terça-feira, 26 de maio de 2020

História de uma amor que fere e traumatiza





Por Geraldo Lima 


Todos nós estamos sujeitos a cair na lábia de algum espertalhão ou estelionatário, resultando, comumente, em prejuízo financeiro. Desde que o mundo é mundo, sempre houve aqueles propensos a tirar vantagens por meio da fraude. Está lá, no Antigo Testamento, Livro do Gênesis, capítulo 27: Jacó engana seu pai Isaque, ao se passar pelo irmão Esaú, com o intuito de receber a bênção que estava reservada a este. Mas há uma modalidade de fraude ou estelionato que envolve, principalmente, o desgaste emocional. É o que se dá numa relação amorosa em que uma das partes se entrega cegamente aos caprichos da outra.Nesse caso, a vítima[com mais frequência mulheres] perde o que tem de mais valioso: sua autoestima. Nesse tipo de golpe, além da perda financeira, sofre-se dolorosamente com o trauma emocional. O indivíduo que submete outras pessoas a esse tipo de situação é o que, tecnicamente, chamamos de psicopata, alguém cujo grau de empatia é praticamente zero. Alguém que seduz, tira vantagens e depois abandona sem remorso algum. No romance de Rosângela Vieira Rocha, Nenhum espelho reflete seu rosto [Editora Arribaçã, 2019, 263 páginas], temos esse tipo de situação traumatizante narrada pela protagonista Helen, uma mulher em ascensão profissional no mundo da joalheria que, apesar da sua maturidade e lucidez, vê-se envolvida numa relação claramente abusiva. 

Rosângela disse em entrevista que, para compor essa história, ouviu o relato de várias mulheres que se envolveram amorosamente com o tipo de homem abusador, narcisista, enfim, psicopata. Leu bastante sobre o assunto, sempre buscando dar consistência às informações apresentadas ao longo da narrativa. É a partir, então, do acontecido com outras pessoas e do que há de estudo sobre os casos de psicopatia que ela compõe o retrato, tanto do vilão [creio que podemos chamar assim o sedutor, narcisista e misterioso Ivan Hernández] quanto da narradora protagonista do seu romance, a empresária Helen, também ourives e designer de joias.Procura-se, assim, tanto a justeza dos fatos narrados quanto da composição psicológica dos personagens. A fantasia, nesse caso, cede espaço ao realismo. 

Os capítulos alternam-se entre os que tratam da formação profissional da protagonista, como ourives, do dia a dia na joalheria, e os que se apresentam na forma de relato pessoal,enviado por Helen, através de e-mails, ao médico psiquiatra e psicanalista que lhe solicita ajuda, o Dr. Jorge Campos. A ideia é que a história vivida por ela possa ajudá-lo no tratamento de uma paciente que se envolveu também com o mesmo homem com o qual ela se relacionou há dois anos, o argentino Ivan Hernández. Nesta parte, do relato pessoal, o nível de tensão, de suspense e de expectativa apresenta-se muito mais carregado do que nos capítulos que tratam do cotidiano na joalheria.Temos, nesse segmento narrativo, uma trama empolgante,um conflito: lá estão o vilão Ivan, a protagonista Helen e o desenrolar tenso da relação abusiva entre eles. 

Ainda que parte da narrativa dê-se de modo diverso dessa do relato pessoal, podemos dizer que esse romance de Rosângela se enquadra [ah, nossa mania de enquadrar tudo!]num gênero que teve seu auge no século XVIII, o chamado romance epistolar, mas que, modernamente, continuou a ser praticado por grandes escritores, como Lúcio Cardoso (Crônica da casa assassinada), Alice Walker (A cor púrpura) e Amos Oz (A caixa preta). Em Nenhum espelho reflete seu rosto, no lugar de cartas e bilhetes, usados em outros tempos, temos o moderno e ágil recurso do e-mail. Embora Helen se recuse a travar um diálogo com o Dr. Jorge Campos, nos moldes de uma análise,a escrita desses e-mails serve como meio de ela se curar, de purgar o passado sombrio e se livrar, de uma vez por todas, dos sentimentos em relação a Ivan que ainda a assombram. 

O universo da joalheria e da ourivesaria nos é apresentado de modo preciso e apaixonado nesse romance da mineira radicada em Brasília Rosângela Vieira Rocha, indo da seleção das pedras preciosas à lapidação das mesmas. Aos olhos da ourives e designer Helen[que herdou do pai a paixão pela joalheria e, da mãe, o hábito de ler e escrever], essa atividade artesanal insere-se no contexto da arte, da busca da beleza pelo apuro técnico e criativo. “A joalheria é mesmo uma profissão de sonho. Em que outro ofício eu poderia sentir essa plenitude, essa alegria por criar a beleza? Sim, existem outros tipos de beleza, mas nada que se compare à dessa arte milenar.” [pág. 175] É esse estado de entrega total à sua criação que nos desperta empatia em relação à protagonista, que, de outra maneira, poderia se constituir em um ser vazio, superficial, ligado apenas a um mundo de luxo e ostentação.Helen é inspirada e generosa, aberta ao encantamento e ao amor, e essas são características que vão, infelizmente, facilitar sua sedução por parte do narcisista Ivan.E a experiência será traumática: “Dolorida e contraditoriamente fortalecida, nunca mais fui a mesma. Ninguém sai incólume do convívio com um perverso, a subespécie humana mais letal que existe”. [pág. 263] Seguir o seu doloroso relato, que se dá ainda num ato de extrema vontade de ajudar o outro, é algo que nos humaniza e alerta para os constantes perigos que nos rondam. Sem complicações narrativas, com linguagem enxuta e direta, Rosângela nos convida a mergulhar na terrível história vivida por Helen, que é, em suma, a história de frustração e dor vivida por milhares de mulheres mundo afora. É, de certo modo, uma história de superação e compartilhamento dessa superação. Uma história que nos ilumina e nos inspira a continuar vivendo apesar do mal que teima em nos abater.

[Resenha publicada, originalmente, no Opção Cultural]

quarta-feira, 25 de março de 2020

Uma narrativa que nos arrasta para junto do personagem



 Por Geraldo Lima

O tema do retorno à casa paterna, ou ao antigo lar, perpassa a história da literatura desde os seus primórdios. Começa na Odisseia, poema épico de Homero, com o herói grego Odisseu retornando [ou tentando retornar] ao seu lar em Ítaca, após dez anos de guerra contra os troianos. Séculos depois, aparece no livro sagrado dos cristãos, mais especificamente no Evangelho de Lucas, na Parábola do Filho Pródigo [Lucas 15:12-32]; depois, em nossa era, já na moderna literatura brasileira, é tema tratado com vertiginoso lirismo no romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, e, com realismo cravado de sarcasmo, no romance Allegro ma non tropo, da escritora brasiliense Paulliny Tort. Agora, apresenta-se como a espinha dorsal que sustenta os dois eixos temporais, presente e passado, no belo romance de estreia de Carlos Eduardo Pereira, Enquanto os dentes [Todavia, 2017, 93 páginas], que, para coroar o seu êxito, já é semifinalista do Prêmio Oceanos 2018 e finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2018, na categoria melhor livro do ano de romance – autor estreante com mais de 40 anos.

Para efeito de comparação, ou de contraponto a outras obras de abordagem temática semelhante ao romance de Carlos Eduardo Pereira, fiquemos, a princípio, com a Parábola do Filho Pródigo e com o romance Lavoura arcaica, obras que tratam, ainda que de modo diferente, sobre o retorno do filho à casa paterna.

No texto do evangelista Lucas, o filho decide, por si mesmo, retornar à casa dos pais após dissipar todo o dinheiro que lhe foi dado assim que partiu para viver a vida ao seu modo e sem regramento. Retorna, portanto, falido e em busca do perdão paterno. Por um lance de sorte ou por ação divina, é recebido com festa pelos pais, ainda que contrariando o primogênito, que ficara e labutara ao lado do pai o tempo todo. Já no livro de Raduan Nassar, o filho fujão, assim André é mencionado, retorna à casa dos pais sob a guarda do irmão mais velho, Pedro, que cumpria o dever de levá-lo de volta. Não retorna, portanto, de livre e espontânea vontade. Não traz, também, nenhum sinal de conquista material resultante dessa fuga e desse enfrentamento do mundo fora dos domínios da casa comandada pela severa disciplina religiosa do pai. Se fugiu para se livrar do que o atormentava, o desejo reprimido pela irmã, retorna ainda mais tomado por ele e em completa possessão. No texto bíblico, o filho pródigo encontra acolhida e compreensão por parte dos pais; no romance de Raduan, o retorno de André será marcado pelo confronto ao poder conservador do patriarca e pela tragédia que atinge a família. No romance Enquanto os dentes, o protagonista Antônio, que havia deixado a casa dos pais há 20 anos, logo após abandonar a Escola Nacional da Armada, para onde fora mandado com o objetivo de se formar oficial da Marinha, retorna completamente falido financeiramente, limitado no seu poder de locomoção e sem a certeza de que irá encontrar uma acolhida favorável, já que terá diante de si a figura conservadora e autoritária do pai militar. Da mãe, religiosa, resignada e obediente às vontades do marido, pode-se esperar ainda algum afeto e boa acolhida, mas nada está garantido claramente. Nesse sentido, ainda que apresente um angustiante final em aberto, é com o romance Lavoura arcaica, de Raduan Nassar, que o seu livro guarda maior parentesco quanto ao destino do protagonista, que, para desgosto do pai, é homossexual e artista.

A TEMÁTICA E SUA ABRANGÊNCIA

Obviamente que o romance Enquanto os dentes não aborda apenas o tema do retorno do filho pródigo à casa paterna. Esse é só consequência do estado físico limitado e da debilidade financeira em que o protagonista se encontra. Outros temas de suma importância estão presentes, entre eles a questão da homossexualidade, da construção de uma identidade individual, da mobilidade urbana para pessoas deficientes, o uso da memória como fio condutor da narrativa etc.

Essa homossexualidade, que Antônio procura não demonstrar ostensivamente, se manifestou desde cedo, o que lhe criava problemas com o pai conservador, como da vez em que, tentando reproduzir, junto a um grupo de garotos na rua, o modo entusiasmado com que o pai falava do piloto Nelson Piquet, “aquele, sim, que era um macho de verdade. Brigão, mulherengo e bom piloto” [pág. 13], acaba se excedendo nos trejeitos e virando motivo de chacota de todos ali. [Talvez por isso, na vida adulta, tenha se tornado reservado e discreto, tanto no modo de se vestir quanto no de portar-se.] Além de ser castigado fisicamente pelo pai, como dessa vez, passa a ser também motivo de desgosto para ele. “Lembra da cara do Comandante, incapaz de disfarçar o desgosto pelo filho que não se virava muito bem com aquelas questões” [pág. 33]. Aí se referindo ao universo da navegação e da sua relação problemática com o mar, logo ele que, segundo os desejos do pai, devia servir à Marinha brasileira.  No ambiente da Escola da Armada, como era de se prever, ele também se sentirá oprimido e será motivo de piada em relação à sua sexualidade e ao seu modo de ser. “Ele era um cara educado demais...” [pág. 51]. Só quando abandona esses dois ambientes, a casa dos pais e a Escola, é que se sentirá livre de fato e poderá dar vazão à sua verdadeira personalidade, que terá na arte um meio de expressão.

A sua identidade individual se forjou nesses ambientes hostis, que o obrigaram a criar estratégias de sobrevivência, ora se mostrando dócil e fraco, ora rebelde e forte. Se parece ser um cara correto, amigável, hospitaleiro, houve momento, no entanto, em que foi capaz de dedurar um companheiro de Escola por pura vingança, por ele lhe ter causado uma punição. “Menos por ter ficado na Escola impedido e mais por um desejo de se vingar, na semana seguinte, na capela, acabou contando em confissão ao padre do fundo falso no armário onde Nascimento vez ou outra escondia uns papelotes de cocaína trazidos para ele, com certa frequência, por um terceiro sargento lotado no paiol” [pág. 63]. O ser reservado, contido, também o manterá fora do olhar vigilante e condenador dos outros. De certo modo, parece não estar no mundo para levantar bandeiras, sejam de que natureza for. 

No momento em que a narrativa se inicia, Antônio já está na rua, seguindo em direção ao terminal das barcas. É a partir desse ponto que vamos segui-lo em sua trajetória até se aproximar da casa dos pais. Essa chegada, aliás, vai sendo protelada por ele, ao tomar pequenos desvios e ao demorar em alguns lugares. Assim, percebemos o quanto é difícil e angustiante para ele empreender essa jornada. Nesse percurso, que é narrado no presente e dura apenas algumas horas de uma sexta-feira, ele encontra pequenos obstáculos que dificultam sua locomoção, os quais ele vence sozinho ou com a ajuda de terceiros. Sem fazer disso um dramalhão, o autor vai expondo as dificuldades por que passam os cadeirantes, assim como mostra, também, o que já há de acessibilidade nas ruas. De modo muito sutil, o livro funciona como um manual de como lidar com pessoas em situação de cadeirante, evitando tomá-las por incapazes de se virarem sozinhas. Nesse trajeto, Antônio encontra alguns antigos conhecidos, que, juntamente com o narrador, têm a função de nos revelar passagens da sua vida, na infância ou na Escola, ligadas à sua homossexualidade. É aí que vemos o quanto de pressão ele sofreu enquanto esteve nesses ambientes marcados pela disciplina severa e o conservadorismo. Essa sua pequena odisseia, ainda que sem os grandes incidentes da homérica, mostra-se grandiosa pelo esforço empreendido por ele, tanto para se deslocar no espaço físico, nem sempre adequado para a sua condição de deficiente, quanto no de manter-se equilibrado psicologicamente, embora a situação lhe seja desfavorável.

É do entrelaçar de passado e presente, do buscar na memória elementos que nos permitem enxergar o personagem em sua inteireza, ainda que de modo gradativo, que se compõe a estrutura do romance de Carlos Eduardo Pereira. Enquanto Antônio se desloca no presente, em sua cadeira de rodas, o passado vai sendo recuperado aos poucos, ora dividindo espaço com o presente num mesmo parágrafo, ora compondo sozinho um parágrafo ou mais. O narrador onisciente nos dá conta, nesse ir e vir, do presente ao passado, dos aspectos que formaram ou deformaram a personalidade do protagonista.

SUTILEZAS ADOTADAS PELO AUTOR NA COMPOSIÇÃO DO TEXTO

Carlos Eduardo Pereira, nesse seu livro de estreia, dá mostras de ser já autor veterano, tal a habilidade com que tece a narrativa, costurando passado e presente, num enredo não-linear, sem, no entanto, torná-lo confuso. O narrador em 3ª pessoa, que parece estar colado ao personagem como se fosse alguém que empurrasse a sua cadeira de rodas, é também um achado. Ele nos faz estar ali também, seguindo Antônio de perto no seu retorno à casa dos pais. “Antônio sempre achou esta praça interessante” (pág. 6), diz o narrador a certa altura, como se a apontasse com o dedo.  Um elemento que poderia deixar o texto chato e pesado [as minuciosas descrições de espaços e objetos, como a do terminal das barcas e a da cadeira de rodas] é desenvolvido com leveza e agilidade, sem travar o escoar das ações.  Mas, em contraponto a isso, temos, em relação à caracterização do protagonista, e de outros personagens, uma outra estratégia, ou seja, a da apresentação indireta do personagem.  Assim, sabemos bastante e de uma vez só sobre como funciona o terminal das barcas, como é constituída a barca, sobre a engrenagem da cadeira de rodas importada da Alemanha, mas muito pouco sobre Antônio assim logo de início. O autor dilui, ao longo da narrativa, as informações que compõem o caráter, os aspectos físicos e psicológicos do protagonista. Desse modo, só aos poucos vamos tendo acesso aos elementos de caracterização que nos permitem montar integralmente a sua figura. Só vamos saber, por exemplo, da cor da pele de Antônio na página 39: “... e Antônio tecnicamente é mulato, já que o Comandante é branco e a mãe é preta”. [A questão racial, como poderia parecer aqui, não será tema desenvolvido pelo autor. O personagem não vivencia, em relação a esse aspecto, nenhum caso de discriminação.]  Da homossexualidade de Antônio vamos nos inteirando aos poucos também, ainda que o narrador vá deixando pistas que apontam para essa orientação sexual. Ou seja, não é dito ao leitor, logo de início, que o protagonista é homossexual, que teve esse ou aquele caso. O leitor vai pegando cada uma dessas informações e vai montando a história e o retrato do personagem. Isso obriga-o a manter uma atenção maior caso queira, de fato, ter uma ideia precisa sobre a natureza dos personagens. 

Enquanto os dentes é romance de narrativa fluida, sem excessos, que nos cativa desde o início, não nos permitindo abandonar o personagem enquanto ele retorna fracassado para o antigo lar. É essa história de tentativa de se firmar no mundo e de fracasso ao final, que Carlos Eduardo nos apresenta com rigor técnico e estética refinada, sem deixar, no entanto, que o leitor, ao término da leitura, abstenha-se da reflexão crítica sobre o destino do ser humano.   

[Resenha publicada, originalmente, no caderno de cultura do Jornal Opção] 

sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Lucky, um filme imperdível

Por Geraldo Lima

Lucky, de John Carroll Lynch, é um filme que nos trinca o coração, tamanho o grau de humanidade que ele irradia, e nos força, esteticamente, a mergulhar na vida do personagem e emergir dali com a alma repleta de afetos e beleza.

O filme é de 2017 e passou batido diante do olhar dos principais prêmios da indústria cinematográfica, mais especificamente o do Oscar, que ignorou a magistral interpretação de Harry Dean Stanton, que, aos 90 anos de idade, encarnou, com finesse e paixão, a vida de um homem também nos seus 90 anos, o cético e ranzinza Lucky. O corpo de Lucky/Stanton está definhando, dando sinais de que pode desabar a qualquer momento [o de Lucky, de fato, desaba em determinado momento, alertando-o de que o fim está próximo], mas o espírito mantém-se vivo, intenso, como se pudesse avançar ainda por décadas e décadas.

Lucky, embora pessimista e ranzinza, está cercado de afeto, e, no lugarejo em que vive, num desses lugares esquecidos do interior dos Estados Unidos, com cara de velho Oeste, não passa despercebido. Vive sozinho, mas não é um solitário, como ele mesmo defende. Poderia ser um tipo apenas folclórico, mas sua radicalidade existencial e seu discurso filosófico à la Cioran afastam-no do puro tipo e nos entrega um ser complexo, cujo ato de viver nos emociona e nos humaniza. Sua rotina, que parece que vai sempre dar em nada, deságua em encontros em que a vida, naquele vilarejo, mostra-se mais intensa e rica que em qualquer grande centro urbano.

Lucky é o primeiro filme de John Lynch como diretor, até então apenas um ator coadjuvante. E ele acerta de primeira. A obra que ele entrega ao público é recheada de poesia e sutilezas narrativas. Há que se ter paciência para seguir a rotina do protagonista, despida de eventos mirabolantes e violentos, e olhar agudo para perceber a riqueza estética e de conteúdo que o filme apresenta. É assistir e se emocionar. E rir também, já que o filme tem elementos de comédia. E a genial interpretação de Stanton nos leva de uma ponta a outra do espectro de emoções. Com este filme, ele encerrou brilhantemente sua carreira de ator: Harry Dean Stanton faleceu sem ver a estreia do filme.

Minha gente, em tempos tão torpes quanto este em que vivemos, só podemos salvar nossa humanidade, nos reabastecermos de esperança, com a fruição de obras de arte como essa, obras de arte essenciais, obras de arte que nos dão vontade de celebrar a vida sempre sempre sempre...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Romance de Cinthia Kriemler nos convida ao mergulho nos abismos da alma humana


Por Geraldo Lima

Todos os Abismos convidam para um mergulho, romance de Cinthia Kriemler publicado pela Editora Patuá em 2017, não é um livro de leitura fácil. Não que apresente, em relação à linguagem ou à construção frasal, maiores dificuldades para a fruição da leitura. O texto é costurado, na sua grande extensão, com frases curtas, diretas, sem malabarismos verbais. Nada de linguagem poética, tudo muito seco, sem rodeios, calcado num realismo brutal.  Como um soco. É isso: a narrativa adotada por Cinthia quer, na verdade, funcionar como um soco que desperte a consciência do leitor! A narrativa quer, enfim, arrastar sem titubeios esse leitor para dentro da zona nebulosa e trágica da protagonista.

É aí que a coisa se complica, que a leitura torna-se uma prova de fogo, exigindo do leitor ou da leitora nervos de aço, estômago para digerir situações de violência das quais temos conhecimento, muitas das vezes, apenas pelos jornais ou por conversas de terceiros. Essas narrativas, sem nos forçar a um mergulho profundo no tormento mental e no dia a dia da personagem, mantêm-nos ainda numa posição bastante confortável. E é essa posição de conforto que a narrativa de Cinthia nos tira. E aqui chegamos a mais uma das razões de ser da literatura: levar-nos até o mais fundo da alma humana. 

Cinthia Kriemler, nascida no Rio de Janeiro mas residindo em Brasília desde 1969, já está no seu quinto livro publicado, sendo que o quarto, Na escuridão não existe cor-de-rosa (contos, Editora Patuá, 2015), foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2016. Todos os abismos convidam para um mergulho é seu primeiro romance.

Narrado em primeira pessoa pela protagonista Beatriz, uma assistente social com sérios problemas pessoais, o romance nos apresenta, sem suavizar o discurso, a realidade sombria e trágica de mulheres e crianças que sofrem violência doméstica e abusos sexuais. Além desse contexto social em que Beatriz atua como profissional, numa casa abrigo, temos acesso também ao universo das suas relações pessoais e afetivas, com todos os conflitos que lhe atormentam a alma: a perda da filha para a depressão, a relação ambígua com o ex-marido Bernardo, os atritos com a mãe e o irmão e os encontros sexuais estéreis com estranhos. 


A narrativa ocorre, na maior parte do tempo, no presente, um presente asfixiante e que não deixa brechas para o ingresso num futuro de redenção e paz. Quando se descola desse tempo presente, a narrativa descortina aos nossos olhos a vida pregressa da narradora-personagem, com seu passado traumático, e a causa de seu lento e progressivo mergulho no abismo do vício, tanto das drogas quanto do sexo. Essa estratégia de narrativa adotada por Cinthia não permite ao leitor o distanciamento que uma narrativa no tempo passado poderia propiciar, com a ideia de que tudo são fatos passados. O tormento da personagem Beatriz é algo que acontece agora, neste exato momento, diante dos olhos do leitor ou da leitora, enquanto a narrativa se desenrola. “Nem eu sei de onde vem esta raiva. Eu não sou assim.  Nunca me exaltei desse jeito. Tenho que respirar fundo. Daqui a uns minutos vou conversar com esse sujeito anormal” (pág. 44).  

Beatriz não é do tipo que podemos alçar facilmente à categoria de heroína. É, antes de tudo, uma anti-heroína. Incumbida de salvar vidas humanas, ela própria precisa ser salva das ruínas em que sua vida pessoal está soterrada. Sua compulsão sexual leva-a aos mais degradantes ambientes, dos quais retorna ainda mais insatisfeita.  É também uma representante da classe média com suas fissuras e vazios. Uma mulher branca, com livre trânsito na sociedade, mas que sempre vai dar num beco sem saída ao fraquejar e ceder ao vício.  Muito pouco nela nos desperta simpatia. A sua existência paradoxal nos atordoa, levando-nos da compaixão à raiva em poucos segundos. Como pode alguém, cuja função é resgatar pessoas soterradas nos escombros da violência, descer às vezes tão baixo em busca de satisfação para um desejo que é só válvula de escape? “Bunker. É a única palavra no néon vulgar iluminando a porta de entrada para o inferno. Os degraus estreitos, sujos, convenientes. Barro, cuspe, vômito, bebidas. Uma gosma permanente que mais nenhuma água limpa. (...) Um cigarro. A mão que acende o cigarro. Grande, suada. O corpo roçando o meu. Por trás. O cheiro de bebida, de maconha” (pág. 109). Mas aí, lembrando-nos da sua infância traumática, marcada por abusos, do remorso que lhe corrói a consciência pelo que aconteceu à filha Laura, do quão desgastante é a lida com o sofrimento alheio [sem a expectativa, às vezes, de obter sucesso], da própria complexidade da existência humana e de que não devemos esquecer  “a variedade do mundo humano e de sua vida psíquica”, como nos alertou Freud no seu O mal-estar na cultura, então, lembrando-nos disso tudo, conseguimos vislumbrar uma Beatriz humana, retratada em plena vertigem da sua queda.

E é por apresentar “o poder de comunicar umas almas com as outras”, como queria Lima Barreto para a literatura, e por nos convidar a esse mergulho em águas tão tormentosas, em que a vida humana borbulha intensa e inquietante, tirando-nos da zona de conforto, que vale a pena ler esse primeiro romance de Cinthia Kriemler.    

[Texto publicado, originalmente, no Opção Cultural e no Suplemento Literário de Minas Gerais]

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Participação na Jornada Literária do Distrito Federal 2019 - Gama












                                                           
                                                                 [fotos: Cícero Bezerra]
                          [Organização/realização da Jornada Marilda Bezerra e João Bosco Bezerra Bonfim]