quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ela


Por Geraldo Lima

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios:  enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha,  um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A vida um pouco melhor



Imagem do Google

 Por Geraldo Lima


A impressão que temos, a cada dia que passa, é que o tão propalado espírito de civilização não passa de miragem, de utopia, de algo realmente inatingível, tantas são as barbáries que assolam nosso cotidiano. E aqui, em terras tupiniquins, é que a coisa parece ainda pior, e a dita civilização não prospera mesmo. Porém, se olharmos com mais atenção, afastando um pouco o cipoal de pessimismo, vamos descobrir, aqui e ali, algumas ações e atitudes que nos aproximam da tão desejada cultura civilizada.

Aqui no Distrito Federal, por exemplo, apesar das mazelas políticas e tais, o respeito à faixa de pedestres é algo que nos deixa orgulhosos. Algo que nos dá a sensação de estarmos pisando o chão firme e confiável de uma terra de indivíduos civilizados.  Há, certamente, os infratores, os que fecham os olhos, pisam no acelerador e vão em frente, dando a mínima para o pedestre. Mas esses são repudiados veementemente pela maioria que zela por esta conquista. Vez ou outra, o passar sem atender ao pedido do pedestre é fruto da desatenção, um lapso, mas nada que não se possa entender ou perdoar. 

O fato é que a existência das faixas de pedestres exige de nós, motoristas e pedestres, um pouco mais de atenção. E essa disciplina só pode nos fazer bem. O respeito à vida do outro nos eleva cultural e espiritualmente. Já não nos encontramos no estado natural, onde prevalece a lei do mais forte. Se vivemos na cidade, num Estado de Direito, na Civitas, como diria Spinoza, o certo é que façamos valer o sentido de preservação. Viver e deixar que se viva. 

Parece-me que, sem dúvida alguma, a cultura do respeito à faixa de pedestres se enraizou entre nós. Hoje, por exemplo, durante um trânsito intenso numa das vias públicas de Sobradinho, uma das cidades satélites de Brasília, vi uma cena fantástica e (por que não?!) comovente. Dois cachorros chegaram junto ao meio-fio, fizeram aquela paradinha básica para dar tempo de os carros frearem e depois atravessaram, calmamente, sobre a faixa de pedestres. É isso, aqui até os cães conquistaram o direito de atravessar a rua sem serem atropelados.

(Texto publicado originalmente no Jornal de Sobradinho e no Jornal Opção)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

III. Strip-tease



                           

Por Geraldo Lima

                                     Que ventre mais polido logo debaixo do peito!                          
                                                                              (Ovídio)             
        
        Restou a calcinha: preta,  lycra com renda.

Peça mínima, semiocultando.

Quase nu frontal agora. Espelho suspenso no teto, prestes a reter a imagem móvel. O corpo dele na expectativa, se alterando.  Ela veio vindo, contida, sem exageros. Vista assim, dir-se-ia: para ela é a primeira vez.

 Junto dele, os seios. Barriga quase nenhuma. Por capricho, quem sabe, ela preservara a trilha de pelos. Uma estrela tatuada logo acima do púbis apontava a direção do abismo.  Talvez o gesto mais próximo fosse descer-lhe a calcinha e tocar-lhe a parte íntima em busca de algum sinal de prazer.  Sentado na cama, era só tombar de costas e arrastá-la junto. Conteve-se. Queria estar ali, a boca rente àquele umbigo, protelando o mistério.

Se pedisse para dançar, por certo ela o faria. Com gemidos, unhas nas costas, simulacro de gozo etc. etc. Cobraria mais por certas extravagâncias, tudo informado previamente. Olhando assim, quem adivinharia ali uma profissional? Para ele, no entanto, bastaria apenas um abraço sem o travo da grana.  Se pudesse, prolongaria ainda o gozo desse gesto.

Ela, porém, dispensava preliminares, demonstração de afeto, corpo em brasa.  Como não lhe restava nenhuma ilusão, tombou-o, enfim, na cama. Duas imagens fundiram-se no espelho. 

(Do livro de minicontos Tesselário, Selo 3 x 4, Editora Multifoco)