sexta-feira, 24 de janeiro de 2020

Lucky, um filme imperdível

Por Geraldo Lima

Lucky, de John Carroll Lynch, é um filme que nos trinca o coração, tamanho o grau de humanidade que ele irradia, e nos força, esteticamente, a mergulhar na vida do personagem e emergir dali com a alma repleta de afetos e beleza.

O filme é de 2017 e passou batido diante do olhar dos principais prêmios da indústria cinematográfica, mais especificamente o do Oscar, que ignorou a magistral interpretação de Harry Dean Stanton, que, aos 90 anos de idade, encarnou, com finesse e paixão, a vida de um homem também nos seus 90 anos, o cético e ranzinza Lucky. O corpo de Lucky/Stanton está definhando, dando sinais de que pode desabar a qualquer momento [o de Lucky, de fato, desaba em determinado momento, alertando-o de que o fim está próximo], mas o espírito mantém-se vivo, intenso, como se pudesse avançar ainda por décadas e décadas.

Lucky, embora pessimista e ranzinza, está cercado de afeto, e, no lugarejo em que vive, num desses lugares esquecidos do interior dos Estados Unidos, com cara de velho Oeste, não passa despercebido. Vive sozinho, mas não é um solitário, como ele mesmo defende. Poderia ser um tipo apenas folclórico, mas sua radicalidade existencial e seu discurso filosófico à la Cioran afastam-no do puro tipo e nos entrega um ser complexo, cujo ato de viver nos emociona e nos humaniza. Sua rotina, que parece que vai sempre dar em nada, deságua em encontros em que a vida, naquele vilarejo, mostra-se mais intensa e rica que em qualquer grande centro urbano.

Lucky é o primeiro filme de John Lynch como diretor, até então apenas um ator coadjuvante. E ele acerta de primeira. A obra que ele entrega ao público é recheada de poesia e sutilezas narrativas. Há que se ter paciência para seguir a rotina do protagonista, despida de eventos mirabolantes e violentos, e olhar agudo para perceber a riqueza estética e de conteúdo que o filme apresenta. É assistir e se emocionar. E rir também, já que o filme tem elementos de comédia. E a genial interpretação de Stanton nos leva de uma ponta a outra do espectro de emoções. Com este filme, ele encerrou brilhantemente sua carreira de ator: Harry Dean Stanton faleceu sem ver a estreia do filme.

Minha gente, em tempos tão torpes quanto este em que vivemos, só podemos salvar nossa humanidade, nos reabastecermos de esperança, com a fruição de obras de arte como essa, obras de arte essenciais, obras de arte que nos dão vontade de celebrar a vida sempre sempre sempre...

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

Romance de Cinthia Kriemler nos convida ao mergulho nos abismos da alma humana


Por Geraldo Lima

Todos os Abismos convidam para um mergulho, romance de Cinthia Kriemler publicado pela Editora Patuá em 2017, não é um livro de leitura fácil. Não que apresente, em relação à linguagem ou à construção frasal, maiores dificuldades para a fruição da leitura. O texto é costurado, na sua grande extensão, com frases curtas, diretas, sem malabarismos verbais. Nada de linguagem poética, tudo muito seco, sem rodeios, calcado num realismo brutal.  Como um soco. É isso: a narrativa adotada por Cinthia quer, na verdade, funcionar como um soco que desperte a consciência do leitor! A narrativa quer, enfim, arrastar sem titubeios esse leitor para dentro da zona nebulosa e trágica da protagonista.

É aí que a coisa se complica, que a leitura torna-se uma prova de fogo, exigindo do leitor ou da leitora nervos de aço, estômago para digerir situações de violência das quais temos conhecimento, muitas das vezes, apenas pelos jornais ou por conversas de terceiros. Essas narrativas, sem nos forçar a um mergulho profundo no tormento mental e no dia a dia da personagem, mantêm-nos ainda numa posição bastante confortável. E é essa posição de conforto que a narrativa de Cinthia nos tira. E aqui chegamos a mais uma das razões de ser da literatura: levar-nos até o mais fundo da alma humana. 

Cinthia Kriemler, nascida no Rio de Janeiro mas residindo em Brasília desde 1969, já está no seu quinto livro publicado, sendo que o quarto, Na escuridão não existe cor-de-rosa (contos, Editora Patuá, 2015), foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2016. Todos os abismos convidam para um mergulho é seu primeiro romance.

Narrado em primeira pessoa pela protagonista Beatriz, uma assistente social com sérios problemas pessoais, o romance nos apresenta, sem suavizar o discurso, a realidade sombria e trágica de mulheres e crianças que sofrem violência doméstica e abusos sexuais. Além desse contexto social em que Beatriz atua como profissional, numa casa abrigo, temos acesso também ao universo das suas relações pessoais e afetivas, com todos os conflitos que lhe atormentam a alma: a perda da filha para a depressão, a relação ambígua com o ex-marido Bernardo, os atritos com a mãe e o irmão e os encontros sexuais estéreis com estranhos. 


A narrativa ocorre, na maior parte do tempo, no presente, um presente asfixiante e que não deixa brechas para o ingresso num futuro de redenção e paz. Quando se descola desse tempo presente, a narrativa descortina aos nossos olhos a vida pregressa da narradora-personagem, com seu passado traumático, e a causa de seu lento e progressivo mergulho no abismo do vício, tanto das drogas quanto do sexo. Essa estratégia de narrativa adotada por Cinthia não permite ao leitor o distanciamento que uma narrativa no tempo passado poderia propiciar, com a ideia de que tudo são fatos passados. O tormento da personagem Beatriz é algo que acontece agora, neste exato momento, diante dos olhos do leitor ou da leitora, enquanto a narrativa se desenrola. “Nem eu sei de onde vem esta raiva. Eu não sou assim.  Nunca me exaltei desse jeito. Tenho que respirar fundo. Daqui a uns minutos vou conversar com esse sujeito anormal” (pág. 44).  

Beatriz não é do tipo que podemos alçar facilmente à categoria de heroína. É, antes de tudo, uma anti-heroína. Incumbida de salvar vidas humanas, ela própria precisa ser salva das ruínas em que sua vida pessoal está soterrada. Sua compulsão sexual leva-a aos mais degradantes ambientes, dos quais retorna ainda mais insatisfeita.  É também uma representante da classe média com suas fissuras e vazios. Uma mulher branca, com livre trânsito na sociedade, mas que sempre vai dar num beco sem saída ao fraquejar e ceder ao vício.  Muito pouco nela nos desperta simpatia. A sua existência paradoxal nos atordoa, levando-nos da compaixão à raiva em poucos segundos. Como pode alguém, cuja função é resgatar pessoas soterradas nos escombros da violência, descer às vezes tão baixo em busca de satisfação para um desejo que é só válvula de escape? “Bunker. É a única palavra no néon vulgar iluminando a porta de entrada para o inferno. Os degraus estreitos, sujos, convenientes. Barro, cuspe, vômito, bebidas. Uma gosma permanente que mais nenhuma água limpa. (...) Um cigarro. A mão que acende o cigarro. Grande, suada. O corpo roçando o meu. Por trás. O cheiro de bebida, de maconha” (pág. 109). Mas aí, lembrando-nos da sua infância traumática, marcada por abusos, do remorso que lhe corrói a consciência pelo que aconteceu à filha Laura, do quão desgastante é a lida com o sofrimento alheio [sem a expectativa, às vezes, de obter sucesso], da própria complexidade da existência humana e de que não devemos esquecer  “a variedade do mundo humano e de sua vida psíquica”, como nos alertou Freud no seu O mal-estar na cultura, então, lembrando-nos disso tudo, conseguimos vislumbrar uma Beatriz humana, retratada em plena vertigem da sua queda.

E é por apresentar “o poder de comunicar umas almas com as outras”, como queria Lima Barreto para a literatura, e por nos convidar a esse mergulho em águas tão tormentosas, em que a vida humana borbulha intensa e inquietante, tirando-nos da zona de conforto, que vale a pena ler esse primeiro romance de Cinthia Kriemler.    

[Texto publicado, originalmente, no Opção Cultural e no Suplemento Literário de Minas Gerais]

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Participação na Jornada Literária do Distrito Federal 2019 - Gama












                                                           
                                                                 [fotos: Cícero Bezerra]
                          [Organização/realização da Jornada Marilda Bezerra e João Bosco Bezerra Bonfim]

segunda-feira, 22 de abril de 2019

A vida como uma busca infindável



Por Geraldo Lima

Allegro ma non troppo (editora Oito e Meio, 2016) é o primeiro romance da escritora e jornalista brasiliense Paulliny Gualbert Tort, que até então só se aventurara no conto, com participação em antologias e publicações em revistas e sites.

A história contada no livro é ambientada, na sua maior parte, em Brasília e arredores, mas leva o leitor também ao ambiente exótico e cativante da Chapada dos Veadeiros, em Goiás. É narrativa ágil e de grande movimentação, que não deixa o leitor cair em pasmaceira. Aborda, em linhas gerais, o tema da busca pelo filho desgarrado. Outros temas, no entanto, estão presentes, como o conflito familiar, a incapacidade de se ligar afetivamente a alguém, a busca por um sentido verdadeiro para a vida etc. Não escapa também à escrita em tom mordaz de Paulliny um retrato crítico e esmaecido do modo de vida da classe média, principalmente a que habita nas entrequadras do Plano Piloto.

O diálogo com outras narrativas, dos tempos bíblicos aos atuais.

Estreia de sucesso na narrativa mais longa, esse primeiro romance de Paulliny Tort foi semifinalista do Prêmio Oceanos 2017, um dos mais prestigiados prêmios literários a contemplar autores de língua portuguesa. Sem dúvida, esse feito a coloca como uma das escritoras contemporâneas que despontam como grande promessa de que a escrita feminina (ou a literatura feita por mulheres) firma-se de fato em terras tupiniquins. E esse acontecimento literário torna-se mais instigante ainda quando constatamos que o romance de Paulliny traz como narrador em primeira pessoa um homem, o protagonista Daniel. Ou seja, a jovem autora, a partir do olhar masculino, desenvolve um tema que nos foi apresentado, pela primeira vez, no Evangelho de Lucas. Trata-se da famosa Parábola do Filho Pródigo [Lucas 15:12 – 32].Mas vamos ao que aproxima a narrativa romanesca da jovem escritora brasiliense da narrativa bíblica, na qual Jesus expõe seus ensinamentos, e o que as distancia ao mesmo tempo.

Em ambas as histórias, há a figura do filho que decide, num determinado momento da vida, deixar a casa dos pais e sair pelo mundo.  Na narrativa do evangelista Lucas, é o filho mais moço que parte após receber do pai a sua parte da herança. Na de Paulliny, é o filho mais velho (João) que parte, dois anos antes da morte do pai, um Senador da República com o qual tinha uma convivência conflituosa.[Aqui, é a mãe que se angustia com a partida e posterior sumiço do filho.] Como é do conhecimento dos leitores do Novo Testamento, o filho mais novo dissipa em farras o que recebeu como herança e, em dificuldade financeira, retorna para a casa paterna em busca de perdão e trabalho.  O antagonismo se dá, nesse caso, em relação ao filho mais velho, que, tendo ficado o tempo todo ao lado do pai, ajudando-o na lida diária, sente-se injustiçado ao vê-lo receber o filho pródigo com festa. Na história criada por Paulliny, há também esse antagonismo entre os irmãos João e Daniel, que vai sendo exposto ao longo da narrativa e se acentua mais fortemente ao final. Será possível uma reconciliação entre eles? E que mistérios prendem tão fortemente a mãe ao filho mais velho? No texto bíblico, entendemos que a explicação comovente e sábia do pai tenha sido aceita pelo filho indignado.

Há ainda, como elemento complicador desse estranhamento entre os dois irmãos do romance Allegro ma non tropo, o fato de Daniel sentir-se menos acolhido pelo olhar dos outros por ser fisicamente diferente do irmão. Nas palavras de Daniel, o fato de o irmão se parecer fisicamente com a mãe, loira, alta, bonita, torna-o privilegiado e acima de qualquer suspeita, enquanto ele, moreno e franzino, que se diz parecer com ninguém, figura-se suspeito, por exemplo, ante o olhar dos porteiros. “O porteiro, novo no prédio, não me deixou subir sem ser anunciado. Duvidou que eu fosse filho da madame.” Nesse trecho, Paulliny deixa entrever um problema que afeta sobremaneira a população negra no Brasil: a vigilância mais acirrada sobre o indivíduo negro, seja o de pele mais escura, seja o de pele um pouco mais clara. Entrar em lugares mais sofisticados, de classe média ou rica, só pelo elevador de serviço ou depois de passar por severa revista. Embora a autora use a palavra “moreno” para caracterizar a cor da pele de Daniel (caracterização rejeitada, hoje, por boa parte da população afrodescendente), é nessa linha da questão racial que a narrativa adentra.Mas, na realidade, sem ir além dessa insinuação de discriminação racial, mesmo porque o foco da sua narrativa é outro: a busca pelo filho desgarrado. E é nesse ponto que sua história envolvendo esse tipo de busca, ou de tema, nos leva a outra história, esta pertencente à moderna literatura brasileira. Trata-se do maravilhoso livro Lavoura arcaica, de Raduan Nassar.

No livro de Paulliny, é o irmão mais novo, Daniel, o incumbido pela mãe de procurar pelo irmão mais velho que partiu sem indicar paradeiro. No de Raduan Nassar, cabe ao irmão mais velho, Pedro, trazer de volta à casa paterna o filho fujão (é como fuga que é vista a partida de André). Em ambas as histórias, os protagonistas são os narradores, mas cada um imprime um tom próprio ao seu discurso: poético e extremado em André (Lavoura Arcaica), prosaico e irônico em Daniel (Allegro ma non tropo). No entanto, o sentido de possessão, de embate violento no campo da moral, dos costumes familiares, o uso da linguagem poética em estado puro, vibrante, presentes no romance Lavoura arcaica, não fazem parte da configuração narrativa de Allegro ma non troppo.A narrativa de Paulliny não busca a densidade psicológica ou trágica que podemos observar na obra de Raduan. É narrativa mais fluida, que dá conta da movimentação do protagonista na busca pelo irmão, em Alto Paraíso, cidade mística situada na Chapada dos Veadeiros, em Goiás, ou nos arredores de Brasília. É, em suma, narrativa que prima pelo tom de oralidade.

Outros pontos de contato ou de afastamento entre os dois livro podem ser apontados: se em Lavoura arcaica há o elemento religioso defendido com severidade e força pelo pai, em Allegro ma non troppo aparece o elemento místico, que é visto pelo narrador-personagem com reserva e ironia. Aliás, esse é o principal elemento que Daniel aponta como motivo de afastamento entre ele e o irmão: João enverada, cada vez mais, pelos caminhos do misticismo, enquanto ele vai sendo tragado pelo ceticismo. As duas histórias são dramas familiares que ilustram bem a grande dificuldade de convivência entre as pessoas quando tomadas por ideias extremas e apaixonadas. O sentido de liberdade e de busca pela própria essência, mesmo que isso se dê de forma enviesada e incompreensível para os demais, está presente tanto no livro de Raduan quanto no de Paulliny. Mas a proximidade entre as duas obras acaba aí.

 A ligação com a música e alguns aspectos da vida do protagonista

Allegro ma non tropo [do italiano, significa “rápido, mas não muito”] é uma expressão do universo da música clássica e, segundo a Wikipédia, “é um andamento utilizado para indicar ao músico que a execução deve ser moderadamente rápida. Em geral, o movimento allegro é executado com pulsão rápida e expressão leve e alegre”. No caso do livro de Paulliny, podemos observar que a narrativa segue um ritmo ágil, acelerado, mas sem a pressa exagerada que resulta num atropelo de cenas desconexas. [A referência à música, tanto a erudita quanto a popular, é uma constante ao longa da história.]


Embora o tema seja pesado [o conflito familiar e existencial do protagonista, um músico erudito em busca de afirmação profissional e compreensão dos problemas afetivos], o uso da ironia quebra em parte essa sisudez e mantém a história num andamento mais leve, o que permite, através do olhar do narrador-personagem, que outros elementos ao redor sejam mostrados. É assim que, através dum olhar mais descolado do seu mundo interior, Daniel, em sua jornada de busca pelo irmão, apresenta ao leitor o universo místico da cidade de Alto Paraíso, com seus tipos excêntricos, as cachoeiras que atraem tantos turistas ao vilarejo de São Jorge [também na Chapada dos Veadeiros, a 300 km de Brasília] e os arredores da Capital, até então desconhecidos para ele.Porém, os tipos que aparecem nesses lugares marcados pelo misticismo [tipos geralmente em busca de autoconhecimento ou de um sentido pleno para a vida] nem sempre são vistos com olhar complacente por Daniel, que, não raro, destila aí sua verve irônica e contaminada pelo ceticismo. “O Devananda usava um turbante branco enrolado na cabeça. Parecia indiano, mas não era. Tinha sotaque de cearense, o que sabotava toda a sua elaborada aparência de guru das montanhas.” É essa descrença, que o faz desconfiar dos discursos pretensamente místicos, religiosos, e sua incapacidade de se ligar mais fortemente a alguém que caracterizam mais fundamente a sua vida. A sua relação instável e insegura com as mulheres é também um contraponto com a forte personalidade do irmão, um notório conquistador e amante contumaz.

O seu caso com Marina é bem emblemático: ela se entrega, declarando-se apaixonado por ele, mas, no momento de ele se entregar também, recua, justificando seu ato insensível: “Devia estar sentindo ao mesmo tempo muita raiva e muita vergonha. Quase a puxei de volta para dizer que a amava, mas fiquei com medo. Com medo de que ela acreditasse e ficasse e eu não conseguisse mais afastá-la de mim. Eu não queria uma Marina para sempre”.

Paulliny se revela uma excelente criadora de personagens. Em Alto Paraíso, por exemplo, o protagonista se envolve com uma série de personagens estranhos e cativantes ao mesmo tempo. E é com pesar que vemos esses personagens sumirem da história, já que, em sua busca pelo irmão, Daniel vai e volta ao seu ponto de origem, perdendo contato com essas pessoas no mínimo interessantes, como Berta, a simpática jovem descendente de alemães, Gabriela, a garçonete mulata, exuberante e, aparentemente, inacessível, e Ronald, com sua figura jovem já detonada pela vida extravagante que leva, mas cheio de afeto.Todos esses personagens, cada um a seu modo, em função de sua inquietude, mereceriam uma história à parte. Todos, de certa maneira, são indivíduos que escaparam dos limites da casa dos pais e se jogaram no mundo em busca de sentidos outros para a vida.

[Texto publicado, originalmente, no Correio das Artes e na revista Diversos Afins]

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

Um mergulho nas entranhas do Brasil do atraso e da corrupção



Por Geraldo Lima
           
De quatro em quatro anos, durante as eleições para o Legislativo e o Executivo, somos bombardeados pelos discursos vãos dos políticos. Apresentando-se como políticos profissionais [dizem-se “experientes”] ou como não políticos [nova maneira de iludir o eleitor ao exibir uma pureza que não coaduna com o universo da política], todos têm como objetivo conquistar a confiança e a esperança do povo. Isso exige uma retórica mais condizente com os anseios da população, assim como a disposição para o corpo a corpo na caça ao voto e o uso de novos recursos tecnológicos, como a Internet, para alcançar o eleitor com mais eficácia. Em outros tempos, como bem o sabemos, o modo de aliciamento de eleitores dava-se de forma mais direta, sem a intermediação do discurso de convencimento. Para tanto, colocava-se em prática o conhecido e abominável “voto de cabresto”. Era dessa maneira que os temidos Coronéis mantinham com pulso firme os seus currais eleitorais no interior do país. Embora pensemos que esse modo nefasto de fazer política encontre-se completamente fora de uso no Brasil, ele continua a ser praticado, só que agora de modo mais velado, encoberto com nova roupagem. O jogo democrático, assim como a modernização do processo eleitoral, com adoção de novos meios para coletar e aferir os votos, como é o caso da urna eletrônica, não inibem completamente as velhas práticas de aliciamento eleitoral. Pelo menos é isso que o livro Os Aliciadores, de Lourenço Dutra [romance, Pulp BsB Edições, 2016, 174 páginas], procura nos mostrar com uma narrativa irônica e sem lirismo.

A LIGAÇÃO DA HISTÓRIA FICCIONAL COM A HISTÓRIA REAL

A história contada nesse romance de Lourenço Dutra nos é bem familiar, faz parte das entranhas podres do nosso sistema político, senão, vejamos: Dioclécio e Alberto são aliciadores de eleitores para a reeleição do governador Jorge Boriz, no Distrito Federal. E é de forma direta, sem disfarce, que os dois se aproximam dos possíveis candidatos. Tomemos como exemplo este diálogo que Alberto trava com um deles:
 “– E o que eu preciso fazer?
– Nada de mais, somente transferir o seu título de eleitor pra lá.
Ele riu.
– Ah, eu entendi. É pra votar em quem?
– Pra votar na reeleição do governador Jorge Boriz.”
No momento, a missão dos dois é ir ao interior da Bahia, às margens do rio São Francisco, para arrebanhar eleitores entre a gente pobre [sem-terra, desempregados, ciganos maltrapilhos, pequenos comerciantes sem perspectiva de futuro etc.] e levá-los para o DF, com a promessa de ganharem lotes e outros benefícios para votar no tal Jorge Boriz. Nesse ponto, Lourenço não é nem um pouco sutil, nem faz questão de sê-lo: para quem mora no Distrito Federal, é clara a referência a um conhecido político que governou o Distrito Federal durante um bom tempo exatamente com essa estratégia de doar lotes às pessoas pobres com o objetivo de obter delas o voto. Ou seja, a nefasta prática do “voto de cabresto”, neste caso, sob a embalagem do espírito de benfeitor ou de “pai dos pobres”.  E as promessas são mesmo irrecusáveis:
“– Somos enviados do governador Jorge Boriz e viemos fazer um convite pra vocês. Que tal se mudarem para uma cidade em início, com garantia da escritura do lote, água, luz, saneamento básico, cesta básica e um botijão de gás mensal, de graça?”
Ou então esta:
“– Com Jorge Boriz não tem erro! O homem é bom, bom mesmo, pai dos pobres de verdade!”  
O romance Os Aliciadores filia-se a essa linhagem de obras de ficção que fazem da sátira sua marca maior, seu diferencial em meio ao comodismo e ao bom-mocismo. Seu deboche é corrosivo e provoca um rebaixamento no comportamento de tipos respeitáveis perante a sociedade, e aí entra o político, o homem de negócios, o gestor público, a esposa do prefeito, o filho do fazendeiro etc.  É impiedoso no modo de lidar com essa gente, de caracterizá-la física e psicologicamente. “Nesse instante, a mulher que portava dentes de chiclete Adams soltou um grito histérico e se pôs a brigar com a mocinha que fazia os seus pés.” A figura retratada desse modo zombeteiro é a esposa do prefeito de Ibotirama do Leste, na Bahia, cidade onde Dioclécio e Alberto se encontram para executar o seu trabalho sujo.


A CARACTERIZAÇÃO DOS PERSONAGENS E A ESTRUTURA DO ROMANCE

Dioclécio e Alberto, protagonistas dessa história, são psicológica e moralmente antagônicos. Embora atuem juntos, cumprindo a mesma missão de arrebanhar eleitores de modo fraudulento, não costumam apresentar o mesmo tipo de comportamento em relação ao seu trabalho. Vemos, às vezes, Alberto vacilar e questionar a sua atividade, enquanto Dioclécio, sem escrúpulo moral algum, segue adiante sem se questionar.
“– Oferecemos o que não é nosso e nem do Jorge Boriz. Oferecemos terra que não é nossa...
– Ô, Alberto! Sinceramente? Foda-se! Não me venha com esse papo de terra pública, com essa frescurada de preservar o meio ambiente (...).”
Se Alberto vive um drama familiar [está em vias de se separar da esposa, que o trai com o pastor da igreja], Dioclécio, pelo contrário, vive muito bem seu estilo macho-comedor e bom de porrada. Se mete em confusão, ora por conta de se envolver com mulher alheia, ora por topar com tipos arrogantes, como o jovem gaúcho que ele humilha em plena rua ao lhe aplicar uma tremenda surra. Mas algumas de suas atitudes podem surpreender, como da vez em que ele toma as dores de um jovem homossexual agredido por um grupo de filhinhos de papai [e aqui o quase vilão Dioclécio ganha ares de herói, desconstruindo a sua péssima imagem frente ao leitor].
Também parecem se diferenciar no aspecto físico, ainda que só as características físicas de Dioclécio estejam mais definidas, com seus traços negroides [“Virei-me de lado e olhei seu perfil com nariz achatado, cabelos pretos, boca carnuda”]. Alberto seria branco? Como narrador, ele fala pouco de si, focando mais na figura do companheiro de trabalho, visto por ele quase sempre de forma negativa: “No final da tarde me separei de Dioclécio. Esse sujeito, por muito tempo, me cansa. Grosseria, mau-caratismo e senso comum em excesso”.
O romance é dividido em partes, quatro ao todo, cada uma com um título, e em capítulos, cada um também com seu respectivo título [“Pesquisa de campo”, “Os donos da cidade”, “Rock às margens do Velho Chico” etc.], que já adianta ao leitor o que irá ser tratado aí. O narrador da história é Alberto, como já foi dito, e, através do seu olhar ainda humanizado, podemos ter um recorte crítico da realidade e das ações empreendidas pelos envolvidos na trama. Embora o autor procure conduzir sua narrativa com segurança e agilidade, há alguns diálogos que se estendem demais e poderiam ser descartados em nome de uma maior fluidez da narrativa.  

A GENTE POBRE E SEU DESTINO NO ROMANCE DE LOURENÇO DUTRA

A narrativa de Os Aliciadores vai nos conduzindo pelos meandros do poder no interior brasileiro e expondo todas as suas mazelas. O romance, nesse aspecto, ganha uma importância grande, pois trata de um assunto nem sempre valorizado pelos nossos autores, quase sempre focados em dramas vividos por tipos brancos e da classe-média nos grandes centros urbanos do país. No romance do brasiliense Lourenço Dutra, professor de História e graduado também em Jornalismo, é o povão desamparado que aparece na mira dos políticos aproveitadores, como Jorge Boriz. E o que se cobra dessas pessoas, prisioneiras das necessidades mais básicas, é que ajudem os poderosos a manterem sua hegemonia política. Em tempo de eleição, esta pode ser uma leitura bastante instigante. Fica então o convite para que o leitor [também eleitor] mergulhe na trama dessa obra que mistura ação, violência, sexo, amor, crítica social e sátira, para chegar, enfim, ao Brasil profundo, sinônimo de atraso e corrupção.      

[Texto publicado, originalmente, no caderno de cultura do Jornal Opção, em Goiânia]

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Contos que traduzem a conflitante realidade do povo negro brasileiro




Por Geraldo Lima

Cristiane Sobral [poeta, escritora, atriz, diretora e professora de teatro, nascida no Rio de Janeiro e radicada em Brasília] é uma das vozes mais contundentes da literatura negra brasileira. E, ao falar de literatura negra, falo do texto literário (poesia ou prosa) que, segundo Zilá Bernd, no seu livro Introdução à literatura negra (Editora Brasiliense, 1988, pág. 95), “configura-se como uma forma privilegiada de autoconhecimento e de reconstrução de uma imagem positiva do negro”. É, também, literatura que tem o compromisso de denunciar a discriminação racial e o quadro de exclusão em que vive a maior parte da população negra no Brasil. É, em suma, uma literatura que se propõe como militante, engajada, com todos os riscos que isso acarreta. E é assim nos dezoito contos que compõem o livro O tapete voador (Editora Malê, 2016), de Cristiane Sobral.

Nesse seu livro, Cristiane Sobral nos dá mostra de como esse tipo de narrativa se propõe como objeto estético e, ao mesmo tempo, como instrumento de conscientização do indivíduo negro sobre a importância de assumir a sua verdadeira identidade racial e cultural. O confronto, aí, é contra a ideologia do embranquecimento. A estratégia, nesse caso, é tomar uma situação cotidiana que exponha o problema da discriminação racial ou do conflito identitário do negro brasileiro, de modo objetivo, quase didático, de maneira que o leitor saia da leitura do texto com sua consciência mudada, ou, na linha do que alguns dos contos de O tapete voador sugerem, renasça com nova identidade cultural ou resista sem abrir mão das suas convicções raciais.

De imediato, ficamos tentados a ver nesse tipo de procedimento literário um defeito ou uma pobreza estética, ao qual faltaria sutileza na construção da narrativa e na representação psicológica das personagens. Sobre isso, nos alerta Zilá Bernd (ibid., pág. 98): “Assim, em literatura negra, a questão de avaliação do nível estético atingido não deve se pôr como elemento exclusivo de análise, ou como preocupação única da crítica. Jack Corzani, autor da importante obra La Littérature des Antilles-Guyane Françaises (1978), (...) recoloca o problema de privilegiar o estético no estudo de obras que se querem essencialmente funcionais, concluindo que esse critério corresponderia a condenar a pesquisa, a priori, à esterilidade”. Assim, devemos ver, em primeiro plano, o caráter de funcionalidade desse tipo de procedimento narrativo para explicitar, no caso, os problemas raciais e sociais que afetam o negro brasileiro.

E é de modo consciente e corajoso que Cristiane se equilibra entre estes dois polos (o estético e o ideológico) na construção dos dezoito contos que compõem esse seu livro. A sua habilidade na construção da narrativa que privilegia o elemento estético e a fabulação fica visível no conto Bife com batatas fritas. Nesse conto, a questão estética e a temática social são bem articuladas, de modo que o leitor não tem como não se comover com o quadro de miséria e orfandade de uma criança de periferia. Esse é, aliás, um dos melhores contos do volume e poderia figurar em qualquer antologia dos melhores contos brasileiros. No conto O limpador de janelas, o que chama a atenção é o modo como a narrativa se constrói a partir de frases muito curtas, fragmentadas, o que torna o ritmo acelerado e surpreendente, dando conta das várias peripécias amorosas do protagonista. Ao final, o personagem Samuel, um quase pícaro, um “pegador” nato, verá que a sua condição de negro em terras tupiniquins vai sempre lhe reservar surpresas desagradáveis. Por falar em final, é de se observar que há, propositalmente, um elevado tom de idealização em alguns casos, beirando o inverossímil, como o que acontece no conto Metamorfose, em que tudo acaba exageradamente bem.

Ainda que predomine o realismo, algumas histórias flertam com o fantástico, como nos contos O galo preto e A samambaia.  O tom de sarcasmo, de deboche e de ironia molda algumas dessas narrativas, tornando ainda mais agudo e crítico o olhar da autora sobre os episódios de discriminação racial e de negação da própria negritude, como é o caso dos contos Lélio e Afrodisíaco (neste, ironiza-se o propalado vigor sexual dos negros). Ora narradas em terceira pessoa, ora em primeira – nesse caso, majoritariamente narradas por mulheres –, as histórias compõem um painel de situações variadas em que o indivíduo negro se vê frente a frente com a questão do preconceito racial, da miséria ou da crise de identidade. A subjetividade feminina é também ponto de destaque nessas histórias de enfrentamento e reconstrução da imagem, como nos contos Vox mulher, em que a protagonista expressa, numa linguagem marcadamente poética e intensa, seus desejos e seu orgulho de ser mulher negra, e Pixaim, no qual uma mulher rememora, de modo comovente, sua infância passada no Rio de Janeiro e marcada pelo sofrimento de se ver obrigada a mudar sua imagem, com o alisamento desastroso do cabelo, e reafirma, já residindo em Brasília, seu orgulho e sua alegria de se ver no espelho como ela realmente é: uma mulher negra e madura. “A gente só pode ser aquilo que é”, afirma ao final, num claro recado aos que procuram negar a sua origem.  

Nem sempre os personagens são pessoas que negam a sua negritude. Algumas, pelo contrário, assumem a sua ancestralidade e suas características negras e as defendem com convicção. Tomemos, como exemplo, o conto O tapete voador, que abre o volume, e o conto Renascença, que o fecha. No primeiro conto, narrado em terceira pessoa, a personagem Bárbara, de origem humilde e orgulhosa da sua cor, é funcionária de uma grande empresa e tem o reconhecimento pelo seu trabalho. No momento, ela pretende se aperfeiçoar mais ainda e pede o apoio da empresa para fazer uma pós-graduação. Mas qual não será o seu espanto e a sua decepção ao ser levada à presença do presidente, que deve autorizar esse apoio, e encontrar lá, no posto mais alto, um homem negro? A decepção ficará por conta do que ele, partindo da sua estratégia de ascensão profissional e social, vai lhe aconselhar a fazer em relação à sua aparência. No segundo conto, também narrado em terceira pessoa, encontramos a personagem Teresa prestes a romper com a sua orientação religiosa. Negra, charmosa e orgulhosa da sua cor, sente-se preterida pelos homens negros da igreja evangélica que ela frequenta. “Teresa gostava muito da sua igreja, mas seu corpo negro também sentia naquele ambiente o peso do preconceito, da discriminação. Isso gerava muitos questionamentos. Por que não despertava o interesse dos rapazes da congregação? (...) O fato é que, naquela comunidade, os homens negros normalmente costumavam casar com mulheres brancas...”  O fato de ser independente e ter um estilo próprio (“não alisava os cabelos”), chocava os outros fiéis, e sempre era aconselhada a mudar a sua aparência. Assim como Bárbara, só lhe resta resistir e ir em busca de um convívio em que seja valorizada sem precisar negar a sua identidade racial.

Num país em que a representativa da população negra é baixíssima nos circuitos literários, nos quais circulam com maior desenvoltura as obras dos autores brancos e das autoras brancas, é de se celebrar o trabalho de escritores e escritoras como Cristiane Sobral, que dão voz e vez em suas narrativas e poemas à nossa gente tão excluída. 

[Resenha publicada, originalmente, na revista eletrônica Diversos Afins e no jornal Correio Braziliense]