quarta-feira, 23 de junho de 2010


DOIS FILMES E A CRISE DA IGREJA CATÓLICA

Por Geraldo Lima

        A Igreja Católica encontra-se novamente numa encruzilhada: admitir ou não, publicamente, os desvios de conduta de alguns de seus clérigos. O fato é que o Papa tem sido obrigado, nos últimos tempos, pela pressão da mídia, a pedir perdão pelos erros dos seus pares.  Diante dos novos escândalos sexuais envolvendo padres e até bispos, fica no ar a pergunta: Será que dessa vez ocorrerão mudanças profundas no seio dessa instituição secular?
        Enquanto não nos chega a resposta para essa pergunta, a sugestão é assistir a dois filmes magníficos que abordam temas ligados ao universo da Igreja Católica. Falo de O nome da rosa, do diretor Jean-Jacques Annaud, e A dúvida, do diretor e dramaturgo John Patrick Shanley.
        Já havia assistido ao filme O Nome da rosa, de 1986, mas revendo-o agora, junto com meus alunos, e embalado pelos acontecimentos que macularam mais uma vez a imagem da Igreja, tive uma percepção mais profunda sobre o seu conteúdo. 
O filme é a adaptação do livro homônimo, de Umberto Eco, e mostra, de forma brilhante, os desvios éticos e morais que acontecem no interior de um mosteiro medieval. No ambiente sombrio e misterioso desse mosteiro, homens de fé são arrastados para o Mal certos de estarem praticando o Bem. Crime, sexo, embate ideológico, manipulação do conhecimento, tudo isso é mostrado nesse filme com equilíbrio e maestria. Trata-se, basicamente, de um filme policial. E a investigação dos crimes é conduzida por um monge já com ideias renascentistas, ou seja, razão e observação da realidade são elementos fundamentais nesse processo. É também, nesse sentido, um filme de caráter filosófico, pois o debate de ideias leva ao questionamento dos dogmas da Igreja e à própria existência humana. O choque entre essa nova percepção da realidade e a visão supersticiosa dos defensores do poder da Igreja é inevitável.  
Além dessas questões de ordem temática, vale a pena assistir a esse filme pela qualidade estética que ele apresenta: bela fotografia, direção magistral e um elenco de primeira, destacando-se aí, em minha opinião, Sean Connery, no papel do monge-detetive William de Baskerville, F. Murray Abraham, na figura do temido inquisidor Bernardo Gui, e Ron Perlman, interpretando o grotesco e engraçado Salvatore. Reafirmo: o elenco é de primeira, e talvez eu esteja cometendo injustiças ao destacar apenas esses três atores.      
 O nome da rosa é, sem dúvida, um desses filmes que nos levam à reflexão por ser, acima de tudo, um mergulho primoroso na alma humana, tão propícia aos desvios e às tentações.
O filme A dúvida, de 2009, adaptação da peça de teatro homônima, do também diretor do filme John Patrick Shanley, (a peça ganhou o prêmio Pulitzer), nos leva a mergulhar nesse universo religioso e problemático da Igreja Católica e a emergir, ao final, com a certeza de que a fronteira entre o Bem e o Mal é, às vezes, muito tênue. A religiosidade, por si só, não consegue lapidar a nossa alma ao ponto de livrá-la das mesquinharias e fraquezas próprias do ser humano.
A trama do filme, ao contrário da de O nome da rosa, acontece no século XX, em 1964, na escola St. Nicholas, no Bronx. Nesse cenário onde transitam crianças e adultos, principalmente freiras e padres, desencadeia-se uma situação que nos faz suspeitar da validade das certezas religiosas.
        Na sinopse, podemos ler que “O vibrante e carismático padre Flynn (Philip Seymour Hoffman) vem tentando acabar com os rígidos costumes da escola, que há muito são guardados e seguidos ferozmente pela irmã Aloysius Beauvier (Meryl Streep), a diretora com mãos de aço que acredita no poder do medo e da disciplina. Os ventos das mudanças políticas sopram pela comunidade e, de fato, a escola acaba de aceitar seu primeiro aluno negro, Donald Miller (Joseph Foster)”.
É a presença desse menino negro, num universo que não lhe é favorável, que despertará no padre Flynn o espírito protetor. Ao tomar para si a defesa desse menino, diante da ação violenta das outras crianças, o padre despertará a suspeita de que existe algo a mais além dessa ação protetora. São os olhos da inocente e meiga irmã James (Amy Adams) que verão nesse desvelo do padre para com o menino algo de suspeito, digno de ser denunciado. Ao levar ao conhecimento da rígida irmã Aloysius essas suspeitas, a jovem irmã colocará o padre Flynn diante da ação dura e inflexível da diretora, que fará de tudo para afastá-lo da escola.
Se o padre molestou ou não a criança, não ficamos sabendo. Tudo o que há são suspeitas. E, ao final, a dúvida. Porém, a presença da mãe do menino, a Srª Miller (Viola Davis), numa rápida aparição,  deixa-nos estupefatos. Quanta humanidade, meu Deus! Todas as nossas certezas vão por água abaixo diante da sua fala. As questões morais, tão bem defendidas por nossa sociedade, parecem nada diante do desamparo e da resignação daquela mãe. Só por isso, por essa passagem plena de lirismo e dor, pela magnífica atuação de Viola Davis, o filme já mereceria estar entre os melhores, mas temos ainda a presença de Meryl Streep e Philip Seymour Hoffman, ambos impecáveis como sempre. Aliás, Meryl Streep, assim como Fernanda Montenegro, tem o poder de transformar qualquer história em algo imperdível. E é dessa maneira que A dúvida torna-se um desses filmes imperdíveis, tanto pelas suas qualidades estéticas quanto pelo seu poder de nos iluminar e de ampliar nossa visão sobre a existência humana.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

IMPERDÍVEIS!

A  Revista Capitu publicou uma crítica e uma entrevista sobre o meu romance UM. 

 


  N'O BULE, entrevista com o escritor Luís Henrique Pellanda, que responde algumas perguntas impertinentes. Aproveite e participe do sorteio de O macaco ornamental. É só clicar AQUI.

domingo, 13 de junho de 2010

REVISTA O BULE#1


www.o-bule.blogspot.com

 
Nelson de Oliveira. Malagueta. Ana Paula Maia. Fernando Pessoa. Moacir C. Lopes. Realidades alternativas.
Para baixar a revista #1 d'O BULE, com entrevistas, contos, resenhas e vários textos inéditos, clique AQUI  

terça-feira, 8 de junho de 2010

PARCERIA ENTRE O BULE E A TRIPLO V



O site O BULE acaba de firmar parceria com a revista TRIPLO V, em Portugal, para troca de textos. Como resultado dessa colaboração, textos de quatro colunistas d’O BULE, Geraldo Lima,  Homero Gomes, Rodrigo Novaes de Almeida e Rogers Silva já podem ser acessados em:




Saiba mais sobre as parcerias d’O BULE acessando:

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Dionísio na Esplanada dos Ministérios





Por Geraldo Lima


Zé Celso Martinez montou seu Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona no gramado da Esplanada dos Ministérios, ao lado da Biblioteca Nacional de Brasília, de frente para o Poder, e nos brindou com suas Dionisíacas. Das quatro peças apresentadas, assisti a duas: Taniko e As bacantes. Perdi as peças Calcida! e O banquete. Pudesse, teria assistido a todas. Um presente dos deuses assim não se deve menosprezar. Coisa que não teríamos chance de ver senão indo a São Paulo, estava ali, à nossa disposição, e praticamente de graça: o ingresso era trocado por um quilo de alimento não perecível.

Não é fácil assistir às montagens desse gênio do teatro brasileiro. Imagine uma peça cuja duração é de seis horas! Corpos e mentes mais cansados não aguentam mesmo. Além disso, a dramaturgia de Zé Celso segue as ideias antropofágicas do modernista Oswald de Andrade. Uma peça como As bacantes, nas mãos do diretor do Oficina, vira um barco delirante. À Grécia Antiga, presente nos textos de Eurípedes, Ésquilo, Sófocles e Aristófanes, junta-se a “Grécia do Brasil”, e aí entram o Candomblé, o Carnaval, Os mamonas assassinas, o sertão nordestino, o rock etc etc.  Em Taniko, o Teatro Nô funde-se com o ritual do Candomblé, com a Bossa Nova, enfim, com a cultura brasileira. O ritual é sempre no sentido da fusão, da miscigenação, do encontro entre culturas diferentes. O que se opõe de forma brutal, não-antropofágica, ao estrangeiro, à alegria e ao prazer paga um alto preço.  Penteu, rei de Tebas,  que se opõe à presença de Dionísio e ao ritual das bacantes, simboliza bem esse tipo de atitude, e paga caro por isso.

A estética teatral de Zé Celso Martinez é irmã siamesa da estética cinematográfica de Glauber Rocha. Todo esse ritual delirante e antropofágico pode ser visto, por exemplo, no filme A idade da Terra. Ambos os diretores bebem na fonte da cultura grega clássica e na  da cultura brasileira. O processo é o mesmo: trazer o mito para o mais próximo da nossa realidade, de modo que a leitura dos nossos problemas políticos, sociais, psicológicos e estéticos seja ampliada. Na base de tudo isso está, sem dúvida, a antropofagia de Oswald de Andrade.


Um texto levado à cena por Zé Celso é puro ritual. No caso d’As bacantes, isso fica ainda mais evidente. É preciso entender que o que ele procura, nesse caso, é nos fazer mergulhar no mundo dionisíaco de fato. Corpos nus e erotismo tomam conta do palco. Dionísio está ali, e sua presença contamina até a plateia. Pessoas menos afeitas a esses rituais cênicos vão embora logo. Um espetáculo assim, que une as pulsões do ser natural e o mito grego ao mundo tecnológico, num tom de orgia e de crítica às estruturas de poder, não agradará mesmo a todos. Porém, os que ficam e resistem ao cansaço e à ousadia cênica levam na memória a imagem e a pulsação dessa experiência teatral única entre nós.

terça-feira, 25 de maio de 2010

 
VOTAÇÃO TOP BLOG 2010. O BULE está participando!
 
Amigos, O BULE – o blogue de literatura mais bacana do país participa do TOP BLOG 2010. Por isso, pedimos a sua ajuda, votando na gente. Em troca, prometemos cada vez mais nos empenharmos em publicar ficção, seja em prosa ou em verso, entrevistas e artigos inéditos, releases e resenhas de livros e muito mais.
 
É só ir ao http://bit.ly/bwXgX8, votar com seu nome e e-mail e depois confirmar o voto (o TOPBLOG manda depois um e-mail pedindo só para você clicar num link de confirmação). *Se você tem mais de um e-mail, pode participar com todos eles*

Os Editores.