segunda-feira, 11 de julho de 2011

MESA DE BAR



Por Geraldo Lima


Tinha uma garrafa de cerveja entre mim e ele — fria, indiferente a tudo. Entre mim e ele, aquela garrafa com sua armadura de isopor. Devia restar ainda meia garrafa de cerveja entre os meus olhos e os dele. Talvez menos. Ou nada, provavelmente. Ele enchia e virava um copo após o outro, pouco se importando se eu estava bebendo ou não.

Estava ali para ampará-lo, para lhe dar razão, mas, quase sem querer, eu ia desviando a minha atenção para coisas fúteis, gravando imagens como esta: a pele do isopor era azul — um azul já meio desbotado, danificado por rabiscos e pequenas escavações — e alguém gravara ali o nome e uma data qualquer. Havia também um coração trespassado por uma flecha bastante rústica, e, dramatizando ainda mais a cena, duas gotas de sangue azul-claro pendiam paralelamente em busca do nada. Pensei numa mulher já meio grogue fazendo aquele desenho, inspirando-se não no cara sentado ao seu lado, cheio de planos, todo solícito, mas no outro que lhe arruinara a vida, o quase-cafetão que lhe enchera a cara de bolachas durante muitos anos. Que história mais louca poderia ser contada a partir daquele lugar-comum!

Mais uma vez ia desviando a minha atenção, fugindo do problema, da realidade ébria e deselegante. A imaginação ia aflorando, e eu podia ver, inclusive, uma mulher passando em frente ao bar e me pôr a contar todas as flores da sua blusa antes que desaparecesse do outro lado. Uma mulher com flores na blusa acabara de passar. Ela brotou do lado direito e, ao passar, deixou escorrer uma olhadela para dentro do bar. Essa olhadela veio até mim, significativa, mas, subitamente, como se tivesse se arrependido, a mulher a recolheu à penumbra dos olhos. Insisto. Agora ela vai passar em câmara lenta, como naquela propaganda de sabonete — uma constelação de lindas mulheres flutuando ao ritmo de uma música clássica —, e vai passando, leve, as flores desprendem-se da blusa, as pétalas, rebelando-se contra o cálice, dançam demoradamente antes de chegar ao chão. Sou tomado de intensa emoção diante dessa imagem. Sinto que estou trêmulo de tanta emoção.  A beleza pode nos arrastar até o inferno!  O olhar da mulher, demorando agora uma eternidade dentro do meu, queima a minha alma e, quando ela se afasta, já não reproduz o mesmo mover brusco de asas que fogem.

Essa minha fuga repentina queria apenas barrar o progresso de algum pensamento ruim que estivesse lá no fundo, cutucando as paredes do meu crânio, louco para vir à tona.  Eu estava era desejando uma parede bem espessa, intransponível. Como eu ansiava por uma espécie de Muro de Berlim se interpondo entre mim e ele naquele instante! Havia apenas a garrafa e a fragilidade do isopor. Suas palavras então alcançaram em cheio os meus ouvidos, e eu compreendi, de uma vez por todas, que já não era mais possível ignorar a realidade.

 Palavras: radiação atômica. Contaminado, entreguei-me ao amargo da sua voz, — Aquele desgraçado está transando com a minha mulher, você entendeu?,  ele havia jogado o corpo pra frente e quase cuspia na minha cara.  Como não poderia ter entendido, se aquela era a décima vez que ele repetia aquilo? Dava até a impressão de que ele estava querendo dizer que aquele desgraçado estava transando com a minha esposa também.

Meu Deus...

Enchi os copos. A espuma, no meu, subiu até escorrer pela borda, lenta, preguiçosa. Parecia alguém chorando. Alguém se derramando, jorrando de si. Ele levou o copo até a boca e, numa talagada só, tomou tudo. Bateu o copo na mesa. Ele então veio com o copo do alto e o bateu violentamente na mesa. Vi o copo descendo vertiginoso e, instintivamente, movi-me para trás. No instante mesmo em que o copo começou a descer, antevi a miríade de cacos. O copo, intacto, ali: um milagre. O meu ainda estava cheio. A espuma se assentara; havia, em todo o líquido, uma paz, uma placidez de lago. Mas os olhos dele suplicando um comentário, um conselho, palavras que dissipassem a névoa diante deles, — Eu sei que você já me disse, mas... você tem realmente certeza do que está me dizendo? Pode ser só fofoca... a Maiara me parece incapaz de...   — Eu vi! Porra, eu vi!

Senti um calafrio. Ficar sabendo por intermédio de terceiros é uma coisa; ver, presenciar, outra bem diferente: só o esboço dessa cena terrível (sua mulher nos braços de outro, e não importa se despida ou não, o efeito é o mesmo) provoca em minha garganta uma secura tal, que imagino que morrer se assemelha a isso. Só não consigo entender como Celso vira tudo aquilo e não reagira na hora.

Fugira?

Tapara os olhos?

Desmaiara? 

— O que você fez na hora, cara?

Ele virou o copo novamente, sôfrego, o copo vazio. Seus gestos, quase inconscientes, eram frouxos e punham em perigo a frágil existência do copo.  Eu não tinha para onde me mover — ou fugir.  Virei-me para o dono do bar e fiz o gesto com o dedo indicador, pedindo mais uma. Enchi os copos. — Eu tô arrasado... Se eu mato aquele desgraçado... tô cheio de razão, não tô? Indiquei-lhe o copo cheio, ele, no entanto, ficou com aquele olhar parado, líquido, cravado em mim, o corpo indo e vindo, vez e outra pendendo para os lados. Ia voltar carregado para casa: oitenta e cinco quilos nas minhas costas. E se eu ficasse bêbado também, trocando as pernas, é que a coisa ia ficar bonita. De repente os olhos dele se estancaram lá naquela rachadura que ia do pé da mesa até a parede. A rachadura serpenteava da parede até o pé da mesa. A rachadura era um aleijão indo do pé da mesa até os limites da parede. Da parede até o pé da mesa, aquele esboço de precipício... Ah, eu poderia ficar nessa brincadeira a tarde toda, nesse vai e volta sem fim. Mas o que ele realmente estava vendo ali? Uma cicatriz?  De modo que a rachadura estava lá, e os olhos dele também. Uma rachadura que ia do piso até os olhos, dos olhos ao coração, do coração ao nada...

Estávamos fugindo. 

Até então ele não tocara no copo de cerveja, e eu não quis interromper o seu repouso, a sua distração, e aquilo ficaria como desculpa por eu não mover nenhuma palavra de dentro de mim que fosse capaz de consolá-lo. Eu precisava dizer algo, mas o quê? E como dizê-lo? Sempre fui uma lástima nessa coisa de consolar amigos. Se eu chego a um velório, fico ali, em volta, me esquivando, rodeando sem saber como me aproximar dos parentes do falecido e lhes dirigir um “aceitem os meus pêsames”. Qualquer coisa que eu diga me parece extremamente idiota. Virei o último gole e, como não tinha nada mais importante a fazer, fiquei batendo com a quina do copo na mesa. Esse ruído trouxe o meu amigo de novo à tona. E com ele a comoção. O drama. O aperto na garganta.

— O que está me deixando mais desgraçado da vida é que um amigo... porque aquele miserável se dizia meu amigo... seu amigo também, tá me entendendo? Nosso amigo... um filho da puta daquele... abri a porta da minha casa pra ele... você também... é bom ficar esperto... e ele me faz uma desfeita dessas...

 — Onde foi que você viu os dois? Foi na sua casa? na rua? num...

 — Não importa onde foi, porra... Pra mim, mulher de amigo meu é homem, tô certo ou não tô? Confiamos nele, não confiamos? Então?

Daquele jeito eu realmente não poderia aconselhá-lo, se ele estava a todo instante querendo me fazer ver que eu também poderia estar em perigo, que a segurança do meu lar havia sido violada também pela ingratidão de um “amigo”. Ia lhe dizer para me deixar fora daquilo, que eu confiava na minha esposa. Ia dizer, mas não disse, pois me faltava a segurança, a firmeza, a certeza absoluta. Senti um aperto no coração, um princípio de vertigem: pensava no nosso “amigo” e via claramente nele a capacidade de seduzir até os mortos. Desde o princípio sabíamos disso, no entanto, ingenuamente, confiamos nele. E como geralmente estávamos longe de casa, tomando umas e outras... 

Como era possível a esposa de Celso, tão pacata, com seus olhos de anjo, dona de casa exemplar (eu seria capaz de pôr minha mão no fogo por ela), ter feito uma coisa daquela? Custava-me acreditar naquilo. A minha, mais fogosa (e a palavra “fogosa” aqui me causa arrepios), tinha sua vida apenas de casa para o trabalho, do trabalho para casa, a não ser que...

Era isto que eu temia: essas conjecturas, esse mover-se por entre espinhos, esse antecipar-se aos fatos. O veneno da desconfiança. Fraqueza e dor. Por onde o Davi andava naquele exato momento? Veio-me então a imagem destruidora: ele chegando à minha casa, tocando a campainha; enquanto aguarda que a minha esposa venha abrir a porta (o calhorda sabe direitinho que não estou em casa!), ajeita o cabelo, a gola da camisa e, assim que ela abre a porta, ele sorri — o mais lascivo dos sorrisos, dentes e desejo expostos —, e tudo fica claro, uma claridade que me cega, e, como um canal de TV que sai do ar, fica tudo chuviscando à minha frente. Não vejo mais nada. Não quero ver mais nada!

— É uma merda mesmo, cara! Então aquele filho da puta fez isso com você, Celso? Fez isso com um amigo... Então, imagine o que ele não é capaz de fazer com um inimigo, hein? Ergui os olhos para encontrar nos olhos dele a mesma chama de indignação, o mesmo lampejo de morte, mas deparei com o vazio. Ele se debruçara sobre a mesa. —Tá chorando, Celso?  Ergueu a cabeça bamba, o olhar embaçado, — Se eu matar aqueles dois, tô cheio de razão, não tô? Tanta coisa que eu poderia lhe dizer naquela hora, mas me faltava convicção, aquela mesma que, em outros tempos, não me deixaria vacilar ao dizer-lhe: — É uma questão de honra, né, cara? Ninguém vai te condenar por isso.  Mas não lhe disse nada, não valia a pena lhe dizer coisa alguma. Eu nem estava raciocinando direito.

 Silêncio incômodo. Vontade de sair correndo, voltar logo pra casa.  — Diz pelo menos que eu devo dar um tiro no meu ouvido... qualquer coisa, caralho!  Lembrei-me então de Capitu, de Ema Bovary, de uma prima que traíra o marido aparentemente sem motivo algum, por pura sacanagem.  Poderia lhe falar sobre aquilo, mas literatura naquele momento não encaixava muito bem. E em que a suposta sacanagem da minha prima poderia ajudá-lo?

De repente bateu-me uma moleza, uma melancolia meio besta, me senti fraco como Bentinho, um merda como Carlos Bovary, um sujeito sem atrativos como o ex-marido da minha prima, como todos os tipos bonzinhos, supercorretos — e frouxos. O Celso não ia sair daquela lengalenga, não ia ter coragem mesmo de dar tiro em ninguém.

— Nós somos uns bostas, Celso.

Ele ficou me olhando assim com aquele olhar bêbado, arrasado, não sei se concordando ou se indagando que diabos eu queria dizer com aquilo. O dono do bar desceu mais uma, indiferente ao que estava acontecendo. Quantas garrafas de cerveja nós já tínhamos tomado?  Se ele dissesse que eram trinta, teríamos como contestar? A minha memória estava prejudicada: o álcool e a angústia roubavam-me o equilíbrio e a lucidez. Tudo começava a ficar turvo à minha frente, e, até que eu tivesse certeza de alguma coisa, o dono do bar ia faturar um pouco mais. E para envenenar o ambiente, para insuflar mais ainda a dor e a vontade de beber, achou de colocar uma musiquinha doída pra tocar. Um homem, com o coração destroçado, reclamava do desamor da mulher amada. Vidinha fodida. Parecia até que o mundo todo era só ingratidão.

O certo é que a vida me parecia mais precária ainda naquele instante: um copo de vidro nas mãos de Celso, um isopor cheio de escoriações, um piso com feridas expostas, gangrenadas.
                                                       


Do livro de contos ainda inédito ‘A saga do nada’.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

O OLHAR POÉTICO DE AUGUSTO RODRIGUES SOBRE BRASÍLIA




Por Geraldo Lima

O poeta Augusto Rodrigues nasceu em Goiânia em 1974 e morou praticamente a vida toda no Campus II da UFG, em um bairro chamado Itatiaia. Sua família é da Cidade de Goiás – antiga capital do estado –, onde ele tem estudado a procissão do fogaréu há três anos. Hoje mora em Brasília e tornou-se Professor Adjunto de Literatura Brasileira da Universidade de Brasília. Sua vida continua, dessa forma, ligada ao campus universitário. Considera-se um poeta goiano-brasiliense, como José Godoy Garcia, de quem sofreu influência decisiva: “o poeta que ilumina a minha forma e minha sonoridade e até mesmo o trato com as imagens...durante muito tempo foi Drummond, Bandeira e Murilo Mendes... hoje estou mais pro ZéGarcia e pro João Cabral...”, confessa.

O goiano-brasiliense Augusto Rodrigues conheceu a Capital da República ainda na infância, quando ia visitar a madrinha em Formosa. Na adolescência, andou por aqui com movimentos estudantis (sempre na condição de poeta) e para assistir a shows da Legião Urbana. Desde então, ele encantou-se de fato pela Capital da República. Foi seduzido pela modernidade de sua arquitetura e de seu plano urbanístico. Como o poeta Nicolas Behr (ressalvadas as devidas diferenças de estilo e tom), elegeu Brasília como tema. Em Onde as ruas não têm nome (Thesaurus Editora, 2010; Prêmio Fernando Mendes Vianna, ANE), segundo livro do poeta e professor da UNB, essa relação de encantamento com a paisagem brasiliense se aprofunda: “esta noite sonhei que voava/era deserto/era brasília/era concreto concreta construção/voava baixo nesta noite/prédios baixos/céu alto autos/o cerrado cerrado na escuridão/alto e plano da noite arquitetei/era  poema/era poesia/reinvenção/pleno no plano da noite veloz/era eu a cidade/era eu uma vez/imensidão” (concreto deserto decerto).

Já no livro de estreia, Nyemar (Editora Vieira, 2008), Augusto Rodrigues mergulha nos labirintos arquitetônicos e urbanísticos de Brasília. A sua poesia busca os primórdios da cidade, a gênese do seu corpo, as formas que brotaram da prancheta de Niemeyer e Lúcio Costa: “era asa estava/na asa da ave/aérea aeronave/luz escuridão/as asas no chão/as asas no ar/casa de borboleta/estrelas balão/era noite capital/no alto era o ar/no chão as asas/indicavam a direção” (Alas aéreas). Nesse livro, o seu lirismo não abarca ainda o homem que haveria de habitar Brasília ou nela labutar.

O que acontece agora, nesse seu segundo livro, é que a cidade se povoa. O poeta enxerga os seus habitantes ou os que nela labutam. O seu lirismo torna-se mais intenso que no livro de estreia: “Nos olhos d’água mora um homem/do lado de fora/dos olhos d’água/ele mora nos olhos dos homens/ele fala sozinho/ele bebe sozinho/ele dorme sozinho/paratodos/quando sonha seus amigos chegam/um a um – chapéus e chaplins/amigos preenchem o vazio de ser/nos olhos do mundo mora um homem/do lado de fora/da humanidade/ele dorme nos olhos dos homens” (sem temer o chapéu dos olhos).  “primeira manhã de março/uma vontade de caminhar no eixo/uma vontade de comprar jornal na banca/uma vontade de nadar naságuas minerais do fim do mundo” (primeira manhã de março).

 O que se deve observar, no entanto, é que Augusto Rodrigues continua fiel ao seu projeto de desvelar a Capital da República, seja para si mesmo, seja para os leitores. É um projeto poético que tem início, meio e fim. Começa com Nyemar, passa por esse Onde as ruas não têm nome e culmina no A Cidade de poeira, livro ainda no prelo. Vale a pena acompanhar a trajetória poética desse goiano que adotou Brasília de corpo, alma e poesia.


Título: Onde as ruas não têm nome
Autor: Augusto Rodrigues
101 páginas
Editora: Thesaurus Editora
ISBN:978-85-7062-953-1
Preço: R$ 25,00

domingo, 19 de junho de 2011

MINHAS ENTREVISTAS

 
Entrevista publicada no blog Na Ponta dos Lápis.

Como terceiro entrevistado na campanha de apoio aos novos autores, trago ao blog Geraldo Lima, autor do romance UM (que participa do excelente site literário O Bule e também tem um blog pessoal). Trata-se de um autor não tão novo assim, uma vez que já teve alguns outros livros publicados, incluindo um de contos, O Baque, pela LGE (sua editora atual). Ainda assim, é um novo escritor que se coloca no mercado e busca seu espaço. O romance em questão me chamou muita atenção; primeiro pela profundidade da história e da personagem principal e, segundo, pela grande habilidade narrativa demonstrada pelo autor. O trabalho com a linguagem em UM é realmente atrativo e, algumas vezes, mistura um pouco de prosa com características da poesia. 
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Entrevista publicada na Revista Capitu.

'Vocês certamente conhecem o pensamento de Pascal segundo o qual o homem vive entre o abismo do infinitamente grande e o abismo do infinitamente pequeno', diz, a certa altura de O Livro do Riso e do Esquecimento, o escritor tcheco Milan Kundera. O intervalo entre essas duas variedades de infinito parece ser o espaço que habita o protagonista de Um, obra do escritor goiano Geraldo Lima. No livro, acompanhamos o fluxo de lembrança, sensação, sentimento e especulação desse personagem, que parece abrir mão do cotidiano e persistir na busca do imenso.
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Entrevista publicada na Revista Diversos Afins.

A obra do escritor goiano Geraldo Lima incita-nos a refletir sobre muito do que foi dito anteriormente. Dono de uma escrita que sabe varrer de modo denso recantos da alma humana, Geraldo é, sem sombra de dúvida, um representante de peso da nova geração de contistas brasileiros. Seu estilo narrativo flui intensamente à medida que a epifania particular de seus personagens deixa marcado o cerne central de suas sinas, qual seja a não coagulação dos instantes vividos. Aos poucos, homens e seus lugares são retratados como se orquestrassem propositalmente um mosaico complexo de signos a serem desvendados.

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Entrevista ao Programa Leituras, da TV Senado.

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sábado, 4 de junho de 2011

UM MINICONTO DO LIVRO TESSELÁRIO.


        
XI. Vômito. 

Por Geraldo Lima
 
Situação mais ridícula aquela: o Sol prestes a desabrochar, o dia acordando,  laborioso, responsável, e ele, ali, de quatro junto ao vaso, a cara quase lá dentro, o azedume recendendo, sobressaindo-se ao odor agradável do desodorizador, comida estragada, carne, vinagrete, arroz, feijão tropeiro, e a cerveja e a vodka fermentando tudo, ácido, e acordara de madrugada com um deserto na garganta, quase um litro d’água ingerido, e o Saara  resistindo, até o estômago começar a se mover de dentro de si mesmo, subindo, vindo à tona  pelo cano da garganta, um bolo inchando, impossível retê-lo mais, por fim o jorro, duas, três... setes vezes, como se não fosse sobrar mais nada dentro dele, esvaziando-se na marra, contraindo-se num parto de alto risco, via oral, e suando frio, o tal friozinho da morte, e mais um jorro, e outro mais, manhãzinha quase, um dia começando já estragado, uma broca na cabeça, perfurando, lembrar-se nessa hora dos zelos da mãe, o chá de boldo preparado por ela, melhor ainda os conselhos dados ali no banheiro mesmo, pensar no futuro, não estragar a vida com esses vícios, a mãe orando baixinho, Deus Pai Todo poderoso, dava até pra sentir-lhe  a  mão sobre a cabeça, terna, milagrosa; lembrar-se do irmão nessa hora, desejando tanto que ele o encontrasse ali, junto à parede, definhando, sem forças até para suportar as contrações estomacais, e o carregasse até o chuveiro, resmungando, é bom que se diga, mas zeloso também, sempre sóbrio, correto; lembrar-se também da esposa que nem existia ainda, mas que, se Deus quisesse, estaria por aí nalgum lugar, ela que por certo viria ficar ao lado dele, amparando-o junto ao vaso, uma companheira de verdade, na alegria e na tristeza, tão perfeita que talvez nem existisse, daí a solidão, o vazio, e ele  suando frio junto à parede, achando o vaso tão distante agora, a felicidade então nem se fala, não restava mais nada dentro dele, a não ser  a sensação de que ficaria ali para sempre, colado aos azulejos, à espera  apenas da morte ou de um milagre qualquer.


O Tesselário foi publicado pelo Selo 3 x 4, da Editora Multifoco, e pode ser adquirido, por enquanto, em http://www.editoramultifoco.com.br ou http://www.editoramultifoco.com.br/tresporquatro/