastecermos de esperança, com a fruição de
obras de arte como essa, obras de arte essenciais, obras de arte que nos dão
vontade de celebrar a vida sempre sempre sempre...
terça-feira, 7 de janeiro de 2020
quinta-feira, 26 de dezembro de 2019
Romance de Cinthia Kriemler nos convida ao mergulho nos abismos da alma humana
Por Geraldo Lima
Todos os Abismos convidam para um mergulho, romance de Cinthia Kriemler
publicado pela Editora Patuá em 2017, não é um livro de leitura fácil. Não que
apresente, em relação à linguagem ou à construção frasal, maiores dificuldades
para a fruição da leitura. O texto é costurado, na sua grande extensão, com
frases curtas, diretas, sem malabarismos verbais. Nada de linguagem poética,
tudo muito seco, sem rodeios, calcado num realismo brutal. Como um soco. É isso: a narrativa adotada por
Cinthia quer, na verdade, funcionar como um soco que desperte a consciência do
leitor! A narrativa quer, enfim, arrastar sem titubeios esse leitor para dentro
da zona nebulosa e trágica da protagonista.
É aí que a coisa se complica, que a
leitura torna-se uma prova de fogo, exigindo do leitor ou da leitora nervos de
aço, estômago para digerir situações de violência das quais temos conhecimento,
muitas das vezes, apenas pelos jornais ou por conversas de terceiros. Essas
narrativas, sem nos forçar a um mergulho profundo no tormento mental e no dia a
dia da personagem, mantêm-nos ainda numa posição bastante confortável. E é essa
posição de conforto que a narrativa de Cinthia nos tira. E aqui chegamos a mais
uma das razões de ser da literatura: levar-nos até o mais fundo da alma
humana.
Cinthia Kriemler, nascida no Rio de
Janeiro mas residindo em Brasília desde 1969, já está no seu quinto livro
publicado, sendo que o quarto, Na
escuridão não existe cor-de-rosa (contos, Editora Patuá, 2015), foi
semifinalista do Prêmio Oceanos 2016. Todos
os abismos convidam para um mergulho é seu primeiro romance.
Narrado em primeira pessoa pela
protagonista Beatriz, uma assistente social com sérios problemas pessoais, o
romance nos apresenta, sem suavizar o discurso, a realidade sombria e trágica
de mulheres e crianças que sofrem violência doméstica e abusos sexuais. Além
desse contexto social em que Beatriz atua como profissional, numa casa abrigo,
temos acesso também ao universo das suas relações pessoais e afetivas, com
todos os conflitos que lhe atormentam a alma: a perda da filha para a
depressão, a relação ambígua com o ex-marido Bernardo, os atritos com a mãe e o
irmão e os encontros sexuais estéreis com estranhos.
A narrativa ocorre, na maior parte do
tempo, no presente, um presente asfixiante e que não deixa brechas para o
ingresso num futuro de redenção e paz. Quando se descola desse tempo presente,
a narrativa descortina aos nossos olhos a vida pregressa da
narradora-personagem, com seu passado traumático, e a causa de seu lento e
progressivo mergulho no abismo do vício, tanto das drogas quanto do sexo. Essa
estratégia de narrativa adotada por Cinthia não permite ao leitor o
distanciamento que uma narrativa no tempo passado poderia propiciar, com a
ideia de que tudo são fatos passados. O tormento da personagem Beatriz é algo
que acontece agora, neste exato momento, diante dos olhos do leitor ou da
leitora, enquanto a narrativa se desenrola. “Nem eu sei de onde vem esta raiva.
Eu não sou assim. Nunca me exaltei desse
jeito. Tenho que respirar fundo. Daqui a uns minutos vou conversar com esse
sujeito anormal” (pág. 44).
Beatriz não é do tipo que podemos
alçar facilmente à categoria de heroína. É, antes de tudo, uma anti-heroína.
Incumbida de salvar vidas humanas, ela própria precisa ser salva das ruínas em
que sua vida pessoal está soterrada. Sua compulsão sexual leva-a aos mais
degradantes ambientes, dos quais retorna ainda mais insatisfeita. É também uma representante da classe média
com suas fissuras e vazios. Uma mulher branca, com livre trânsito na sociedade,
mas que sempre vai dar num beco sem saída ao fraquejar e ceder ao vício. Muito pouco nela nos desperta simpatia. A sua
existência paradoxal nos atordoa, levando-nos da compaixão à raiva em poucos
segundos. Como pode alguém, cuja função é resgatar pessoas soterradas nos
escombros da violência, descer às vezes tão baixo em busca de satisfação para
um desejo que é só válvula de escape? “Bunker. É a única palavra no néon vulgar
iluminando a porta de entrada para o inferno. Os degraus estreitos, sujos,
convenientes. Barro, cuspe, vômito, bebidas. Uma gosma permanente que mais
nenhuma água limpa. (...) Um cigarro. A mão que acende o cigarro. Grande,
suada. O corpo roçando o meu. Por trás. O cheiro de bebida, de maconha” (pág.
109). Mas aí, lembrando-nos da sua infância traumática, marcada por abusos, do
remorso que lhe corrói a consciência pelo que aconteceu à filha Laura, do quão
desgastante é a lida com o sofrimento alheio [sem a expectativa, às vezes, de
obter sucesso], da própria complexidade da existência humana e de que não
devemos esquecer “a variedade do mundo
humano e de sua vida psíquica”, como nos alertou Freud no seu O mal-estar na cultura, então,
lembrando-nos disso tudo, conseguimos vislumbrar uma Beatriz humana, retratada
em plena vertigem da sua queda.
E é por apresentar “o poder de
comunicar umas almas com as outras”, como queria Lima Barreto para a
literatura, e por nos convidar a esse mergulho em águas tão tormentosas, em que
a vida humana borbulha intensa e inquietante, tirando-nos da zona de conforto,
que vale a pena ler esse primeiro romance de Cinthia Kriemler.
[Texto publicado, originalmente, no JORNAL OPÇÃO e no SUPLEMENTO LITERÁRIO DE MINAS GERAIS]
sexta-feira, 20 de dezembro de 2019
Participação na Jornada Literária do Distrito Federal 2019 - Gama
[fotos: Cícero Bezerra]
[Organização/realização da Jornada Marilda Bezerra e João Bosco Bezerra Bonfim]
segunda-feira, 22 de abril de 2019
A vida como uma busca infindável
Por Geraldo Lima
Allegro ma non troppo (editora Oito e
Meio, 2016) é o primeiro romance da escritora e jornalista brasiliense
Paulliny Gualbert Tort, que até então só se aventurara no conto, com participação
em antologias e publicações em revistas e sites.
A história contada
no livro é ambientada, na sua maior parte, em Brasília e arredores, mas leva o
leitor também ao ambiente exótico e cativante da Chapada dos Veadeiros, em
Goiás. É narrativa ágil e de grande movimentação, que não deixa o leitor cair
em pasmaceira. Aborda, em linhas gerais, o tema da busca pelo filho desgarrado.
Outros temas, no entanto, estão presentes, como o conflito familiar, a
incapacidade de se ligar afetivamente a alguém, a busca por um sentido verdadeiro
para a vida etc. Não escapa também à escrita em tom mordaz de Paulliny um
retrato crítico e esmaecido do modo de vida da classe média, principalmente a
que habita nas entrequadras do Plano Piloto.
O diálogo com outras narrativas, dos tempos
bíblicos aos atuais.
Estreia de
sucesso na narrativa mais longa, esse primeiro romance de Paulliny Tort foi
semifinalista do Prêmio Oceanos 2017, um dos mais prestigiados prêmios
literários a contemplar autores de língua portuguesa. Sem dúvida, esse feito a
coloca como uma das escritoras contemporâneas que despontam como grande
promessa de que a escrita feminina (ou a literatura feita por mulheres)
firma-se de fato em terras tupiniquins. E esse acontecimento literário torna-se
mais instigante ainda quando constatamos que o romance de Paulliny traz como
narrador em primeira pessoa um homem, o protagonista Daniel. Ou seja, a jovem
autora, a partir do olhar masculino, desenvolve um tema que nos foi
apresentado, pela primeira vez, no Evangelho de Lucas. Trata-se da famosa
Parábola do Filho Pródigo [Lucas 15:12 – 32].Mas vamos ao que aproxima a
narrativa romanesca da jovem escritora brasiliense da narrativa bíblica, na
qual Jesus expõe seus ensinamentos, e o que as distancia ao mesmo tempo.
Em ambas as histórias,
há a figura do filho que decide, num determinado momento da vida, deixar a casa
dos pais e sair pelo mundo. Na narrativa
do evangelista Lucas, é o filho mais moço que parte após receber do pai a sua
parte da herança. Na de Paulliny, é o filho mais velho (João) que parte, dois
anos antes da morte do pai, um Senador da República com o qual tinha uma
convivência conflituosa.[Aqui, é a mãe que se angustia com a partida e
posterior sumiço do filho.] Como é do conhecimento dos leitores do Novo
Testamento, o filho mais novo dissipa em farras o que recebeu como herança e,
em dificuldade financeira, retorna para a casa paterna em busca de perdão e
trabalho. O antagonismo se dá, nesse
caso, em relação ao filho mais velho, que, tendo ficado o tempo todo ao lado do
pai, ajudando-o na lida diária, sente-se injustiçado ao vê-lo receber o filho
pródigo com festa. Na história criada por Paulliny, há também esse antagonismo
entre os irmãos João e Daniel, que vai sendo exposto ao longo da narrativa e se
acentua mais fortemente ao final. Será possível uma reconciliação entre eles? E
que mistérios prendem tão fortemente a mãe ao filho mais velho? No texto
bíblico, entendemos que a explicação comovente e sábia do pai tenha sido aceita
pelo filho indignado.
Há ainda, como
elemento complicador desse estranhamento entre os dois irmãos do romance Allegro ma non tropo, o fato de Daniel
sentir-se menos acolhido pelo olhar dos outros por ser fisicamente diferente do
irmão. Nas palavras de Daniel, o fato de o irmão se parecer fisicamente com a
mãe, loira, alta, bonita, torna-o privilegiado e acima de qualquer suspeita,
enquanto ele, moreno e franzino, que se diz parecer com ninguém, figura-se suspeito,
por exemplo, ante o olhar dos porteiros. “O porteiro, novo no prédio, não me
deixou subir sem ser anunciado. Duvidou que eu fosse filho da madame.” Nesse
trecho, Paulliny deixa entrever um problema que afeta sobremaneira a população
negra no Brasil: a vigilância mais acirrada sobre o indivíduo negro, seja o de
pele mais escura, seja o de pele um pouco mais clara. Entrar em lugares mais
sofisticados, de classe média ou rica, só pelo elevador de serviço ou depois de
passar por severa revista. Embora a autora use a palavra “moreno” para
caracterizar a cor da pele de Daniel (caracterização rejeitada, hoje, por boa
parte da população afrodescendente), é nessa linha da questão racial que a
narrativa adentra.Mas, na realidade, sem ir além dessa insinuação de
discriminação racial, mesmo porque o foco da sua narrativa é outro: a busca
pelo filho desgarrado. E é nesse ponto que sua história envolvendo esse tipo de
busca, ou de tema, nos leva a outra história, esta pertencente à moderna
literatura brasileira. Trata-se do maravilhoso livro Lavoura arcaica, de Raduan Nassar.
No livro de
Paulliny, é o irmão mais novo, Daniel, o incumbido pela mãe de procurar pelo
irmão mais velho que partiu sem indicar paradeiro. No de Raduan Nassar, cabe ao
irmão mais velho, Pedro, trazer de volta à casa paterna o filho fujão (é como
fuga que é vista a partida de André). Em ambas as histórias, os protagonistas
são os narradores, mas cada um imprime um tom próprio ao seu discurso: poético
e extremado em André (Lavoura Arcaica),
prosaico e irônico em Daniel (Allegro ma
non tropo). No entanto, o sentido de possessão, de embate violento no campo
da moral, dos costumes familiares, o uso da linguagem poética em estado puro,
vibrante, presentes no romance Lavoura
arcaica, não fazem parte da configuração narrativa de Allegro ma non troppo.A narrativa de Paulliny não busca a densidade
psicológica ou trágica que podemos observar na obra de Raduan. É narrativa mais
fluida, que dá conta da movimentação do protagonista na busca pelo irmão, em
Alto Paraíso, cidade mística situada na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, ou nos
arredores de Brasília. É, em suma, narrativa que prima pelo tom de oralidade.
Outros pontos de
contato ou de afastamento entre os dois livro podem ser apontados: se em Lavoura arcaica há o elemento religioso
defendido com severidade e força pelo pai, em Allegro ma non troppo aparece o elemento místico, que é visto pelo
narrador-personagem com reserva e ironia. Aliás, esse é o principal elemento
que Daniel aponta como motivo de afastamento entre ele e o irmão: João enverada,
cada vez mais, pelos caminhos do misticismo, enquanto ele vai sendo tragado
pelo ceticismo. As duas histórias são dramas familiares que ilustram bem a
grande dificuldade de convivência entre as pessoas quando tomadas por ideias
extremas e apaixonadas. O sentido de liberdade e de busca pela própria
essência, mesmo que isso se dê de forma enviesada e incompreensível para os
demais, está presente tanto no livro de Raduan quanto no de Paulliny. Mas a
proximidade entre as duas obras acaba aí.
A
ligação com a música e alguns aspectos da vida do protagonista
Allegro ma non tropo [do italiano,
significa “rápido, mas não muito”] é uma expressão do universo da música
clássica e, segundo a Wikipédia, “é um andamento utilizado para indicar ao
músico que a execução deve ser moderadamente rápida. Em geral, o movimento allegro é executado com pulsão rápida e
expressão leve e alegre”. No caso do livro de Paulliny, podemos observar que a
narrativa segue um ritmo ágil, acelerado, mas sem a pressa exagerada que
resulta num atropelo de cenas desconexas. [A referência à música, tanto a
erudita quanto a popular, é uma constante ao longa da história.]
Embora o tema
seja pesado [o conflito familiar e existencial do protagonista, um músico
erudito em busca de afirmação profissional e compreensão dos problemas afetivos],
o uso da ironia quebra em parte essa sisudez e mantém a história num andamento
mais leve, o que permite, através do olhar do narrador-personagem, que outros
elementos ao redor sejam mostrados. É assim que, através dum olhar mais
descolado do seu mundo interior, Daniel, em sua jornada de busca pelo irmão,
apresenta ao leitor o universo místico da cidade de Alto Paraíso, com seus
tipos excêntricos, as cachoeiras que atraem tantos turistas ao vilarejo de São
Jorge [também na Chapada dos Veadeiros, a 300 km de Brasília] e os arredores da
Capital, até então desconhecidos para ele.Porém, os tipos que aparecem nesses
lugares marcados pelo misticismo [tipos geralmente em busca de autoconhecimento
ou de um sentido pleno para a vida] nem sempre são vistos com olhar complacente
por Daniel, que, não raro, destila aí sua verve irônica e contaminada pelo
ceticismo. “O Devananda usava um turbante branco enrolado na cabeça. Parecia
indiano, mas não era. Tinha sotaque de cearense, o que sabotava toda a sua
elaborada aparência de guru das montanhas.” É essa descrença, que o faz
desconfiar dos discursos pretensamente místicos, religiosos, e sua incapacidade
de se ligar mais fortemente a alguém que caracterizam mais fundamente a sua
vida. A sua relação instável e insegura com as mulheres é também um contraponto
com a forte personalidade do irmão, um notório conquistador e amante contumaz.
O seu caso com
Marina é bem emblemático: ela se entrega, declarando-se
apaixonado por ele, mas, no momento de ele se entregar também, recua,
justificando seu ato insensível: “Devia estar sentindo ao mesmo tempo muita
raiva e muita vergonha. Quase a puxei de volta para dizer que a amava, mas
fiquei com medo. Com medo de que ela acreditasse e ficasse e eu não conseguisse
mais afastá-la de mim. Eu não queria uma Marina para sempre”.
Paulliny se
revela uma excelente criadora de personagens. Em Alto Paraíso, por exemplo, o
protagonista se envolve com uma série de personagens estranhos e cativantes ao
mesmo tempo. E é com pesar que vemos esses personagens sumirem da história, já
que, em sua busca pelo irmão, Daniel vai e volta ao seu ponto de origem, perdendo
contato com essas pessoas no mínimo interessantes, como Berta, a simpática jovem
descendente de alemães, Gabriela, a garçonete mulata, exuberante e,
aparentemente, inacessível, e Ronald, com sua figura jovem já detonada pela
vida extravagante que leva, mas cheio de afeto.Todos esses personagens, cada um
a seu modo, em função de sua inquietude, mereceriam uma história à parte.
Todos, de certa maneira, são indivíduos que escaparam dos limites da casa dos
pais e se jogaram no mundo em busca de sentidos outros para a vida.
[Texto publicado, originalmente, no Correio das Artes e na revista Diversos Afins]
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