domingo, 22 de junho de 2014

Cena


Por Geraldo Lima


O tempo não estancou sua marcha implacável, e tudo continuou a desenrolar-se num realismo bruto e seco. A consciência dela, tampouco, fechou-se num quarto escuro, louca e insensível. Pelo contrário, aflorou-se ainda mais, ampliando, desse jeito, a dramaticidade do ato, o pavor e o princípio de remorso. O corpo dele, espasmódico no piso da sala, não era uma simples sensação. Assim como a mão direita dela, fraca e trêmula, pendendo pela força da gravidade e pelo peso do metal ainda quente.

segunda-feira, 16 de junho de 2014

Ombro

Por Geraldo Lima
 
Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o "Ação! gravando!" de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de "perder o rumo", "ficar sem norte", "andar à deriva", fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.

quinta-feira, 15 de maio de 2014

Uma Copa do Mundo de tirar o sono





Por  Geraldo Lima

Eu não sei se você, caro leitor, vive já em estado de apreensão com o que possa acontecer durante a tal Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014. Talvez você até responda, curto e grosso, que esse assunto não lhe interessa nem um pouco, que tem coisas mais importantes e urgentes para fazer.
 
Louvo, nesse caso, sua capacidade de se manter desligado de todo esse imbróglio em que nos metemos. Eu, da minha parte, sinto a pressão psicológica a cada notícia ruim a respeito desse mundial de futebol. Pior para mim, que não aprendi a me manter distante e alienado dos problemas que assolam nosso país. Problemas que só se avolumam.  E o atestado de incapacidade para resolvê-los, por parte dos que se dizem gestores públicos, vem de longa data. Os versos do poeta baiano Gregório de Matos Guerra, já no século XVII, não me deixam mentir:  A cada canto um grande conselheiro./que nos quer governar cabana, e vinha,/não sabem governar sua cozinha,/e podem governar o mundo inteiro”.

Embora pareça, não sou dos que acham que construir estádios modernos, “padrão FIFA”, seja algo ruim. Futebol, por estas plagas, é paixão nacional e não tem conserto – melhor, então, oferecer boas acomodações aos torcedores. Que isso faz parte também do Panis et circensis todos nós sabemos. É o ópio do povo? Sim, e vivemos entorpecidos aos milhões.

Então, o que está pegando? Ah, é o que já falaram: a falta de contrapartida, por exemplo, em termos de verdadeira melhoria na vida dos que sofrem em filas de hospitais públicos. Víssemos, a cada inauguração de um belo e moderno estádio, a inauguração de um moderno e equipado hospital público, nada teríamos a reclamar. E nem é preciso falar da situação sempre crítica da nossa Educação, necessitando de aparato tecnológico e pedagógico de país com vocação para o desenvolvimento.

Vai ser um mico essa Copa? Ou entrará em cena o jeitinho brasileiro para maquiar os problemas e vender ao mundo uma imagem de normalidade?  Em se tratando de Brasil, tudo é possível. Vivo, caro leitor, momentos de extremo pessimismo. Vergonha alheia é o que me assalta sempre. Será que vamos perder a chance de dar um salto de qualidade e mudar a cara desse país? Ou será que a cara dele é realmente essa em que todos se acham no direito de bater? Indignação é o que me tira o sono nessas horas. Pior para mim, não é?

(Este texto foi publicado, originalmente, no Jornal Opção, em Goiânia)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Trajeto



Por Geraldo Lima

Esperou por ela ali no quarto. 

Esperou que ela entrasse e fosse direto para o banheiro, como era de costume. Ah, sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Ouviu o baque da porta sendo fechada e em seguida o jato do xixi batendo na água do vaso sanitário. O barulho da descarga, da porta sendo aberta  e, por fim,  o som de passos vindo em direção ao quarto.

Esperou sentado na borda da cama. Mas a espera tornava-se mais longa do que ele desejava. Os passos pareciam fazer um trajeto enorme, como se de repente a casa tivesse triplicado de tamanho. Para aumentar-lhe a ansiedade, ela fez um pequeno desvio e passou primeiro pela cozinha. Havia se esquecido de que, vez ou outra, ela chegava faminta. Cansada e faminta.

Esperou sentado na borda da cama e com o envelope pardo numa das mãos. Ela iria perceber, tão logo passasse pelo vão da porta, que o rosto dele não trazia aquela serenidade de sempre, o sorriso e a alegria por vê-la chegar em casa depois do trabalho. O quadro era outro, turvo e sombrio. 

Esperou sentado na borda da cama até os passos começarem a ressoar como se já estivessem dentro do quarto. O coração deu um salto grande e sufocante, obrigando-o a se pôr de pé. No envelope pardo, as mãos deixavam marcas de suor e nervosismo. Diante dessa imagem desbotada e corrompida pela dor, ela entendeu logo a razão daquele envelope brandido com fúria junto ao seu rosto. 

Balbucio



Por Geraldo Lima

Está diante dela, mas é como se estivesse diante de uma estátua de mármore. De um iceberg. De um monumento erigido à indiferença humana. Não fosse o poder de atração que ela exerce sobre ele, com uma força descomunal, incompreensível até, viraria as costas à sua frieza e partiria sem ao menos dizer adeus.

É um vício, ele pensa, o que me ata a essa mulher. Fraqueza e desapego a mim mesmo. O que era amor, algo que fruía tranquilo, virou doença, praga, infecção, ruína dos sentimentos.

O esforço, que lhe custa muita energia, é para não cair de joelhos aos seus pés. Não se desmanchar em lágrimas também. Curvar-se mais do que já se curvou é renunciar a toda dignidade. Manter-se de pé é ainda um trunfo.  

Vai, no entanto, numa última tentativa, num rasgo de puro desespero, dizer que a ama, que há uma faca rasgando-lhe o peito, um pus alastrando pelo corpo todo. É seu último gesto de entrega, de abandono completo das forças, do brio, da alma, e se lança para fora de si mesmo, íntegro, exposto ao extremo, mas as palavras apenas escorregam pela borda dos lábios e tombam no vazio.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ela


Por Geraldo Lima

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios:  enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha,  um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.