quarta-feira, 24 de novembro de 2010

QUER PARTICIPAR DA PRÓXIMA ENTREVISTA D'O BULE?


A próxima entrevista do coletivo literário O BULE (www.o-bule.blogspot.com), a ser publicada até o dia 10 de dezembro, será com o escritor Esdras do Nascimento, que nasceu em 1934, no Piauí, e hoje vive no Rio de Janeiro. Já foram entrevistados pelos colunistas d’O BULE os escritores Moacir C. Lopes (1927-2010), Nelson de Oliveira, Ana Paula Maia, Italo Moriconi, Luís Henrique Pellanda e Marcelo Mirisola. As entrevistas d’O BULE são conhecidas por serem feitas coletivamente, ora com a participação de convidados e leitores, e por suas perguntas impertinentes.
E para essa entrevista em especial, queremos participações especiais, dentre elas você, leitor. Caso queira participar da entrevista com o escritor Esdras do Nascimento, envie para o e-mail coisaprobule@yahoo.com.br 4 (quatro) perguntas e uma minibiografia com o link do seu blogue ou site.
Até o dia 05 de dezembro escolheremos as perguntas mais pertinentes (ou impertinentes). Capricha então!
Editores d’O BULE.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

UMA MULHER À BEIRA DO CAMINHO

 

Geraldo Lima


        Os vidros fechados quase o impedem de ouvir o chiado das rodas deslizando sobre o asfalto molhado, o repenicar dos pingos da chuva fina (mas persistente) no vidro dianteiro. Entrevê apenas, através dos vidros respingados, tiras de vegetação rasteira, úmida, devorada quase toda pelas  mansões do Park Way / e o empreendimento imobiliário se amplia, estendendo-se, cada vez mais,  em direção a Valparaíso, a Luziânia, ao sítio que mantém  pros lados de Cristalina, num entremeado de condomínios,  cidades, cidadelas, assentamentos // desordem de casas casebres casarões, motéis postos de gasolina prédios ruínas /// súbito, uns resquícios  de cerrado resistindo heroicamente aos avanços do homem e suas máquinas.
         Que ninguém se iluda: não se trata de um ecologista — o ser ao volante apenas constata friamente esses rasgos no corpo do cerrado, sem que isso possa, no entanto, desviar-lhe a atenção, acelerar-lhe os batimentos cardíacos, inundar-lhe a alma de angústia e revolta. Com o mesmo olhar com que analisa um processo, registra agora essas alterações lentas e progressivas na paisagem. Tudo isso seria mesmo inevitável, sentencia: o crescimento populacional, a ausência de uma política habitacional séria, a esperteza de alguns vigaristas desaguando no mar da desordem, no loteamento desenfreado de cada palmo de terra nos arredores da Capital...
Mas que fastio pensar em tudo isso! Que perda de tempo se desgastar tentando encontrar solução para esse caos. No futuro, vaticina, tudo isso aqui será uma megalópole, de Planaltina a Luziânia, um mundo só.  Talvez cheguem até o seu sítio, na ânsia de se juntarem também a Cristalina. Depois, premidos pela necessidade ou pela ganância, perguntar-se-ão com ar de desbravadores, — E por que não emendar com Paracatu?
Ah, como é difícil esvaziar a mente! A todo instante, assalta-o a imagem do tribunal, arrastando-o para o julgamento, para a reflexão. E ele aproveita essa ida ao sítio exatamente para se desvincular desse universo de leis e sentenças. Do conceito de certo e errado. Sentir-se livre, quase outro, é tudo o que almeja.
A chuva persiste. Persiste, também, a prudência, a falta de pressa de chegar ao sítio. Não fosse isso, nem teria notado  a figura esguia de uma mulher pedindo carona, perto da entrada  do Catetinho, protegida apenas por um pedaço de plástico. Devia estar com metade do corpo encharcada. Devia estar congelada sob aquelas roupas mínimas. Devia estar ali há horas tentando comover os carros.
 Sempre se orgulhou de ser um homem prudente, incapaz de agir por impulso, daí quase não se reconhecer na súbita decisão de frear o carro e dar carona à mulher.



Contrai a barriga murcha, dando passagem à mão desvairada que busca, com a ponta dos dedos,  tocar-lhe os pêlos pubianos, ralos, ásperos.  Mas que sensação primordial essa de adivinhar pelo tato o vão úmido entre as coxas! E a mão vai deslizando com muito custo até tocar uma carne magra, grudada aos ossos, tão grudada aos ossos que parece não haver ali cavidade alguma. A mulher, incomodada com a pressão dos dedos, retira a mão que a escava abaixo do ventre em busca de reentrâncias, — Você está dirigindo, recrimina-o com uma  voz  inexpressiva, exausta,  — Não tem problema, ele retruca, consigo fazer as duas coisas ao mesmo tempo, e tenta desabotoar-lhe a calça, procura avidamente por um zíper, mas a mulher retira-lhe novamente a mão trêmula, — Tô é com fome, moço, andei a noite toda. Só então ele se dá ao trabalho de observar  atentamente a figura ao seu lado, muito diversa agora daquela que ele vislumbrou ao lado da pista sob a chuva rala (que persiste),  uma ninfeta, pensou de chofre, a calça de cós baixo e o bustiê deixando à mostra uma barriguinha com piercing e tudo.  Nota, no entanto, sua barriga magra, sem piercing, o rosto seco e a boca meio puxada para um lado,  o olhar embaçado, denunciando uns resquícios de álcool ou droga, — O que você fez durante a noite pra ter andado tanto assim? A mulher se tranca numa frágil redoma de cansaço e tristeza, deixando escapar apenas um leve sorriso de deboche e mistério. Mas aos poucos, com enfado, vai revelando fragmentos da sua vida: mora no Jardim Ingá, com a mãe e o filho de dois anos, — Como você se chama? Hesita, como se revelar o nome fosse se desnudar ou se desarmar de vez, — Nara.  Talvez nem seja o nome verdadeiro, mas, de qualquer forma, é um belo nome, — O que faz na vida? — Nada.   Mente, deduz, deve fazer programa, sabe-se lá como, em que condições, com que espécie de gente.   Agora, desvencilhando-se do desejo cego do início, ele, um quase-ministro do STF, um homem de notável saber jurídico e reputação ilibada, começa a sentir nojo ao imaginar que ela nem se lavou ainda, — Transou muito?, indaga, e ela continua a olhar para fora,   deixando-se evadir para o interior da paisagem molhada, melancólica. Parece que falar rouba-lhe energia, esfacela sua pobre existência. Enfado e gelo. Seu corpo, então, se deixa violentar, permite que as mãos brancas e trêmulas rompam seus limites. Os dedos, grossos e lisos, tentam alcançar, por dentro do bustiê,  seu peito murcho, — Me paga um lanche?, pede, impondo à voz um tom de sedução.  A melodia dessa voz, ainda que mutilada pelo cansaço e pela fome, arrasta a presa para os seus labirintos. Ávido, o homem procura envolver, na concha da mão, os seios flácidos, mínimos.  A mulher, embora esteja fraca, sem couraça, amplia os seus recursos: acaricia-lhe o rosto, despenteia-lhe os cabelos brancos e ralos. A razão, porém, começa a se impor novamente, restabelecendo a conexão entre os neurônios, plugando-se ao que ele considera sua fonte de sabedoria: os preceitos da justiça. Então vai parar numa lanchonete qualquer e correr o risco de deparar com um advogado conhecido? Mas meritíssimo, o senhor aqui, nesse fim de mundo?!, e no outro dia toda a magistratura estaria sabendo, todos os acólitos, toda a plebe, mas que alegria dos adversários, que farra pelos corredores dos tribunais (suspendam os julgamentos, suprimam os artigos, ignorem os acórdãos, os mandados de busca e apreensão, neguem habeas-corpus, todos os recursos, arquivem  os processos), ih, o riso avassalador dos técnicos e analistas judiciários, o palavrório dos advogados nos debates públicos, transmitidos ao vivo pela TV, o promotor, ah, aquele promotorzinho que o odeia, um iniciante ávido para se expor na mídia, ah, canalha (homo homini  lupus ), aqui tens o meu ser abatido, aviltado, destroce ainda mais a minha alma, arraste o meu nome para o lamaçal! — Quer que eu faça um boquete?,  — O quê?!, ele deixa escapar num susto, — Um boquete, não sabe o que é isso? Começa a se sentir ridículo: que faz ali, escavacando aquela mulher sem eira nem beira? Ainda que estejam só os dois no interior do carro, sob o cerco da chuva rala, não pode furtar-se à pressão de uma consciência que não o abandonará jamais. Pode parar o carro e pedir que ela desça. Exigir que ela desça, se for preciso. Mas por que não o faz? Por que não lhe dá um pé na bunda ali mesmo, logo depois de Valparaíso? Como se estivesse adivinhando-lhe os pensamentos,  a mulher desliza a mão sobre sua braguilha, despertando o que já estava quase adormecido. O incêndio, que parecia  controlado, volta a se alastrar.  Ainda não está livre do desejo insano, por isso lhe indaga com voz  abafada, vacilante, — E você tem camisinha? — Não, ela responde lacônica, e, depois de um breve silêncio, pergunta, — será que posto de gasolina vende? Ah, então ele vai parar agora num posto de gasolina para comprar camisinha e correr o risco de ser surpreendido por um dos colegas de tribunal ( nos limites já do estado de Goiás!), logo aquele que anda  de olho numa das vagas do STF, — Mas meu caríssimo, que fazes aqui a esta hora? e quem é aquela no carro? a tua filha? mas ela não se encontrava nos Estados Unidos? e continuaria a falar assim, uma interrogação após a outra, quase um inquérito inteiro,  tentando minar o seu futuro, canalha!, e no outro dia toda a magistratura estaria sabendo, as manchetes dos jornais, sensacionalistas, arrastando a sua imagem de homem público, íntegro, ( e repete para si mesmo, de notável saber jurídico e reputação ilibada)  para o lixo, ele, o mais cotado para assumir uma das vagas no STF,  dono de um trabalho intelectual expressivo, voltado para o engrandecimento da justiça, para o bem do Estado, ad majorem Dei gloriam, e de repente o escândalo, o linchamento em praça pública, que chance lhe dariam de se defender? de justificar seu ato absurdo? os princípios da lei seriam suficientes para julgá-lo?  Dura lex sed lex, parece ouvir a própria voz sentenciando, e Pôncio Pilatos, lavando mais uma vez as mãos,  oferece-o enfim à sanha da multidão ignara, e a  filha mais velha vindo de Nova York, acompanhada do noivo ianque, de cara rosada e gorda (um típico filho do Tio Sam), só para indagar-lhe atônita, — Mas pai, que loucura foi essa?! & as socialites,  com as quais  sua esposa  sempre toma chá, joga gamão, promove eventos beneficentes, todas todas   negando ( uma, duas, três vezes até) fazerem parte do círculo de amizade da sua família,  e imagine ser surpreendido em plena  felação, como aquele ator norte-americano ( ou inglês, não se recorda bem), acusado de atentado ao pudor ao ser pego fazendo sexo oral com uma prostituta (como é mesmo o nome dela? só se lembra de que era negra), um escândalo em escala mundial, a noiva dele, coitada,  tão bonita e sofrendo tanto!, a esposa dele esvaindo-se em lágrimas, a filha vindo dos Estados Unidos (o noivo de cara gorda e rosada a tiracolo, sem entender bulhufas do que está acontecendo, — What’s  the problem? ) só para lhe jogar na cara, — Mas pai, o senhor não pensou no mal que faria à sua família?, e a farra então nos corredores do tribunal, os jornais escancarando seu nome, com foto e tudo, jogando anos e anos de um laborioso trabalho intelectual no lixo, no esgoto.



Raiva e nojo. Todos os sentidos parecem funcionar agora. Há um cheiro forte, denso, quase irrespirável no interior do carro. Vê, nitidamente, os pés sujos, encardidos, de quem vagou a noite inteira em busca de nada, deixando marcas incriminadoras. Corpo seco, vazio. Olhar arrasado, sem sol. Quando chegar ao sítio, vai lavar as mãos milhares vezes, na ânsia de se livrar da presença desse ser na sua pele. Vontade de pedir que a mulher desça, mas, dominado ainda por sentimentos e sensações contraditórios, vacila: sente pena ( a chuva ainda persiste), sente raiva (nunca fez nada parecido assim na vida), sente medo (deseja tanto que nada dê errado, que é bem capaz de acontecer um acidente  por  puro escárnio do destino: o carro derrapar, sair da pista, bater numa árvore, e, no outro dia, os jornais estamparem: ACIDENTE DE CARRO MATA JUIZ E PROSTITUTA. Vexame para a família! Passaporte para o inferno!), sente vontade de escancarar os vidros e respirar  ar puro, pois  o interior do carro, embora o ar-condicionado esteja ligado, tornou-se sufocante. Parece faltar-lhe espaço. A vida, submetida assim a uma convivência tão estreita com o oposto, torna-se insuportável. Irrespirável! Mas, apesar de tudo isso, inexplicavelmente não se liberta do desejo, e arrasta-o ainda a vontade  de bolinar na mulher, tocar de novo na sua vulva seca, hermética, fria, como se durante todo esse tempo estivesse tentando seduzir um cadáver. Contra todas as leis da prudência, decide: vai até o fim. E, apartado ainda do homem sensato que sempre foi, acelera o carro, ignorando a pista molhada, a irregularidade das construções, a melancolia da paisagem úmida e devastada.


(Texto publicado, originalmente, na revista eletrônica Bestiário, no jornal Correio das Artes  e no blog Bar do escritor)

sábado, 30 de outubro de 2010

REVISTA OBULE 02

Amigos leitores, a edição número 2 da nossa revista está quase pronta, não aguentamos e abrimos o forno e tiramos de lá uma prévia da capa para dividir com vocês!

Nela vocês irão encontrar alguns INÉDITOS dos nossos colunistas, as RESENHAS mais comentadas, os TEXTOS mais polêmicos, contribuição dos nossos COLABORADORES, as ENTREVISTAS de Luiz Henrique Pellanda e Italo Moriconi e a estreia da camapanha CORRAATRÁSDESSESLIVROS.

E para abrir o apetite, você pode relembrar as edições da Revista O BULE AQUI (edição Zero) e AQUI (edição #01).

sábado, 9 de outubro de 2010

PORCELANA




Por Geraldo Lima
        
Algo se partira. Baque seco na cerâmica. O vaso de flores? O cinzeiro em forma de pássaro?         
Ásperas palavras.  Farpas. A voz: o avesso da doçura de dias atrás. Ontem mesmo não se beijavam na sala?
Som estridente de tapa. Em seguida, a voz da mãe misturando ao choroo veneno das palavras. Um estrondo em seguida: porta fechada com força e fúria. Passos — acompanhou-os até sumirem no oco do ouvido. O pai...
No outro cômodo, o silêncio. A mãe doía por dentro.

O RETORNO


 Por Geraldo Lima

            Porta entreaberta: fenda por onde ele se esgueira até o centro da sala. Tudo o que ela permitiu foi isso, e talvez seja muito.
            Buscar no sem-assunto algum princípio de conversa, quase um martírio. Se justificar. Pedir desculpas. Como vão as coisas? Ela parece bem disposta a manter-se trancada por dentro, sonegando informações, evitando intimidades: sem olho no olho, sem  lhe oferecer um assento.
            Que   palavra romperia essa geleira?
            Aí estão as crianças, porém é como se não: sem euforia, sem afagos. Olham-no indiferentes. Crescidas... Seriam ainda seus filhos? Aguarda ansioso pela palavra mágica. Em vão.
        Ela parece vingada: fita-o firmemente agora, saboreando esse início de fracasso.
            Sobre ambos, com a mesma tenacidade, agira o tempo. Nela,  todavia, alastrara-se ainda o câncer do ódio. Aquele homem abandonara-os sem justificativa alguma! Se sofrera durante aquele tempo, fizera por merecê-lo. Ela, porém, não merecia sofrimento algum. Mas que fizera nos últimos tempos senão sofrer? Impossível crer de novo. Desde aquele  dia, até o último da sua existência, o deserto, a alma despovoada, o coração inacessível.
            Ele querendo, no entanto, recompor a paisagem de outrora, reencontrar os mesmos gestos, um fiapo de ternura. Recomeçar tudo de novo? Ele diz que sim, eis seu maior desejo. Ela, irônica: Sabe quando? Ainda assim, quer que ela confirme. Nunca mais!      
            A porta aberta, ampla, para que ele saia. Antes que fraqueje, enxota-o feito um cão.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

ANTERO, UM DEMOCRATA


Por Geraldo Lima


       Duas palavras perseguem meu amigo Antero nos últimos dias: escárnio e asco.
        Encontrei-o dia desses numa padaria da cidade e pude constatar o grau de irritação que o acompanha ultimamente. Mal o cumprimentei, ele desabafou:
        – Tô puto da vida, cara.
        Quis saber o que o estava deixando naquele estado, já que ele, normalmente, é bastante calmo. Antero, enquanto esperava na fila, me confessou a causa da sua indignação:
        – Sou um democrata...
        – Um democrata cristão?, brinquei.
        Não achou graça e respondeu ríspido:
        – Que democrata cristão que nada! Esse tipo de coisa, pra mim, só esconde um lobo em pele de cordeiro.  Sou um democrata porque acredito na força da participação popular. Acredito, como os gregos antigos, pais disso tudo, na Ágora, na liberdade de expressão...   
        Vi que ele estava com o verbo solto e procurei não o  interromper mais, só fui confirmando com a cabeça.
        – Pra mim o que está acontecendo é escárnio.
        – Acontecendo em quê?
        – Nessas eleições.
        – Não entendi. Pra mim tá tudo de acordo com a Legislação.
        – Não entendo essa Legislação. Tem gente aí que deveria estar atrás das grades e se apresenta como candidato a representante do povo. Quer ser o meu representante no Legislativo, no...
        Nisso o rapaz por trás do balcão perguntou quem era o próximo.  Antero se apresentou e pediu cinco pães.  Voltou-se para mim:
        – Isso tudo me provoca asco. Dá vontade de vomitar.
        – Besteira ficar indignado assim. Os caras acabam eleitos e você vai ficar ainda mais puto da vida.
        – Minha esperança é que o povo analise bem antes de escolher o candidato.
        – É aí que mora o perigo.
        – Acho que não. Eu, particularmente, não comungo da opinião de Pelé de que “o povo não sabe votar”. Tenho esperanças. Estamos amadurecendo com a Democracia. E a Ficha Limpa vai ser um freio.
        Pegamos nossos pães e seguimos rumo ao caixa. Ele falando, eu ouvindo. Embora estivesse aborrecido com parte do processo eleitoral, ele enxergava uma luz no fim do túnel.
        Eu não posso dizer o mesmo. Sou bastante pessimista. Tenho minhas dúvidas, pois o jogo político envolve vários meandros. Mas naquele momento não quis contrariar meu amigo. Preferi que a sua indignação, atrelada à sua esperança na lucidez do povo, injetasse em mim um ânimo novo.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

A POESIA DE SALOMÃO SOUSA




Nascido em Silvânia, GO, em 1952, Salomão Sousa reside em Brasília desde 1971, onde exerce a profissão de jornalista. Já publicou vários livros de poesia, entre eles A moenda dos dias/O susto de viver (Ed. Civilização Brasileira, 1980); Criação de lodo, 1993, DF; Estoque de relâmpagos (Prêmio Bolsa Brasília de Produção Literária, 2002, DF); Ruínas ao Sol (Prêmio Goyaz de Poesia, Editora 7 Letras, 2006) etc.
A poesia de Salomão Sousa, no livro Ruínas ao Sol, que apresento aqui, é marcada pelo rigor formal e pelo lirismo intenso. Desse modo, a carga racional que o poeta despende na elaboração dos poemas não esvazia a tensão do discurso que expõe as fraturas do ser. Ao contrário, amplia-a. Embora a presença da morte e de outros elementos negativos seja constante nesses poemas, o eu lírico não cessa de apontar para um futuro de vitórias: “as carnes prontas para a paz e a vitória/Para trás as esterqueiras da incerteza/e as ameaças das quadras da secura” (pág. 14).  Como bem assinalou o poeta Ronaldo Costa Fernandes, “... Ruínas ao sol é um livro em que a visão otimista se sobrepõe à visão derrotista”.
Outro elemento a se destacar nesses poemas de Ruínas ao Sol é a presença de imagens que nos remetem ao ambiente rural, interiorano, criando um clima de bucolismo.  Mas não há nisso traço algum de provincianismo ou conservadorismo. A poesia de Salomão Sousa mescla o tom elevado, de extremo refinamento estético, com elementos prosaicos, cotidianos, como em “Não morram os gomos/no desalinho do chavascal/Venha o casco de uma mula/a boca de uma lebre” (pág. 47).  E é nisso que está contida a sua modernidade.

DOIS COMENTÁRIOS:

 1º Sobre Ruínas ao Sol:
“Livro de difícil deciframento, volume denso, não chega, contudo, a ser um livro hermético como um Invenção de Orfeu. Exige, entretanto, leitura e releitura. E é na releitura dos poemas que se descobre tema, conteúdo e a formulação intrigante com a qual o poeta trama sua poética.” (A força da poesia de Salomão Sousa, por Ronaldo Costa Fernandes)
  
2º Sobre a poesia de Salomão Sousa:
“A análise da poesia de Salomão Sousa nos permite situá-lo não só no contexto brasiliense, mas nacional. Seu nome vem se firmando sem dificuldades, porque é signatário de uma poesia inovadora, sem as camisas de força estilísticas, arejada, original, portanto moderna. Moderna, sim, porque mantendo empatia com a contemporaneidade, e em meio ao cipoal das (in)tensas relações desse mundo de rápidas transformações, com seus escalonamentos de códigos, totens e valores, consegue  dar o pulo e amadurecer cada vez mais.” (A poética da consciência e do combate, por Ronaldo Cagiano)

TRÊS POEMAS DE ‘RUÍNAS AO SOL’:

Conhecemos dias de ira, de fogueira
de goiva nos músculos, de cão destravado
Mas sobra o vento novo sobre as orlas
Em Thule sobra o transe dos guerreiros
Sobram limões, palavras renovadas
Vêm galhos ornar lábios e janelas
Vão vê-los só quem busca por beleza
só quem pensa colheita, quem deseja
quem pensa fruto e desfrutar desejos
Vamos falar daqueles cogumelos
cresciam rente ao rego e às formigas
Já chegam outros oferecendo sol
Com seus lábios abertos e janelas

Muito existe, menos o país da ferrugem
      
              #        #

A Lua vigia a viagem
do mercador de lã
Há lamas nos caminhos
Tílias bravas dentro do inverno

Desarreia as mulas
que patearam a lua
no espelho das poças
E limpa os broches das arreatas

Depois de guardar as botas
o filho mostra o desenho:
a lua que vela
um mercador de lã

        #            #

Vamos fazer uma tempestade
com dia e hora marcados
uma dessas tempestades violentas
onde os corpos voam
seja andorinha ou ponte
se chocam se quebram
pés sobre as faces
mãos enfiadas nas nádegas
ou uma dessas tempestades lentas
onde não interessam as horas
os estandartes de Rilke
as águas em plenas invasões
nada que impeça o ar
de ir solto pelo mundo afora
os corpos arrastados sem cabeça