sexta-feira, 21 de agosto de 2020

A live

 

 Por Geraldo Lima

 

Do nada, decidiu fazer uma live.

Pensou em convidar os amigos [os das redes sociais, os do chope no boteco] e os parentes mais próximos para o evento? Que nada! Não postou cartaz no Instagram nem no Facebook, tampouco o mandou no direct ou no inbox. Não convidou ninguém pelo WhatsApp, embora tivesse um número bastante expressivo de pessoas na sua lista de contatos.

Nada, nada, nada. Simplesmente decidiu e, na mesma hora, apareceu no Instagram diante de uma multidão de usuários da rede cegos para a sua figura anônima.

Andrezinho acabara de entrar, para verificar quantas pessoas haviam visto e curtido o seu post de uma selfie que fizera à noite, só de pijama, quando deu de cara com a live do Jorjão. Na verdade, deu de cara com sua cara redonda aparentemente travada numa expressão que não denotava a que viera. Jorjão nem piscava. Os lábios grossos pareciam grudados com cola. A respiração parecia bem controlada, como se não entrasse nem saísse ar pelas narinas. Nem o aviso de que o amigo acabara de entrar mudou a fria expressão do seu rosto. Nem o segundo aviso de que outra pessoa havia entrado, a usuária laura_2233, alterou sua fisionomia fechada.

Que merda é essa?!, Andrezinho se perguntava. Então o cara ia fazer uma live [era uma live aquilo, não era?] e nem o havia convidado? Grande amigo, hein? Já meio puto, tanto com a falta de ação do outro quanto com o fato de ele não o ter avisado, resolveu lhe perguntar do que se tratava aquilo. Mas a mulher que havia entrado há pouco, talvez mais ansiosa que ele, perguntou primeiro.

Jorjão respondeu? Que nada! Continuava exibindo, impávido, a mesma cara negra travada num frame que não seguia adiante nem a pau.

 A essa altura, mais oito pessoas haviam entrado, o que já era um bom público para uma live sobre a qual ninguém ficara sabendo. Mas Jorjão continuava na dele, imutável. Há cinco minutos se encontrava assim, enquanto todos esperavam pelo início da live [se é que já não havia começado de fato]. O que levaria alguém sem status algum de celebridade ou subcelebridade, de artista famoso e de relevante importância para a cultura nacional, ainda mais em meio a uma quantidade absurda de lives pipocando todos os dias no Instagram, no Facebook, no YouTube, na TV, todas na busca frenética por audiência durante a pandemia de Covid-19, o que levaria alguém nessas condições a se lançar numa live-surpresa e permanecer assim, imóvel e enigmático como numa performance? Nesse ponto Andrezinho se lembrou das performances da sérvia Marina Abramovic.

É uma performance, Jorjão?

Nenhuma palavra, nenhum gesto, nada, nada. Só o olhar penetrante do amigo atravessando a tela do celular e batendo direto no olhar dos espectadores virtuais.

A mulher, a laura_2233, vazara há tempos. Restavam ainda nove curiosos, gente com tempo de sobra e muita paciência para ficar ali, tentando decifrar a cara negra e intransponível do Jorjão. A cara-performance do Jorjão.  Alguém entrou, deu uma espiada rápida e saiu. Mais dois aproveitaram a deixa e caíram fora. Jorjão parecia não se incomodar com esse entra e sai.  Uma amiga em comum dos dois entrou, ficou um pouco, clicou no emoticon de mãos batendo palmas, e foi-se também. Mais um saiu; antes, porém, escreveu: Que porra é isso?! Um minuto depois, restavam Andrezinho e um persistente aldodasilva3. Andrezinho estava doido pra se mandar, já não aguentava mais aquilo, mas a curiosidade batia mais forte: queria saber aonde Jorjão pretendia chegar com aquela esquisitice.  Se aquela imagem estática tinha algum significado, seria no campo da criação artística, da provocação estética. Mas até onde sabia, ele não tinha veia artística alguma. Sabia, sim, que gostava de tirar sarro com a cara dos outros, era um gozador nato, e talvez fosse essa a sua intenção agora. Mas poderia ser também um protesto: dia desses ele havia sido vítima de racismo, coisa que ele não gostava de comentar, mas que o tinha magoado muito. Vai ver era isso.

Ou não.

Na real, Jorjão havia virado estátua viva no Instagram, – e agora só restava Andrezinho contemplando sua imobilidade. 

Mais tarde, assim que ligasse para ele, Andrezinho ia querer saber que presepada tinha sido aquela. Mas ia tirar mesmo um sarro da cara dele só quando passasse a pandemia do Coronavírus e os dois pudessem tomar de novo um chope juntos. Até lá, máscara na cara e nada de aglomeração, que “o seguro morreu de velho”. 

Antes de sair, assim meio sem jeito de deixar o amigo ali, sozinho, escreveu e publicou, Valeu, Jorjão! Em seguida, clicou no emoticon das mãos batendo palmas, – e mandou logo uns vinte, no exagero mesmo, só pra zoar o performer.       


sábado, 18 de julho de 2020

Um crime e as feridas do nosso passado histórico



Por Geraldo Lima

O romance policial e o romance histórico sempre foram alvo do desprezo da crítica e da academia, apesar do enorme sucesso que sempre alcançaram junto ao público. Desde Edgar Allan Poe, pai da narrativa policial, e de Sir Walter Scott, tido como o criador do romance histórico, esses gêneros ficcionais têm se mantido de pé, e parece que vão continuar assim, visto que o número de autores e autoras que se dedicam a eles só tem crescido, fora e dentro do nosso país.

Agora, quando falamos do romance histórico-policial, temos uma outra realidade, porque aí a operação de construir uma estrutura narrativa que une os dois estilos, o policial e o histórico, torna-se mais complexa e arriscada.  No caso desse gênero literário, a estrutura narrativa apresenta uma trama policial, ligada, geralmente, à investigação de um crime, e, também, um registro histórico, juntando personagens reais e fictícios. Costurar essas duas realidades calcadas na imaginação e no fato histórico, num ritmo que prenda a atenção do leitor, é que demanda do escritor ou da escritora uma habilidade extra. A jornalista e escritora Eliana Alves Cruz encarou o desafio e trouxe a público o seu romance O crime do Cais do Valongo [Editora Malê, 2018], fruto de exaustiva pesquisa histórica e força imaginativa.

O crime do Cais do Valongo é um romance histórico-policial, já que sua narrativa parte da investigação de um crime e se soma às informações históricas referentes ao contexto em que ele se dá. O crime, no caso, refere-se ao assassinato do rico comerciante Bernardo Lourenço Viana, noticiado na Gazeta do Rio de Janeiro à época. Já o registro histórico apresenta o Rio de Janeiro da primeira metade do século XIX, com a Família Real já residindo no Brasil, e, de maneira mais minuciosa, os arredores do Cais do Valongo, local de desembarque de africanos escravizados e onde se dá a morte do comerciante Bernardo Lourenço.

Porém, uma outra narrativa, de caráter mais subjetivo, se instaura a partir das memórias da africana escravizada Muana Lómuè, protagonista, juntamente com o mestiço Nuno Alcântara Moutinho, da história escrita por Eliana Alves. Essa narrativa abarca desde sua vida na aldeia natal, em Moçambique, junto à sua família, até sua chegada ao Cais do Valongo, num tumbeiro, e sua posterior destinação à casa do comerciante Bernardo Lourenço.  Essa narrativa, resultante do relato de Muana ao inglês Mr. Toole, que se diz contrário à escravidão, aproxima o leitor da cultura africana, com seus mitos e sua diversidade étnica, e, também, da triste realidade do processo de escravização do povo africano, do qual a protagonista não escapa.

Essa proximidade com os aspectos íntimos da personagem Muana, o seu encantamento com o mundo ao redor, com a sua cultura, o seu despertar para o amor etc.,  fará com que a destruição dos laços afetivos e culturais que sustentam a sua existência nos deixe profundamente impactados. Daí nos encantarmos com a figura feminina forte, resiliente, que não só sobrevive à tragédia que abate sobre seu povo, como vai se fortalecer intelectualmente e aprender a driblar os limites que a sua condição de escravizada lhe impõe.  “Na Gazeta Rio de Janeiro, o Justino estendia sua mão para receber o papel, mas não conseguia decifrar nada do que estava escrito nele e pensava que eu era sem letras como ele e quase todos os outros. Muito senhor também não sabia. Mais um motivo para esconder muito bem escondido meu segredo...” [pág. 23]. Muana vai utilizar seu domínio da leitura para se antecipar, inclusive, aos fatos, mostrando o quanto o conhecimento das letras pode ser uma arma poderosa: “O Nathaniel, coitado, quase foi parar nos infernos, se eu não entendesse o que o senhor escrevia” [pág. 19].  Além disso, ela detém um poder que a alça acima da maioria dos mortais: fala com os mortos, com o espírito dos ancestrais. E esse é um outro detalhe importante nesse romance de Eliana: a sua narrativa mescla, com sucesso, o olhar focado no elemento histórico, fidedigno, e os voos da imaginação atrelada ao mistério e ao fantástico com raízes fincadas no universo mítico-religioso da cultura africana.

A história é toda narrada em primeira pessoa: por Nuno Alcântara Moutinho, que conta sobre a investigação do crime cometido nas proximidades do Cais do Valongo, onde reside e pretende abrir um negócio, e por Muana Lómuè, que relata sobre os fatos envolvendo o cotidiano na residência do comerciante assassinado e a trajetória dela da África até o Brasil. Esses relatos de Muana, além de nos fornecerem uma imagem potente da África e de seus ancestrais, servirão também para nos esclarecer sobre a autoria do assassinato do seu senhor. É através do seu olhar afiado que teremos uma visão mais crítica sobre as condições de sobrevivência dos negros escravizados. Nuno Moutinho, que não é propriamente um detetive, mas faz bem o tipo do detetive de romance noir [beberrão, namorador e afeito a encrencas várias], por sua condição de mestiço, mulato, tem um trânsito mais livre naquele contexto social, daí poder nos apresentar, de modo até irônico, uma imagem mais direta das relações de poder que sustentavam a sociedade brasileira naquele momento histórico.

E sobre o ritmo da narrativa, que salta da investigação sobre o crime para os relatos de Muana? Talvez, para o leitor mais afeito à questão policialesca, essa quebra, que às vezes se estende um pouco mais no rememorar da africana, possa ser um problema, aborrecendo-o. Mas, atendo-se às intenções da autora, de nos oferecer um retrato mais amplo sobre a protagonista e a história do seu povo, ao trazer até nós um pouco da história e da cultura africana, é possível seguir a leitura, aguardando, para cada início de capítulo, a retomada do processo de investigação feito pelo Intendente-Geral da Polícia e acompanhado de perto por Nuno Moutinho. E olha que a autora guarda, aqui, uma surpresa sobre a autoria desse crime!

O crime do cais do Valongo é, portanto, leitura imprescindível para nos aproximar, através da imaginação estética e da pesquisa histórica, de parte do nosso passado, ao mesmo tempo em que amplia o leque da produção literária levada a cabo pelos autores e pelas autoras negras deste país tão excludente.


[Resenha publicada, originalmente, no JORNAL OPÇÃO]

terça-feira, 26 de maio de 2020

História de uma amor que fere e traumatiza





Por Geraldo Lima 


Todos nós estamos sujeitos a cair na lábia de algum espertalhão ou estelionatário, resultando, comumente, em prejuízo financeiro. Desde que o mundo é mundo, sempre houve aqueles propensos a tirar vantagens por meio da fraude. Está lá, no Antigo Testamento, Livro do Gênesis, capítulo 27: Jacó engana seu pai Isaque, ao se passar pelo irmão Esaú, com o intuito de receber a bênção que estava reservada a este. Mas há uma modalidade de fraude ou estelionato que envolve, principalmente, o desgaste emocional. É o que se dá numa relação amorosa em que uma das partes se entrega cegamente aos caprichos da outra.Nesse caso, a vítima[com mais frequência mulheres] perde o que tem de mais valioso: sua autoestima. Nesse tipo de golpe, além da perda financeira, sofre-se dolorosamente com o trauma emocional. O indivíduo que submete outras pessoas a esse tipo de situação é o que, tecnicamente, chamamos de psicopata, alguém cujo grau de empatia é praticamente zero. Alguém que seduz, tira vantagens e depois abandona sem remorso algum. No romance de Rosângela Vieira Rocha, Nenhum espelho reflete seu rosto [Editora Arribaçã, 2019, 263 páginas], temos esse tipo de situação traumatizante narrada pela protagonista Helen, uma mulher em ascensão profissional no mundo da joalheria que, apesar da sua maturidade e lucidez, vê-se envolvida numa relação claramente abusiva. 

Rosângela disse em entrevista que, para compor essa história, ouviu o relato de várias mulheres que se envolveram amorosamente com o tipo de homem abusador, narcisista, enfim, psicopata. Leu bastante sobre o assunto, sempre buscando dar consistência às informações apresentadas ao longo da narrativa. É a partir, então, do acontecido com outras pessoas e do que há de estudo sobre os casos de psicopatia que ela compõe o retrato, tanto do vilão [creio que podemos chamar assim o sedutor, narcisista e misterioso Ivan Hernández] quanto da narradora protagonista do seu romance, a empresária Helen, também ourives e designer de joias.Procura-se, assim, tanto a justeza dos fatos narrados quanto da composição psicológica dos personagens. A fantasia, nesse caso, cede espaço ao realismo. 

Os capítulos alternam-se entre os que tratam da formação profissional da protagonista, como ourives, do dia a dia na joalheria, e os que se apresentam na forma de relato pessoal,enviado por Helen, através de e-mails, ao médico psiquiatra e psicanalista que lhe solicita ajuda, o Dr. Jorge Campos. A ideia é que a história vivida por ela possa ajudá-lo no tratamento de uma paciente que se envolveu também com o mesmo homem com o qual ela se relacionou há dois anos, o argentino Ivan Hernández. Nesta parte, do relato pessoal, o nível de tensão, de suspense e de expectativa apresenta-se muito mais carregado do que nos capítulos que tratam do cotidiano na joalheria.Temos, nesse segmento narrativo, uma trama empolgante,um conflito: lá estão o vilão Ivan, a protagonista Helen e o desenrolar tenso da relação abusiva entre eles. 

Ainda que parte da narrativa dê-se de modo diverso dessa do relato pessoal, podemos dizer que esse romance de Rosângela se enquadra [ah, nossa mania de enquadrar tudo!]num gênero que teve seu auge no século XVIII, o chamado romance epistolar, mas que, modernamente, continuou a ser praticado por grandes escritores, como Lúcio Cardoso (Crônica da casa assassinada), Alice Walker (A cor púrpura) e Amos Oz (A caixa preta). Em Nenhum espelho reflete seu rosto, no lugar de cartas e bilhetes, usados em outros tempos, temos o moderno e ágil recurso do e-mail. Embora Helen se recuse a travar um diálogo com o Dr. Jorge Campos, nos moldes de uma análise,a escrita desses e-mails serve como meio de ela se curar, de purgar o passado sombrio e se livrar, de uma vez por todas, dos sentimentos em relação a Ivan que ainda a assombram. 

O universo da joalheria e da ourivesaria nos é apresentado de modo preciso e apaixonado nesse romance da mineira radicada em Brasília Rosângela Vieira Rocha, indo da seleção das pedras preciosas à lapidação das mesmas. Aos olhos da ourives e designer Helen[que herdou do pai a paixão pela joalheria e, da mãe, o hábito de ler e escrever], essa atividade artesanal insere-se no contexto da arte, da busca da beleza pelo apuro técnico e criativo. “A joalheria é mesmo uma profissão de sonho. Em que outro ofício eu poderia sentir essa plenitude, essa alegria por criar a beleza? Sim, existem outros tipos de beleza, mas nada que se compare à dessa arte milenar.” [pág. 175] É esse estado de entrega total à sua criação que nos desperta empatia em relação à protagonista, que, de outra maneira, poderia se constituir em um ser vazio, superficial, ligado apenas a um mundo de luxo e ostentação.Helen é inspirada e generosa, aberta ao encantamento e ao amor, e essas são características que vão, infelizmente, facilitar sua sedução por parte do narcisista Ivan.E a experiência será traumática: “Dolorida e contraditoriamente fortalecida, nunca mais fui a mesma. Ninguém sai incólume do convívio com um perverso, a subespécie humana mais letal que existe”. [pág. 263] Seguir o seu doloroso relato, que se dá ainda num ato de extrema vontade de ajudar o outro, é algo que nos humaniza e alerta para os constantes perigos que nos rondam. Sem complicações narrativas, com linguagem enxuta e direta, Rosângela nos convida a mergulhar na terrível história vivida por Helen, que é, em suma, a história de frustração e dor vivida por milhares de mulheres mundo afora. É, de certo modo, uma história de superação e compartilhamento dessa superação. Uma história que nos ilumina e nos inspira a continuar vivendo apesar do mal que teima em nos abater.

[Resenha publicada, originalmente, no .JORNAL OPÇÃO]

terça-feira, 12 de maio de 2020

quarta-feira, 25 de março de 2020

Uma narrativa que nos arrasta para junto do personagem



 Por Geraldo Lima

O tema do retorno à casa paterna, ou ao antigo lar, perpassa a história da literatura desde os seus primórdios. Começa na Odisseia, poema épico de Homero, com o herói grego Odisseu retornando [ou tentando retornar] ao seu lar em Ítaca, após dez anos de guerra contra os troianos. Séculos depois, aparece no livro sagrado dos cristãos, mais especificamente no Evangelho de Lucas, na Parábola do Filho Pródigo [Lucas 15:12-32]; depois, em nossa era, já na moderna literatura brasileira, é tema tratado com vertiginoso lirismo no romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, e, com realismo cravado de sarcasmo, no romance Allegro ma non tropo, da escritora brasiliense Paulliny Tort. Agora, apresenta-se como a espinha dorsal que sustenta os dois eixos temporais, presente e passado, no belo romance de estreia de Carlos Eduardo Pereira, Enquanto os dentes [Todavia, 2017, 93 páginas], que, para coroar o seu êxito, já é semifinalista do Prêmio Oceanos 2018 e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria melhor livro do ano de romance – autor estreante com mais de 40 anos.

Para efeito de comparação, ou de contraponto a outras obras de abordagem temática semelhante ao romance de Carlos Eduardo Pereira, fiquemos, a princípio, com a Parábola do Filho Pródigo e com o romance Lavoura arcaica, obras que tratam, ainda que de modo diferente, sobre o retorno do filho à casa paterna.

No texto do evangelista Lucas, o filho decide, por si mesmo, retornar à casa dos pais após dissipar todo o dinheiro que lhe foi dado assim que partiu para viver a vida ao seu modo e sem regramento. Retorna, portanto, falido e em busca do perdão paterno. Por um lance de sorte ou por ação divina, é recebido com festa pelos pais, ainda que contrariando o primogênito, que ficara e labutara ao lado do pai o tempo todo. Já no livro de Raduan Nassar, o filho fujão, assim André é mencionado, retorna à casa dos pais sob a guarda do irmão mais velho, Pedro, que cumpria o dever de levá-lo de volta. Não retorna, portanto, de livre e espontânea vontade. Não traz, também, nenhum sinal de conquista material resultante dessa fuga e desse enfrentamento do mundo fora dos domínios da casa comandada pela severa disciplina religiosa do pai. Se fugiu para se livrar do que o atormentava, o desejo reprimido pela irmã, retorna ainda mais tomado por ele e em completa possessão. No texto bíblico, o filho pródigo encontra acolhida e compreensão por parte dos pais; no romance de Raduan, o retorno de André será marcado pelo confronto ao poder conservador do patriarca e pela tragédia que atinge a família. No romance Enquanto os dentes, o protagonista Antônio, que havia deixado a casa dos pais há 20 anos, logo após abandonar a Escola Nacional da Armada, para onde fora mandado com o objetivo de se formar oficial da Marinha, retorna completamente falido financeiramente, limitado no seu poder de locomoção e sem a certeza de que irá encontrar uma acolhida favorável, já que terá diante de si a figura conservadora e autoritária do pai militar. Da mãe, religiosa, resignada e obediente às vontades do marido, pode-se esperar ainda algum afeto e boa acolhida, mas nada está garantido claramente. Nesse sentido, ainda que apresente um angustiante final em aberto, é com o romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, que o seu livro guarda maior parentesco quanto ao destino do protagonista, que, para desgosto do pai, é homossexual e artista.

A TEMÁTICA E SUA ABRANGÊNCIA

Obviamente que o romance Enquanto os dentes não aborda apenas o tema do retorno do filho pródigo à casa paterna. Esse é só consequência do estado físico limitado e da debilidade financeira em que o protagonista se encontra. Outros temas de suma importância estão presentes, entre eles a questão da homossexualidade, da construção de uma identidade individual, da mobilidade urbana para pessoas deficientes, o uso da memória como fio condutor da narrativa etc.

Essa homossexualidade, que Antônio procura não demonstrar ostensivamente, se manifestou desde cedo, o que lhe criava problemas com o pai conservador, como da vez em que, tentando reproduzir, junto a um grupo de garotos na rua, o modo entusiasmado com que o pai falava do piloto Nelson Piquet, “aquele, sim, que era um macho de verdade. Brigão, mulherengo e bom piloto” [pág. 13], acaba se excedendo nos trejeitos e virando motivo de chacota de todos ali. [Talvez por isso, na vida adulta, tenha se tornado reservado e discreto, tanto no modo de se vestir quanto no de portar-se.] Além de ser castigado fisicamente pelo pai, como dessa vez, passa a ser também motivo de desgosto para ele. “Lembra da cara do Comandante, incapaz de disfarçar o desgosto pelo filho que não se virava muito bem com aquelas questões” [pág. 33]. Aí se referindo ao universo da navegação e da sua relação problemática com o mar, logo ele que, segundo os desejos do pai, devia servir à Marinha brasileira.  No ambiente da Escola da Armada, como era de se prever, ele também se sentirá oprimido e será motivo de piada em relação à sua sexualidade e ao seu modo de ser. “Ele era um cara educado demais...” [pág. 51]. Só quando abandona esses dois ambientes, a casa dos pais e a Escola, é que se sentirá livre de fato e poderá dar vazão à sua verdadeira personalidade, que terá na arte um meio de expressão.

A sua identidade individual se forjou nesses ambientes hostis, que o obrigaram a criar estratégias de sobrevivência, ora se mostrando dócil e fraco, ora rebelde e forte. Se parece ser um cara correto, amigável, hospitaleiro, houve momento, no entanto, em que foi capaz de dedurar um companheiro de Escola por pura vingança, por ele lhe ter causado uma punição. “Menos por ter ficado na Escola impedido e mais por um desejo de se vingar, na semana seguinte, na capela, acabou contando em confissão ao padre do fundo falso no armário onde Nascimento vez ou outra escondia uns papelotes de cocaína trazidos para ele, com certa frequência, por um terceiro sargento lotado no paiol” [pág. 63]. O ser reservado, contido, também o manterá fora do olhar vigilante e condenador dos outros. De certo modo, parece não estar no mundo para levantar bandeiras, sejam de que natureza for. 

No momento em que a narrativa se inicia, Antônio já está na rua, seguindo em direção ao terminal das barcas. É a partir desse ponto que vamos segui-lo em sua trajetória até se aproximar da casa dos pais. Essa chegada, aliás, vai sendo protelada por ele, ao tomar pequenos desvios e ao demorar em alguns lugares. Assim, percebemos o quanto é difícil e angustiante para ele empreender essa jornada. Nesse percurso, que é narrado no presente e dura apenas algumas horas de uma sexta-feira, ele encontra pequenos obstáculos que dificultam sua locomoção, os quais ele vence sozinho ou com a ajuda de terceiros. Sem fazer disso um dramalhão, o autor vai expondo as dificuldades por que passam os cadeirantes, assim como mostra, também, o que já há de acessibilidade nas ruas. De modo muito sutil, o livro funciona como um manual de como lidar com pessoas em situação de cadeirante, evitando tomá-las por incapazes de se virarem sozinhas. Nesse trajeto, Antônio encontra alguns antigos conhecidos, que, juntamente com o narrador, têm a função de nos revelar passagens da sua vida, na infância ou na Escola, ligadas à sua homossexualidade. É aí que vemos o quanto de pressão ele sofreu enquanto esteve nesses ambientes marcados pela disciplina severa e o conservadorismo. Essa sua pequena odisseia, ainda que sem os grandes incidentes da homérica, mostra-se grandiosa pelo esforço empreendido por ele, tanto para se deslocar no espaço físico, nem sempre adequado para a sua condição de deficiente, quanto no de manter-se equilibrado psicologicamente, embora a situação lhe seja desfavorável.

É do entrelaçar de passado e presente, do buscar na memória elementos que nos permitem enxergar o personagem em sua inteireza, ainda que de modo gradativo, que se compõe a estrutura do romance de Carlos Eduardo Pereira. Enquanto Antônio se desloca no presente, em sua cadeira de rodas, o passado vai sendo recuperado aos poucos, ora dividindo espaço com o presente num mesmo parágrafo, ora compondo sozinho um parágrafo ou mais. O narrador onisciente nos dá conta, nesse ir e vir, do presente ao passado, dos aspectos que formaram ou deformaram a personalidade do protagonista.

SUTILEZAS ADOTADAS PELO AUTOR NA COMPOSIÇÃO DO TEXTO

Carlos Eduardo Pereira, nesse seu livro de estreia, dá mostras de ser já autor veterano, tal a habilidade com que tece a narrativa, costurando passado e presente, num enredo não-linear, sem, no entanto, torná-lo confuso. O narrador em 3ª pessoa, que parece estar colado ao personagem como se fosse alguém que empurrasse a sua cadeira de rodas, é também um achado. Ele nos faz estar ali também, seguindo Antônio de perto no seu retorno à casa dos pais. “Antônio sempre achou esta praça interessante” (pág. 6), diz o narrador a certa altura, como se a apontasse com o dedo.  Um elemento que poderia deixar o texto chato e pesado [as minuciosas descrições de espaços e objetos, como a do terminal das barcas e a da cadeira de rodas] é desenvolvido com leveza e agilidade, sem travar o escoar das ações.  Mas, em contraponto a isso, temos, em relação à caracterização do protagonista, e de outros personagens, uma outra estratégia, ou seja, a da apresentação indireta do personagem.  Assim, sabemos bastante e de uma vez só sobre como funciona o terminal das barcas, como é constituída a barca, sobre a engrenagem da cadeira de rodas importada da Alemanha, mas muito pouco sobre Antônio assim logo de início. O autor dilui, ao longo da narrativa, as informações que compõem o caráter, os aspectos físicos e psicológicos do protagonista. Desse modo, só aos poucos vamos tendo acesso aos elementos de caracterização que nos permitem montar integralmente a sua figura. Só vamos saber, por exemplo, da cor da pele de Antônio na página 39: “... e Antônio tecnicamente é mulato, já que o Comandante é branco e a mãe é preta”. [A questão racial, como poderia parecer aqui, não será tema desenvolvido pelo autor. O personagem não vivencia, em relação a esse aspecto, nenhum caso de discriminação.]  Da homossexualidade de Antônio vamos nos inteirando aos poucos também, ainda que o narrador vá deixando pistas que apontam para essa orientação sexual. Ou seja, não é dito ao leitor, logo de início, que o protagonista é homossexual, que teve esse ou aquele caso. O leitor vai pegando cada uma dessas informações e vai montando a história e o retrato do personagem. Isso obriga-o a manter uma atenção maior caso queira, de fato, ter uma ideia precisa sobre a natureza dos personagens. 

Enquanto os dentes é romance de narrativa fluida, sem excessos, que nos cativa desde o início, não nos permitindo abandonar o personagem enquanto ele retorna fracassado para o antigo lar. É essa história de tentativa de se firmar no mundo e de fracasso ao final, que Carlos Eduardo nos apresenta com rigor técnico e estética refinada, sem deixar, no entanto, que o leitor, ao término da leitura, abstenha-se da reflexão crítica sobre o destino do ser humano.   

[Resenha publicada, originalmente, no caderno de cultura do JORNAL OPÇÃO

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Lucky, um filme imperdível

Por Geraldo Lima

Lucky, de John Carroll Lynch, é um filme que nos trinca o coração, tamanho o grau de humanidade que ele irradia, e nos força, esteticamente, a mergulhar na vida do personagem e emergir dali com a alma repleta de afetos e beleza.

O filme é de 2017 e passou batido diante do olhar dos principais prêmios da indústria cinematográfica, mais especificamente o do Oscar, que ignorou a magistral interpretação de Harry Dean Stanton, que, aos 90 anos de idade, encarnou, com finesse e paixão, a vida de um homem também nos seus 90 anos, o cético e ranzinza Lucky. O corpo de Lucky/Stanton está definhando, dando sinais de que pode desabar a qualquer momento [o de Lucky, de fato, desaba em determinado momento, alertando-o de que o fim está próximo], mas o espírito mantém-se vivo, intenso, como se pudesse avançar ainda por décadas e décadas.

Lucky, embora pessimista e ranzinza, está cercado de afeto, e, no lugarejo em que vive, num desses lugares esquecidos do interior dos Estados Unidos, com cara de velho Oeste, não passa despercebido. Vive sozinho, mas não é um solitário, como ele mesmo defende. Poderia ser um tipo apenas folclórico, mas sua radicalidade existencial e seu discurso filosófico à la Cioran afastam-no do puro tipo e nos entrega um ser complexo, cujo ato de viver nos emociona e nos humaniza. Sua rotina, que parece que vai sempre dar em nada, deságua em encontros em que a vida, naquele vilarejo, mostra-se mais intensa e rica que em qualquer grande centro urbano.

Lucky é o primeiro filme de John Lynch como diretor, até então apenas um ator coadjuvante. E ele acerta de primeira. A obra que ele entrega ao público é recheada de poesia e sutilezas narrativas. Há que se ter paciência para seguir a rotina do protagonista, despida de eventos mirabolantes e violentos, e olhar agudo para perceber a riqueza estética e de conteúdo que o filme apresenta. É assistir e se emocionar. E rir também, já que o filme tem elementos de comédia. E a genial interpretação de Stanton nos leva de uma ponta a outra do espectro de emoções. Com este filme, ele encerrou brilhantemente sua carreira de ator: Harry Dean Stanton faleceu sem ver a estreia do filme.

Minha gente, em tempos tão torpes quanto este em que vivemos, só podemos salvar nossa humanidade, nos reabastecermos de esperança, com a fruição de obras de arte como essa, obras de arte essenciais, obras de arte que nos dão vontade de celebrar a vida sempre sempre sempre...