segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
A narrativa ácida e inquietante de Rodrigo Novaes de Almeida
Por Geraldo Lima
Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros
contos [Patuá
Editora, 2018], do escritor e editor Rodrigo Novaes de Almeida, traz vinte
contos relativamente curtos que escancaram, com uma linguagem direta, sem
rebuscamentos e pudores vocabulares, uma realidade dura, incômoda, em que os
afetos e a esperança não prosperam. A obra, que esteve entre os semifinalistas
do Prêmio Jabuti 2019, é um exemplo da literatura contundente e essencial que
se produz hoje no país.
Dito assim, entendemos logo que não se trata de literatura de entretenimento. Nada de prosa água com açúcar. A arma de fogo, o falo ereto, a masturbação, a violência urbana, a indiferença permeiam as histórias narradas, ora na primeira pessoa, ora na terceira. A temática, nesse caso, contempla, na maioria dos casos, o lado sombrio do ser humano. “Eu era uma criança que desejava crescer logo, odiava não ser levado a sério pelos adultos. Eu enxergava o desdém nos seus olhos. Tinha vontade de matar todos eles. O sentimento mudou um pouco aos doze anos, quando ganhei de dia da criança minha primeira arma de fogo” [pág. 75]. Como não enxergar, nessa criatura, um dos muitos tipos que foram forjados nesse caldo de brutalidade e boçalidade que hoje gangrenam nosso mundo?
Ao adentrarmos as páginas do livro de
Rodrigo Novaes, vamos nos deparar com a realidade brutal e distópica dos nossos
dias e com os mistérios e pavores que rondam a vida humana. Num conto como Ondina, é o mistério, avizinhando-se do
terror, que impera; já em Voyeur, a
violência e a indiferença diante do ato atroz.
Que fique então bem claro: o autor não tem, realmente, com essas narrativas
cruas e mergulhadas no mundo abissal da violência, do abuso sexual na infância,
do voyeurismo, da solidão urbana, da masturbação desenfreada etc., a intenção
de apaziguar o espírito do leitor ou da leitora. Sua narrativa é do tipo que
provoca o desassossego, a reflexão sobre a natureza humana e suas atitudes, às
vezes, desprovidas de lucidez e afeto.
Rodrigo tece sua narrativa sem
aliviar a mão, usando, às veze, frases curtas, que nos colocam diretamente em
contato com a mais devastadora realidade, como a do conto Aos oito anos: “papai morreu em um acidente de carro quando eu
tinha quinze anos. meu presente torto de debutante, ter me livrado daquele
homem. dois mil quinhentos e cinquenta e oito dias, como foi que eu esqueci?”. Além disso, usa da sutileza de fazer com que
elementos de uma história apareçam em outra, criando, dessa maneira, um elo entre
elas, um sentido de continuidade. Há que se prestar atenção nesse detalhe para
entender, inclusive, o que acontece em determinada história.
Ao concluirmos a leitura da obra Das pequenas corrupções cotidianas que nos levam à barbárie e outros contos, somos, de imediato, instigados a pensar na contística de Rubem Fonseca e Dalton Trevisan, que têm retratado, de modo preciso e implacável, esse universo sombrio das relações humanas, contaminadas, principalmente, pela violência e pela secura de afetos. Nessa linha de construção de uma narrativa ficcional que nos assombra e nos lança na inquietude, Rodrigo Novaes de Almeida se apresenta como um dos mais promissores escritores da sua geração.
[Resenha publicada, originalmente, no Jornal Opção]
quarta-feira, 23 de dezembro de 2020
Um recorte da construção de Brasília no romance de Lima Trindade
Por Geraldo Lima
Brasília tem servido de cenário ou
tema para obras de gêneros literários diversos, mostrando, com isso, sua
importância como centro do Poder e, ao mesmo tempo, como cidade que vai, aos
poucos, criando sua própria identidade cultural. Quase sempre a vemos retratada
já como centro urbano consolidado, em pleno desenvolvimento, exibindo tanto sua
beleza arquitetônica, seu inusitado plano urbanístico, quanto os problemas
sociais que a cercam ou espalham-se em seu interior. Vê-la retratada ainda
durante a sua construção, ora com olhar de encanto, ora com olhar de crítica
severa, é coisa rara de se ver. Em As
margens do paraíso [romance, Cepe Editora, 2019, 269 páginas], o escritor
Lima Trindade, nascido em Brasília e vivendo atualmente em Salvador, cumpre
esse papel e nos transporta para o cenário de avenidas empoeiradas, canteiros
de obras sob o comando de empreiteiras e empresas públicas, alojamentos precários,
escritórios, boates e zonas de baixo meretrício, numa Brasília que marcha para
ser inaugurada, impreterivelmente, no dia 21 de abril de 1960.
Antes, porém, de fazer com que a vida de seus protagonistas – três jovens brancos de diferentes camadas sociais – convirja para esse cenário épico da construção da nova capital do país, ele apresenta cada um deles em sua respectiva cidade: Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro. É nessas localidades, distantes umas das outras, que vemos como se deu a formação intelectual e afetiva desses jovens e de como os ecos da construção de Brasília chegavam até eles.
A ESTRUTURA DO ROMANCE E A VIDA DOS
PERSONAGENS
Como há dois momentos importantes
marcando a vida dos protagonistas Leda, Rubem e Zaqueu, Lima Trindade optou,
acertadamente, por dividir o livro em duas partes.
Na primeira, a narrativa é feita em
1ª pessoa e cada capítulo recebe o nome do narrador-personagem [Leda, Rubem,
Zaqueu], assemelhando-se, nesse aspecto, ao romance Enquanto agonizo, de Faulkner. Desse modo, ficamos sabendo das
frustrações, desejos e aspirações de cada protagonista, quase sempre em confronto
com o meio em que vive. Leda sofre ao ser explorada na casa do padrinho, em
Juazeiro, enquanto sonha com os artistas do rádio e do cinema. Aos poucos, o
desejo que sente pelo padrinho vai complicando sua vida, a ponto de levá-la a
um desfecho trágico. Rubem, ao mesmo
tempo em que se anima com a ascensão no emprego, frustra-se na vida amorosa, e
isso será decisivo para que mude radicalmente seu projeto de vida longe dos
bares e praias do Rio. Zaqueu, filho de pais ricos, pertencentes à elite anapolina,
rebela-se e nega-se a continuar os estudos. O pai, que o leva ao prostíbulo
para que se inicie na vida sexual, é o mesmo com o qual tem duros embates.
Todos eles, impactados por acontecimentos trágicos, como é o caso de Leda e
Zaqueu, ou frustrantes, no caso de Rubem, vão amadurecer e ganhar,
praticamente, uma nova personalidade no universo agitado e tenso da capital que
se ergue em pleno cerrado.
Na segunda, ainda que haja dois
capítulos curtos, que recebem também o nome do narrador-personagem [Mauro] e
com narrativa em 1ª pessoa, vai predominar a narrativa em 3ª pessoa no longo
capítulo intitulado “Brasília”. No novo
cenário de cidade em construção, de busca de novos horizontes, de adaptações ao
novo ambiente, o narrador onisciente cumprirá bem a função de nos apresentar os
personagens com maior riqueza de detalhes, tanto física quanto psicológica.
Assim, ficará bem clara a mudança de caráter de Zaqueu e de estilo de vida de
Rubem, e isso terá papel fundamental no desfecho da história. O uso do narrador
onisciente permitirá, também, que o autor nos forneça um panorama das
atividades desenvolvidas na construção da capital, envolvendo desde as
empreiteiras até os prostíbulos na Cidade Livre, os quais, de certo modo,
ganham relevo nesta narrativa de Lima Trindade. Aliás, o sexo tem um grande
destaque nessa história, chegando a influenciar no seu andamento. Assim,
podemos perceber que é nos prostíbulos e boates da Cidade Livre que ocorrerá
boa parte dos encontros dos personagens. “Zaqueu estivera em outros bordéis da
Cidade Livre antes. Divertira-se, bebera e, afora o prazer que desfrutara nos
braços femininos, descobriu ser nesses espaços que as oportunidades de negócios
se apresentavam com maior frequência. Não quaisquer negócios. Mas justamente os
mais lucrativos. Assim como não se apresentavam em quaisquer bordéis” [página
180].
É interessante observar também que a
construção frasal muda de uma parte para outra. Na primeira, ouvimos a voz de
cada protagonista narrando, no presente, seu cotidiano e os conflitos nele
inseridos, e sempre num ritmo mais acelerado, entrecortado, devido ao uso sistemático
de frases curtas. Esse procedimento está bem de acordo com a estratégia
narrativa adotada pelo autor para esse momento da história. Já na segunda, sob
a ótica do narrador onisciente, com amplitude de olhar, as frases longas imprimem
à narrativa, que se dá no passado, um ritmo mais lento e possibilitam um maior
detalhamento do espaço, dos estados psicológicos e das características físicas
dos vários personagens que aí transitam.
PESQUISA HISTÓRICA E IMAGINAÇÃO
As margens do paraíso é fruto de apurada pesquisa histórica realizada por Lima em cada
localidade em que ocorrem os fatos narrados. Durante sua leitura, deparamo-nos
com personagens reais envolvidos na construção de Brasília, como é o caso do
político Israel Pinheiro e do escritor e também engenheiro Samuel Rawet, e com
fatos do conhecimento de todos hoje em dia, como o massacre no alojamento da
Pacheco Fernandes. No livro, já com a interferência da imaginação do autor,
assistimos a esse triste episódio acontecer em outro lugar: “Meia hora depois,
dois caminhões repletos de soldados da GEB ultrapassaram a fronteira dos
portões da Estevão Muniz e estacionaram na parte dianteira do alojamento de
solteiros, onde havia a maior concentração de operários da empreiteira” [página
258]. Em Juazeiro, Anápolis e Rio de Janeiro, percebe-se o cuidado do autor em
apresentar ambientes e situações culturais pertinentes ao momento histórico em
que os personagens vivem. Vemos já a presença de mulheres com discurso e
postura feminista, jovens articulando ações de esquerda no ambiente estudantil,
uma juventude influenciada pelas novidades no campo da música e da moda etc.
Assim, a trama deste primeiro romance
de Lima Trindade envolve um elemento ficcional, em que a imaginação do autor
molda e move as ações dos personagens, até se cruzarem no cenário da construção
de Brasília, e um elemento histórico, que serve tanto como cenário, ou pano de
fundo, quanto como elemento fundamental no desenvolvimento da história e do seu
desfecho.
Lima Trindade, nesta sua obra, além
de nos apresentar de modo intenso a trajetória de três jovens brasileiros na
década de 1950, nos transporta a um momento singular da história do nosso país,
em que se sonhou verdadeiramente grande. Porém, ele não se furta ao dever de apontar
os sérios problemas que essa empreitada, levada a cabo por Juscelino Kubitschek,
produziu, como, por exemplo, a exploração da mão de obra dos candangos pelas
empreiteiras. Em As margens do paraíso,
como o título mesmo sugere, de modo irônico, já anunciam-se os graves problemas
sociais que ainda hoje cercam o Plano Piloto e dão conta do fracasso do sonho de
JK, Oscar Niemeyer e Lúcio Costa.
[Resenha publicada, originalmente, na revista digital Diversos Afins]
segunda-feira, 7 de dezembro de 2020
Duelos: ou o descortinar da tragédia cotidiana que nos assombra
Por Geraldo Lima
Eltânia André,
mineira de Cataguases, estreou na literatura com o livro de contos Meu nome agora é Jaque [Rona Editora,
2007]. Esse livro reúne várias histórias contadas por um único narrador [um
contador de causos, podemos dizer
assim], o Tizé, que, aposentado, passa a se denominar Jaque [“Já que estou aqui
no mundo, vou viver plenamente cada dia”, pág.146]. São histórias que se passam
no interior e são contadas num tom leve e bem-humorado. No seu segundo livro, Manhãs adiadas [contos, dobra
literatura, 2012], a autora dá uma guinada no tom narrativo: as histórias,
narradas por vozes diversas, são densas e desvelam o cotidiano de vidas humanas
marcadas pela desilusão e pela falta de perspectiva. Assenta-lhes bem o verso
do poeta Manuel Bandeira no poema Pneumatórax:
“A vida inteira que poderia ter sido e que não foi”. Agora, em Duelos [contos, Editora Patuá, 2018],
Eltânia nos apresenta uma série de histórias em que adensa mais ainda o tom
narrativo, expondo com lirismo e, às vezes, com secura, o desencanto da vida
contemporânea num Brasil sitiado pela violência e pela mercantilização da vida
humana.
O livro já abre com um conto impactante, intitulado Uma das mil e uma noites, no qual a autora apresenta um recorte aterrador do Brasil atual: a violência contra homossexuais perpetrada por indivíduos de tendência fascista. “Um dos pontapés atingiu o crânio. Outro quebrou uma costela. O chute na cara. Bicha” (pág. 9). É esse espírito de extermínio, que contaminou a alma de parte do nosso povo, solapando o conceito de cordialidade do brasileiro, criado pelo historiador Sérgio Buarque de Holanda, que esse conto expõe com crueza. É tão forte e apavorante a cena descrita que, a certa altura, o autor interrompe a sua criação, enojado: “...o sujeito ia partir para o ato – eu asfixiado, sem planejamento, retiro os dedos do teclado num átimo de lucidez, tentando estabelecer em que mundo dormitava meu pesadelo” (pág. 13). Podemos vê-lo, sufocado, premido pela necessidade de mostrar ao mundo essa atrocidade e, ao mesmo tempo, tomado pela sensação de impotência ante o terror: “Salve a Wanderléa, porra! Resignado, entendo que nunca pude salvar ninguém. Apenas indignar-me. Sinto náuseas. Não me reestabeleço. Os personagens assaltam-me, pedem para que a literatura seja vida e sopre neles o espírito que os moverá” (pág. 13). A metalinguagem aqui não se apresenta como mero artifício, mas, sim, como meio para expor os limites da criação literária e o papel do escritor diante do horror que nos sitia: “Estamos sitiados. Peço desculpas àquele poeta que sussurrou pela rede seu apelo por histórias mais líricas, poéticas e ternas – que também me rodeiam –, contudo elas hão de esperar, porque o mundo é esse caos obsessivo e possesso ladrando nos quintais” (pág.14).
Frente à ameaça
de perda das liberdades democráticas e da escalada da violência, o escritor
brasileiro parece se encontrar de novo diante da questão que Luís Costa Lima
tentou responder no seu livro Por que
Literatura? (Editora Vozes, 1969). Expondo sempre a importância de se
valorizar a questão estética e nos alertando para o risco da simplificação da
linguagem em busca de uma comunicação direta, ele escreve num dos ensaios que
compõem o livro: “A tarefa da literatura continuará a ser, agora como antes, a
de atingir e a de trazer na palavra a raiz das coisas onde se deposita a raiz
do homem” (pág. 38). Imerso nesse dilema e nessa crise, o
autor/personagem/narrador do conto de Eltânia se socorre das palavras de Ortega
y Gasset [“eu sou eu e minha circunstância”], sabendo que não poderá jamais
fechar os olhos para o mundo ao seu redor. “Ainda há para contar pelo menos
outras mil histórias que não recolhi na Pérsia distante de Sherazade” (págs. 14
e 15). O como contar essas histórias, sem prejuízo do fator literário, é a
questão que se impõe agora, e isso, como podemos ver nos demais contos de Duelos, Eltânia faz com perícia e
extrema sensibilidade.
EXPERIMENTALISMO,
BELEZA ESTÉTICA E TEMÁTICA RELEVANTE
Em pelo menos
quatro dos contos de Duelos, Eltânia
explora o aspecto experimental da narrativa. São eles: Uma das mil e uma noites, Enquanto lia Faulkner, Matança de passarinhos
e Teatro a céu aberto.
Em Uma das mil e uma noites, como já
destaquei, há o corte abrupto da narrativa, no momento em que se intensifica a violência
contra o personagem homossexual, para dar voz ao autor que, diante da gravidade
da situação, sente-se incapaz de seguir adiante com a história que está
contando. Só o narrar, no plano da imaginação, não lhe basta mais. A realidade
que o cerca é brutal demais e precisa ser denunciada. “Então, entendo
finalmente que eu preciso falar do nosso assombro, preciso falar da violência”
(pág. 13). Nesse instante, o narrativo e o argumentativo se mesclam para dar
conta da necessidade de desabafo do autor. No conto Enquanto lia Faulkner, temos uma narrativa em várias vozes: a do
moribundo, a do irmão, a da esposa e a de outros parentes que estão ao lado do
leito de morte do protagonista. É uma cena bastante teatral. São blocos de
narrativa, de monólogo, de fluxo de consciência, que se justapõem para nos
revelar o universo de hipocrisia e superficialidade das relações familiares no
meio burguês. O título e a própria estrutura do texto fazem referência, como se
pode notar, ao maravilhoso romance de William Faulkner, Enquanto agonizo. Matança de
Passarinhos, que nos mostra o inseguro e tenso mundo de um grupo de
crianças vivendo em meio a tiroteios na periferia, mais especificamente no
trajeto escola-casa, estrutura-se como um texto-coral, ou narrativa-coral, em
que as vozes, tensionadas pelo risco de morte iminente, se sucedem num falar exaltado
e sem prévia indicação. Desse modo, temos uma visão precisa da situação caótica
e violenta em que vivem essas crianças, que são abatidas como se fossem
passarinhos. Teatro a céu aberto, como o título aponta, tem muito a ver com
teatro mesmo: a estrutura do texto é o de uma peça teatral. O diálogo, embate
ou duelo, dá-se entre o Narrador e Romeu, e mais uma vez discute-se aqui a
questão literária ou o real poder da literatura. “Há a pergunta com a resposta
implícita: a literatura muda o mundo?”, indaga o Narrador a Romeu (pág. 110). O
Narrador, neste caso, tem o poder de demiurgo e pode decidir sobre o destino do
personagem, no caso, Romeu, este uma clara referência ao personagem de Shakespeare.
Metalinguagem e mistura de gêneros literários fazem-se presentes também neste
texto, dando conta da grande habilidade da autora de transitar entre as várias
camadas da criação estética.
Compondo ainda o
volume, temos dois contos de extrema beleza estética e força literária. São
narrativas em que a densidade poética da linguagem e a presença de frases,
geralmente curtas, tornam o conteúdo ainda mais expressivo e impactante. O
primeiro, Águas de dezembro, nos
introduz no ambiente de pobreza, assolado todos os anos pela fúria da natureza [no
caso, as cheias do rio], no qual uma mulher, marcada pela passagem do tempo e
pela tragédia, tem ainda disposição para “garimpar sombras nessas águas-barcas
do Lava-pés, riozinho da vida que corre em nós” (pág. 69). O segundo é Barreira liberada, que nos fala de um
amor lésbico e da angústia da espera. Aos poucos, vamos conhecendo a
personalidade complicada da protagonista e sua busca por um viver intenso. “Fui
embora, batendo a porta. Mais uma que fecho” (pág. 96). E olhem só a beleza
desta imagem: “Macia sua pele, seu perdão” (pág. 96). É, para mim, uma das narrativas ficcionais
mais belas escritas em língua portuguesa. Merece estar em qualquer antologia
dos melhores contos do século XXI. Desse modo, devemos prestar mais atenção à
produção literária da mineira Eltânia André, que vem dando mostras de estar,
cada vez mais, afiada no trato com a linguagem literária e com aflorada
sensibilidade para captar as angústias do ser humano e retratar criticamente as
mazelas sociais do nosso país. linguagem e a presença de frases,
geralmente curtas, tornam o conteúdo ainda mais expressivo e impactante. O
primeiro, Águas de dezembro, nos
introduz no ambiente de pobreza, assolado todos os anos pela fúria da natureza [no
caso, as cheias do rio], no qual uma mulher, marcada pela passagem do tempo e
pela tragédia, tem ainda disposição para “garimpar sombras nessas águas-barcas
do Lava-pés, riozinho da vida que corre em nós” (pág. 69). O segundo é Barreira liberada, que nos fala de um
amor lésbico e da angústia da espera. Aos poucos, vamos conhecendo a
personalidade complicada da protagonista e sua busca por um viver intenso. “Fui
embora, batendo a porta. Mais uma que fecho” (pág. 96). E olhem só a beleza
desta imagem: “Macia sua pele, seu perdão” (pág. 96). É, para mim, uma das narrativas ficcionais
mais belas escritas em língua portuguesa. Merece estar em qualquer antologia
dos melhores contos do século XXI. Desse modo, devemos prestar mais atenção à
produção literária da mineira Eltânia André, que vem dando mostras de estar,
cada vez mais, afiada no trato com a linguagem literária e com aflorada
sensibilidade para captar as angústias do ser humano e retratar criticamente as
mazelas sociais do nosso país.
sexta-feira, 21 de agosto de 2020
A live
Do nada, decidiu fazer uma live.
Pensou em convidar os amigos [os das
redes sociais, os do chope no boteco] e os parentes mais próximos para o
evento? Que nada! Não postou cartaz no Instagram nem no Facebook, tampouco o mandou
no direct ou no inbox. Não convidou ninguém pelo WhatsApp, embora tivesse um número
bastante expressivo de pessoas na sua lista de contatos.
Nada, nada, nada. Simplesmente decidiu
e, na mesma hora, apareceu no Instagram diante de uma multidão de usuários da
rede cegos para a sua figura anônima.
Andrezinho acabara de entrar, para
verificar quantas pessoas haviam visto e curtido o seu post de uma selfie que
fizera à noite, só de pijama, quando deu de cara com a live do Jorjão. Na verdade, deu de cara com sua cara redonda
aparentemente travada numa expressão que não denotava a que viera. Jorjão nem
piscava. Os lábios grossos pareciam grudados com cola. A respiração parecia bem
controlada, como se não entrasse nem saísse ar pelas narinas. Nem o aviso de
que o amigo acabara de entrar mudou a fria expressão do seu rosto. Nem o
segundo aviso de que outra pessoa havia entrado, a usuária laura_2233, alterou
sua fisionomia fechada.
Que merda é essa?!, Andrezinho se
perguntava. Então o cara ia fazer uma live
[era uma live aquilo, não era?] e nem
o havia convidado? Grande amigo, hein? Já meio puto, tanto com a falta de ação
do outro quanto com o fato de ele não o ter avisado, resolveu lhe perguntar do
que se tratava aquilo. Mas a mulher que havia entrado há pouco, talvez mais
ansiosa que ele, perguntou primeiro.
Jorjão respondeu? Que nada! Continuava
exibindo, impávido, a mesma cara negra travada num frame que não seguia adiante nem a pau.
A essa altura, mais oito pessoas haviam
entrado, o que já era um bom público para uma live sobre a qual ninguém ficara sabendo. Mas Jorjão continuava na
dele, imutável. Há cinco minutos se encontrava assim, enquanto todos esperavam
pelo início da live [se é que já não
havia começado de fato]. O que levaria alguém sem status algum de celebridade ou subcelebridade, de artista famoso e
de relevante importância para a cultura nacional, ainda mais em meio a uma
quantidade absurda de lives pipocando
todos os dias no Instagram, no Facebook, no YouTube, na TV, todas na busca
frenética por audiência durante a pandemia de Covid-19, o que levaria alguém
nessas condições a se lançar numa live-surpresa
e permanecer assim, imóvel e enigmático como numa performance? Nesse ponto
Andrezinho se lembrou das performances da sérvia Marina Abramovic.
É uma performance, Jorjão?
Nenhuma palavra, nenhum gesto, nada,
nada. Só o olhar penetrante do amigo atravessando a tela do celular e batendo
direto no olhar dos espectadores virtuais.
A mulher, a laura_2233, vazara há
tempos. Restavam ainda nove curiosos, gente com tempo de sobra e muita
paciência para ficar ali, tentando decifrar a cara negra e intransponível do
Jorjão. A cara-performance do Jorjão.
Alguém entrou, deu uma espiada rápida e saiu. Mais dois aproveitaram a
deixa e caíram fora. Jorjão parecia não se incomodar com esse entra e sai. Uma amiga em comum dos dois entrou, ficou um
pouco, clicou no emoticon de mãos
batendo palmas, e foi-se também. Mais um saiu; antes, porém, escreveu: Que
porra é isso?! Um minuto depois, restavam Andrezinho e um persistente
aldodasilva3. Andrezinho estava doido pra se mandar, já não aguentava mais
aquilo, mas a curiosidade batia mais forte: queria saber aonde Jorjão pretendia
chegar com aquela esquisitice. Se aquela
imagem estática tinha algum significado, seria no campo da criação artística,
da provocação estética. Mas até onde sabia, ele não tinha veia artística
alguma. Sabia, sim, que gostava de tirar sarro com a cara dos outros, era um
gozador nato, e talvez fosse essa a sua intenção agora. Mas poderia ser também
um protesto: dia desses ele havia sido vítima de racismo, coisa que ele não
gostava de comentar, mas que o tinha magoado muito. Vai ver era isso.
Ou não.
Na real, Jorjão havia virado estátua
viva no Instagram, – e agora só restava Andrezinho contemplando sua
imobilidade.
Mais tarde, assim que ligasse para
ele, Andrezinho ia querer saber que
presepada tinha sido aquela. Mas ia tirar mesmo um sarro da cara dele só quando
passasse a pandemia do Coronavírus e os dois pudessem tomar de novo um chope
juntos. Até lá, máscara na cara e nada de aglomeração, que “o seguro morreu de
velho”.
Antes de sair, assim meio sem jeito de
deixar o amigo ali, sozinho, escreveu e publicou, Valeu, Jorjão! Em seguida,
clicou no emoticon das mãos batendo
palmas, – e mandou logo uns vinte, no exagero mesmo, só pra zoar o
performer.










