Por Geraldo Lima
quarta-feira, 1 de outubro de 2014
segunda-feira, 8 de setembro de 2014
A força inesgotável do teatro de Ariano Suassuna
Por Geraldo Lima
Ariano Suassuna, nascido na Paraíba
em 1927, faleceu recentemente, aos 87 anos de idade, em Recife. Boa parte da
sua vida foi dedicada ao teatro, à literatura e à defesa da cultura brasileira
contra a massificação. Em 1947, então com 20 anos de idade, escreveu a tragédia
Uma mulher vestida de sol, com a qual
conquistou o primeiro lugar no concurso de âmbito nacional promovido pelo
Teatro do Estudante de Pernambuco (TEP). À época, Hermilo Borba Filho, um dos
fundadores do TEP, escreveu: “Tenho a impressão de que o Nordeste encontrou em
Ariano Suassuna o seu poeta dramático mais capacitado para transformar em
termos de teatro os seus conflitos e suas tragédias”. E não estava enganado.
Porém, a comédia, mais do que a tragédia, é que lhe permitiria expor com
sagacidade e irreverência a alma do povo nordestino, sempre às voltas com as
complicações do meio ambiente e as desigualdades sociais.
O teatro de Ariano Suassuna
impressiona pela capacidade que o autor apresenta de mesclar o erudito e o
popular, seguindo, de forma coerente, as linhas mestras do Movimento Armorial,
cujo objetivo era “criar uma arte erudita a partir de elementos da cultura
popular do Nordeste brasileiro” (Wikipédia). Além disso, podemos perceber no seu texto
dramatúrgico a rica herança da cultura ibérica e do cristianismo, mais
precisamente aquele ligado à Igreja Católica. Suas raízes estão fincadas na tradição cuja fonte encontra-se lá nos
autos da Idade Média, no humanismo do teatro
de Gil Vicente e, no século XVII, no
teatro barroco de Calderón de La Barca. Tanto nos textos do autor português
quanto nos do autor espanhol o elemento popular e o religioso têm uma presença
muito forte.
Numa entrevista à Folha de São Paulo,
em 1991, Suassuna diz o seguinte a respeito das suas influências literárias: “Recebi
uma influência enorme de Cervantes e de vários autores espanhóis, inclusive de
Calderón de La Barca. Talvez até maior que a de Cervantes foi a de Calderón”. Esses autores são, na verdade, sua matriz
estética, e com eles o autor de O santo e
a porca mantém um diálogo constante. É, no entanto, na cultura popular
nordestina que Ariano Suassuna sedimenta as bases da sua dramaturgia. Dos
folhetos de cordel nascem algumas das suas peças, como é o caso d’O auto da Compadecida, que se originou,
segundo o autor, “da fusão de três folhetos de cordel: O enterro do cachorro, O cavalo que defecava dinheiro
(ambos de Leandro Gomes) e O
castigo da soberba (de Anselmo Vieira)”. Ocorre, nesse caso, não a
cópia, mas sim a recriação de textos da literatura popular nordestina, dando
origem a um texto teatral em que o popular e o erudito fundem-se de modo
brilhante.
A visada crítica sobre a realidade
brasileira, mais especificamente a realidade nordestina, com seus costumes
arraigados, frutos de uma sociedade oligárquica e de uma cultura popular marcada
pela religiosidade profunda, também colabora para tornar o texto do mestre
Ariano mais contundente. Caracterizados, essencialmente, pelo humor corrosivo e
farsesco, seus textos, através dessa crítica aos costumes e aos desvios de
conduta de indivíduos que ocupam uma posição hierárquica significativa na
sociedade, conseguem reverberar para além do riso momentâneo. Embora tratem de
questões locais, próximas ao ambiente em que o autor vive, a temática abordada neles é de caráter universal: a
avareza, a vaidade, a oposição vida/morte, a opressão, a corrupção, a esperteza
como meio de se livrar da opressão do mais forte etc. Faz valer, desse modo, o
que disse Tolstói: “Se queres
ser universal, começa por pintar a tua aldeia”.
No universo dramatúrgico de Ariano
Suassuna, a oposição entre Bem e Mal dá-se no embate entre o sertanejo
nordestino desprovido de riqueza material, mas senhor de uma esperteza
impressionante, beirando, às vezes, o picaresco (podemos citar como exemplos
João Grilo e Caroba), e o rico que o explora ou o oprime. Nesse embate, leva
sempre a melhor o tipo fraco, desprovido de riqueza material, mas esperto e que
conta, geralmente, com uma ajuda do além – uma espécie de deus ex
machina. Pode-se dizer que essa
esperteza é, de certa forma, o único recurso que o pobre possui para sobreviver
num mundo comandado por poderosos despidos de humanidade. Isso demonstra a
opção ideológica clara do autor a favor dos menos favorecidos.
Na Farsa da boa preguiça, por exemplo, o preguiçoso poeta Joaquim
Simão conta com a ajuda de um santo (Simão Pedro) para se contrapor ao poderio
econômico de Aderaldo Catacão e à tentativa de Fedegoso e Quebrapedra (dois
diabos) de levá-lo para o inferno. Num
primeiro momento, inclusive, o capitalista Aderaldo Catacão conta com a
simpatia de um anjo (Miguel Arcanjo), mas vai perdê-la ao final quando este
constata a extrema avareza do seu protegido: “Ah, é assim? Pois esse peste/vai
perder quem ainda lutava por ele!”. Junto
também com os dois enviados dos céus encontra-se Jesus Cristo (Manuel
Carpinteiro), que a tudo observa e avalia.
Essa relação direta dos seres celestiais com os seres terrenos,
empenhando-se, no caso, para influenciar no seu destino, aproxima-se claramente
do universo da mitologia grega, onde os deuses participavam diretamente do
destino (Moira) dos mortais. Na Ilíada e
na Odisseia temos os deuses (Zeus, Hera, Afrodite, Poseidon etc) confrontando-se
para proteger ou castigar heróis gregos ou troianos. Já nos textos de Ariano (e
dos autos medievais), marcados pela presença da mitologia cristã, anjos e
santos enfrentam demônios para evitar que os personagens sejam punidos com o
fogo do inferno.
Temos essa presença de seres
celestiais e de seres demoníacos intervindo também no destino dum grupo de
mortais n’O auto da Compadecida. Nesse texto, porém, a ação se dá já no mundo
dos mortos. João Grilo e os demais personagens estão mortos e precisam da ajuda
de Nossa Senhora (A Compadecida) e de Jesus Cristo (Manuel) para que não sejam
encaminhados ao inferno. Aqui, temos a aproximação com O auto da barca do inferno, de Gil Vicente, escrita em 1517.
Diferentemente da peça de Gil Vicente, em que a maioria dos mortos não escapa
ao fogo do inferno, na peça de Ariano, de 1955, com a argumentação precisa de
Nossa Senhora e de Jesus Cristo, livram-se todos do castigo. É um final típico
da comédia, como nos diz Renata Palllottini no seu livro Dramaturgia: a construção da personagem: “Seu desenlace é, via de
regra, feliz, otimista. O público sente-se solidário com o desenrolar da trama,
se descontrai com o desenlace, que lhe dá uma espécie de catarse que não é
catarse porque não implica piedade e terror, mas uma empatia cuidadosa, onde o riso
é às vezes de cumplicidade, outras vezes de superioridade”.
Na Farsa da boa preguiça, escrita em 1960, a intervenção celestial, para
evitar a vitória do diabo, dá-se no mundo dos vivos. Então, faz-se necessária a
descida desses seres celestiais ao mundo dos mortais. Nesse caso, os seres
celestiais precisam assumir a condição de um
mortal e andar entre os homens como um deles. Nessa condição de mortal,
pode ocorrer algum desvio ou conduta que fuja do que se espera de um anjo ou de
um santo. É o que ocorre com Simão Pedro: ele encontra um queijo que
pertenceria ao rico Aderaldo Catacão e decide ficar com ele. Ao final, temos os
três seres celestiais (Manuel Carpinteiro, ou seja, Jesus Cristo, Simão Pedro e
Miguel Arcanjo) disputando a posse do queijo num jogo. A proposta é feita desta
maneira por Manuel Carpinteiro: “Então vamos fazer o seguinte:/enquanto a
história do Rico e do Poeta continua,/a gente vai ali dormir um sono e
sonhar!/Quem tiver o sonho mais bonito/fica com o queijo todo, está bem?”. Depois, quando vão revelar os sonhos, Simão
Pedro confessa: “Então, sonâmbulo, como sempre fui,/acho que me
levantei,/porque quando acordei,/tinha comido o queijo:/só estas cascas
encontrei!”. E essa sua esperteza é ainda exaltada por Manuel Carpinteiro:
“quando escolhi este para Príncipe dos Apóstolos/e chefe da Igreja,/foi porque
sabia que o cabra era esperto!”. Aqui, poderíamos dizer que o texto de Ariano
se aproxima da Sátira Menipeia, pois ocorre o rebaixamento de um ser celestial,
fazendo-o comportar-se como um simples mortal afeito aos desvios de conduta.
Para Aristóteles, a comédia, em
contraposição à tragédia, “é a imitação de homens de qualidade inferior”. O universo
teatral criado por Ariano Suassuna, a partir de suas fontes populares e
eruditas, é marcado por tipos que se encaixam nessa definição do filósofo grego.
Seu olhar generoso, no entanto, faz com que seus personagens pertencentes à
camada menos favorecida da sociedade ganhem a simpatia do público por
investir-se de esperteza, graça e malícia – elementos capazes de fazê-los
sobrepor-se ao outro, que se impõe, geralmente, pela força física ou pelo poder econômico. É o caso das
personagens Caroba e Pinhão na peça O
santo e a porca, de 1957. O público pode até se opor ao modo interesseiro
com que ambos agem inicialmente, mas não tem como não simpatizar com eles ao
descobrir que são explorados vergonhosamente pelos patrões. É o que nos revela
a fala de Pinhão no Terceiro Ato: “Mas onde está o salário de todos estes anos
em que trabalhamos, eu, meu pai, meu avô, todos na terra de sua família, Seu
Eudoro? Onde está o salário da família de Caroba, na mesma terra, Seu Eudoro?
(...) Onde está o salário de Caroba durante o tempo em que trabalhou aqui, Seu
Euricão?”.
Caroba e Pinhão, assim como João
Grilo, possuem linguagem e esperteza que lhes permitem negociar, argumentar e
tramar em proveito próprio ou dos outros. E se podem fazer isso com tanta
desenvoltura, em relação à linguagem, é porque, nas peças de Suassuna, não há distinção
entre o nível de linguagem usado pelos patrões e o usado pelos empregados. Ou
seja, a correção gramatical é um elemento presente tanto na fala dos menos
favorecidos quanto na das elites econômicas. Menos que incorrer em
inverossimilhança, o que Ariano faz é armar os representantes das camadas mais
pobres da sociedade com o mesmo poder de comunicação dos que detêm o poder.
Dá-lhes a mesma “competência lingüística” dos seus opressores. Isso permite, então, que o embate verbal não
penda só para um lado, ou seja, dos representantes das forças econômicas. Seus
personagens, nesse caso, não sofrem da mesma angústia de um Fabiano, no romance
Vidas Secas, do também nordestino Graciliano Ramos. Por ser limitado em relação à linguagem, o
personagem de Graciliano não pode exprimir-se da maneira que gostaria e que
precisaria para se livrar da exploração e da opressão.
Por conta de toda essa riqueza estética e
convicção ideológica, o teatro criado por Ariano Suassuna nos encanta,
conscientiza, diverte e humaniza. Daí sua força inesgotável como obra de arte
capaz de nos manter atentos às complexidades da alma humana e às riquezas
culturais do nosso país.
(Este texto foi publicado, originalmente, na revista eletrônica Diversos Afins e no Jornal Opção.)
quarta-feira, 27 de agosto de 2014
Comedores de pipoca
Por
Geraldo Lima
Ir ao cinema e não comprar um saco
de pipocas parece não fazer sentido para muitas pessoas. Vai-se ao cinema, há
de se supor, mais pela pipoca que pelo filme. Para as crianças e os adolescentes,
então, nem se fala. Que pai ou mãe ousaria levar os filhos para assistir a um
dos sucessos de bilheteria do momento (quase sempre um filme hollywoodiano) sem
meter a mão no bolso para bancar a bendita pipoca? Pipoca e refrigerante, é bom
que se diga.
Não sou nenhum sociólogo ou
estudioso do comportamento humano, mas é possível deduzir que, durante a exibição
de um filme de ação, desses marcados por pancadaria, à medida que a tensão vai
aumentando,aumenta também a frequência com que o espectador saca pipocas do
saco e as leva à boca. Puro reflexo. Creio que chega a ser aflitivo esse
imergir e emergir da mão. E como todos
estarão fisgados pela movimentação incessante na tela, – explosões, tiros,
socos etc. – ninguém se sentirá incomodado com o estalar generalizado da pipoca
sendo mastigada. Não há necessidade de pausa para reflexão. Aliás, o que menos
se faz num filme desse gênero é refletir. Mas, num filme que exige a leitura
atenta de cada gesto ou de cada fala, a coisa muda de figura. Enfim, como
suportar, durante a exibição de um filme de arte, a presença de alguém produzindo
ruídos incômodos ao retirar pipocas do interior do saco de papel?
Dia desses, eu e minha esposa fomos
ao cinema no Plano Piloto, – num desses onde se pode escolher ainda entre uma
boa leva de filmes de arte. Após
analisar os cartazes e as sinopses, decidimos pelo “O último amor de Mr. Morgan”,
que traz no elenco o ótimo ator Michael Caine. Pareceu-nos interessante a história de um
senhor que, após a morte da esposa, precisa encontrar motivação para continuar
vivendo, e vai encontrá-la numa jovem professora de dança chamada Pauline. A
história se passa em Paris, e isso nos pareceu também um bom motivo para
escolher esse filme. Faltavam ainda vinte minutos para o início da exibição da
película, mesmo assim resolvemos entrar e aguardar lá dentro, no conforto de
uma poltrona.
Assim que sentamos, percebemos, do
lado direito, um senhor gordinho acompanhado de uma senhora e de um gigantesco
saco de pipocas. O saco estava apoiado no cume da sua barriga e toda a sua
atividade físico-motora voltava-se para o ato de retirar as pipocas do seu
interior e levá-las à boca. Fazia isso sem pausa alguma. E, para nosso desespero,
com ruídos pra lá de incômodos. Faltavam ainda uns quinze minutos para o início
do filme, e achamos que esse seria um tempo suficiente para o glutão devorar
todas aquelas pipocas e deixar nossos ouvidos em paz. Com a rapidez com que ele
as triturava, logo o saco estaria vazio.
Para aflição de todos, passados uns
trinta minutos após o início da projeção, lá estava o senhor barrigudinho e
insensível metendo ainda a mão no interior do saco e devorando pipocas com uma
fome infinita. Não havia como não se distrair com a irritante trilha sonora
produzida por ele. Sons intensos e exasperantes. Não havia como manter o foco no
desenrolar da trama. A súbita alegria do senhor Morgan passa distante do nosso
olhar. A vontade era levantar-se, ir até
a poltrona do energúmeno e sacar-lhe das mãos o seu objeto de prazer. Aquele
infeliz não se tocava de jeito nenhum. Centenas de olhares o fuzilavam, e nada!E
chegou ao absurdo de meter meio braço dentro do saco em busca das últimas
pipocas. Não satisfeito – e sem se dar
conta do ridículo! – pôs o saco diante
dos olhos e vasculhou-lhe o interior em busca ainda de alguma pipoca. De algum
fragmento de pipoca. De algum farelo. Mas não havia nem ar lá dentro mais.
Frustrado, talvez, amassou o saco. E fez isso com extrema calma e maldade. Frio
e metódico. Imaginem o sadismo desse gesto e a ira que tomou conta de todos
nós.
Como não estava ali para assistir ao
filme (deve ter ido de má vontade para acompanhar a esposa), acabou roncando
durante algumas passagens da história. Não parecia nem um pouco interessado em
se deixar envolver pela delicadeza e sensibilidade que Sandra Nettelbeck
imprimiu ao seu filme. É bem provável
que tenha odiado o filme e amado incondicionalmente a pipoca. Creio que durante
seu cochilo tenha sonhado com um mundo tomado por milhos de pipoca estourando
em irresistíveis cascatas brancas.
segunda-feira, 4 de agosto de 2014
Três micronarrativas
Por Geraldo Lima
A dor é tão intensa, que ela tem de
recuar até o passado. Ali, num dia de sol e praia, foi de fato feliz.
........................ ......................
Restou-lhe um espaço mínimo (quase
uma greta!) para tentar escapar antes que o marido da amante adentrasse o
quarto.
........................ ........................
Na noite de núpcias, descobriu a
verdadeira natureza do marido. Tarde demais: na rota de fuga, teria que cruzar
um oceano.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
Um poeta no MASP
Por
Geraldo Lima
Chegamos ao vão do MASP (Museu de
Arte de São Paulo) e logo somos abordados por um poeta que nos apresenta seu
livro de poesia intitulado “Petit Trianon”. Pede para abrirmos na página onze.
Abro e leio o poema cujo título é “vir-a-ser”. Acho fraco. Confessional demais.
Falta aquele trato dado à linguagem – falta, essencialmente, a compreensão de
que poesia é "linguagem carregada de significado", como diria Ezra
Pound.
Caio na besteira de perguntar quanto
custa. Vinte reais, responde o poeta. Acho caro. Não por ser livro de poesia e
por ainda estar sendo vendido assim, como no período da Geração Mimeógrafo
(naquela época, década de 70, muitos poetas, ditos marginais, confeccionavam e
vendiam seus livrinhos de poesia nos bares, portas de teatro, de cinema etc. Eu
mesmo fiz isso. Era um modo de se opor ao sistema fechado das editoras). Não,
não era esse o motivo: é que achei o conteúdo fraco e péssimo o acabamento dado
ao livrinho. Só que nesse ínterim minha esposa achou de revelar que eu era
escritor também. Aí fiquei constrangido de dizer que não iria ficar com o
livro. Iria parecer falta de solidariedade, de amor à arte da palavra. Um
escritor sovina, sem espírito de classe, ah, nem pensar! Comprei o livro, mas achando que deveria ter
pelo menos pechinchado.
Diz um texto de apresentação que o
poeta "compartilha sua poesia por mais de vinte anos em frente ao
MASP". Nasceu em Londrina, talvez isso explique o nome que lembra mais um
poeta russo: Ivan Petrovich. Folheando o livro, descobri alguns haicais entre
os poemas longos (o haicai é um poema de origem japonesa, composto de três
versos). Os longos são, de um modo geral, fracos, mas os haicais são bons. Isso
até me deixou aliviado: os vinte reais não foram de certo modo desperdiçados.
Publico aqui dois dos haicais do nosso poeta para que possam atestar se estou
equivocado ou não:
"verde bambuzal,
passeia no vento
a borboleta sem cor"
"sol do meio dia
nem sombra da minha sombra
o fundo sem fundo"
(Texto publicado, originalmente, no Jornal de Sobradinho)
domingo, 22 de junho de 2014
Cena
Por Geraldo Lima
O tempo não estancou sua marcha
implacável, e tudo continuou a desenrolar-se num realismo bruto e seco. A
consciência dela, tampouco, fechou-se num quarto escuro, louca e insensível.
Pelo contrário, aflorou-se ainda mais, ampliando, desse jeito, a dramaticidade
do ato, o pavor e o princípio de remorso. O corpo dele, espasmódico no piso da
sala, não era uma simples sensação. Assim como a mão direita dela, fraca e trêmula, pendendo pela força da gravidade e pelo peso do metal
ainda quente.
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Ombro
Por Geraldo Lima
Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o "Ação! gravando!" de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de "perder o rumo", "ficar sem norte", "andar à deriva", fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.
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