quinta-feira, 15 de maio de 2014

Uma Copa do Mundo de tirar o sono





Por  Geraldo Lima

Eu não sei se você, caro leitor, vive já em estado de apreensão com o que possa acontecer durante a tal Copa do Mundo da FIFA Brasil 2014. Talvez você até responda, curto e grosso, que esse assunto não lhe interessa nem um pouco, que tem coisas mais importantes e urgentes para fazer.
 
Louvo, nesse caso, sua capacidade de se manter desligado de todo esse imbróglio em que nos metemos. Eu, da minha parte, sinto a pressão psicológica a cada notícia ruim a respeito desse mundial de futebol. Pior para mim, que não aprendi a me manter distante e alienado dos problemas que assolam nosso país. Problemas que só se avolumam.  E o atestado de incapacidade para resolvê-los, por parte dos que se dizem gestores públicos, vem de longa data. Os versos do poeta baiano Gregório de Matos Guerra, já no século XVII, não me deixam mentir:  “A cada canto um grande conselheiro./que nos quer governar cabana, e vinha,/não sabem governar sua cozinha,/e podem governar o mundo inteiro”.

Embora pareça, não sou dos que acham que construir estádios modernos, “padrão FIFA”, seja algo ruim. Futebol, por estas plagas, é paixão nacional e não tem conserto – melhor, então, oferecer boas acomodações aos torcedores. Que isso faz parte também do Panis et circensis todos nós sabemos. É o ópio do povo? Sim, e vivemos entorpecidos aos milhões.

Então, o que está pegando? Ah, é o que já falaram: a falta de contrapartida, por exemplo, em termos de verdadeira melhoria na vida dos que sofrem em filas de hospitais públicos. Víssemos, a cada inauguração de um belo e moderno estádio, a inauguração de um moderno e equipado hospital público, nada teríamos a reclamar. E nem é preciso falar da situação sempre crítica da nossa Educação, necessitando de aparato tecnológico e pedagógico de país com vocação para o desenvolvimento.

Vai ser um mico essa Copa? Ou entrará em cena o jeitinho brasileiro para maquiar os problemas e vender ao mundo uma imagem de normalidade?  Em se tratando de Brasil, tudo é possível. Vivo, caro leitor, momentos de extremo pessimismo. Vergonha alheia é o que me assalta sempre. Será que vamos perder a chance de dar um salto de qualidade e mudar a cara desse país? Ou será que a cara dele é realmente essa em que todos se acham no direito de bater? Indignação é o que me tira o sono nessas horas. Pior para mim, não é?

(Este texto foi publicado, originalmente, no Jornal Opção, em Goiânia)

sexta-feira, 25 de abril de 2014

Trajeto



Por Geraldo Lima

Esperou por ela ali no quarto. 

Esperou que ela entrasse e fosse direto para o banheiro, como era de costume. Ah, sempre com a bexiga cheia, prestes a estourar. Ouviu o baque da porta sendo fechada e em seguida o jato do xixi batendo na água do vaso sanitário. O barulho da descarga, da porta sendo aberta  e, por fim,  o som de passos vindo em direção ao quarto.

Esperou sentado na borda da cama. Mas a espera tornava-se mais longa do que ele desejava. Os passos pareciam fazer um trajeto enorme, como se de repente a casa tivesse triplicado de tamanho. Para aumentar-lhe a ansiedade, ela fez um pequeno desvio e passou primeiro pela cozinha. Havia se esquecido de que, vez ou outra, ela chegava faminta. Cansada e faminta.

Esperou sentado na borda da cama e com o envelope pardo numa das mãos. Ela iria perceber, tão logo passasse pelo vão da porta, que o rosto dele não trazia aquela serenidade de sempre, o sorriso e a alegria por vê-la chegar em casa depois do trabalho. O quadro era outro, turvo e sombrio. 

Esperou sentado na borda da cama até os passos começarem a ressoar como se já estivessem dentro do quarto. O coração deu um salto grande e sufocante, obrigando-o a se pôr de pé. No envelope pardo, as mãos deixavam marcas de suor e nervosismo. Diante dessa imagem desbotada e corrompida pela dor, ela entendeu logo a razão daquele envelope brandido com fúria junto ao seu rosto. 

Balbucio



Por Geraldo Lima

Está diante dela, mas é como se estivesse diante de uma estátua de mármore. De um iceberg. De um monumento erigido à indiferença humana. Não fosse o poder de atração que ela exerce sobre ele, com uma força descomunal, incompreensível até, viraria as costas à sua frieza e partiria sem ao menos dizer adeus.

É um vício, ele pensa, o que me ata a essa mulher. Fraqueza e desapego a mim mesmo. O que era amor, algo que fruía tranquilo, virou doença, praga, infecção, ruína dos sentimentos.

O esforço, que lhe custa muita energia, é para não cair de joelhos aos seus pés. Não se desmanchar em lágrimas também. Curvar-se mais do que já se curvou é renunciar a toda dignidade. Manter-se de pé é ainda um trunfo.  

Vai, no entanto, numa última tentativa, num rasgo de puro desespero, dizer que a ama, que há uma faca rasgando-lhe o peito, um pus alastrando pelo corpo todo. É seu último gesto de entrega, de abandono completo das forças, do brio, da alma, e se lança para fora de si mesmo, íntegro, exposto ao extremo, mas as palavras apenas escorregam pela borda dos lábios e tombam no vazio.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Ela


Por Geraldo Lima

É como se não tivesse ficado tanto tempo longe de casa. Como se não tivesse, num rompante do mais louco romantismo, abandonado tudo em nome do amor mais extremo. Olhando-a assim, tão desenvolta na casa que ela renegou um dia, podemos nos espantar com a sua certeza de que ainda cabe ali, de que não há outra em seu lugar, de que ele não trocou a fechadura exatamente para que ela entrasse sem precisar tocar a campainha. E aí está ela, desfazendo a mala, indagando sobre o comportamento das crianças (nem percebe que cresceram, que praticamente não a reconhecem), e reclama do guarda-roupa bagunçado, reafirmando, talvez, a necessidade de sua presença ali. Ele, até agora, observa tudo pasmo, com um engasgo, uma vontade de dizer algo, uns desaforos, uns desafogos, indagar, se impor, mas sentisse-se atravessado por sentimentos contraditórios:  enquanto busca em si o ódio, a faca que trincha,  um fiapo de alegria deixa-o mole, aliviado, quase a ponto de chorar. Intenta reagir contra essa fraqueza, porém já é tarde, ela domina o ambiente, preenche o vazio de antes, dando a nítida impressão de que tudo está começando agora, sem pus algum na ferida que lateja ainda exposta.

quinta-feira, 9 de janeiro de 2014

A vida um pouco melhor



Imagem do Google

 Por Geraldo Lima


A impressão que temos, a cada dia que passa, é que o tão propalado espírito de civilização não passa de miragem, de utopia, de algo realmente inatingível, tantas são as barbáries que assolam nosso cotidiano. E aqui, em terras tupiniquins, é que a coisa parece ainda pior, e a dita civilização não prospera mesmo. Porém, se olharmos com mais atenção, afastando um pouco o cipoal de pessimismo, vamos descobrir, aqui e ali, algumas ações e atitudes que nos aproximam da tão desejada cultura civilizada.

Aqui no Distrito Federal, por exemplo, apesar das mazelas políticas e tais, o respeito à faixa de pedestres é algo que nos deixa orgulhosos. Algo que nos dá a sensação de estarmos pisando o chão firme e confiável de uma terra de indivíduos civilizados.  Há, certamente, os infratores, os que fecham os olhos, pisam no acelerador e vão em frente, dando a mínima para o pedestre. Mas esses são repudiados veementemente pela maioria que zela por esta conquista. Vez ou outra, o passar sem atender ao pedido do pedestre é fruto da desatenção, um lapso, mas nada que não se possa entender ou perdoar. 

O fato é que a existência das faixas de pedestres exige de nós, motoristas e pedestres, um pouco mais de atenção. E essa disciplina só pode nos fazer bem. O respeito à vida do outro nos eleva cultural e espiritualmente. Já não nos encontramos no estado natural, onde prevalece a lei do mais forte. Se vivemos na cidade, num Estado de Direito, na Civitas, como diria Spinoza, o certo é que façamos valer o sentido de preservação. Viver e deixar que se viva. 

Parece-me que, sem dúvida alguma, a cultura do respeito à faixa de pedestres se enraizou entre nós. Hoje, por exemplo, durante um trânsito intenso numa das vias públicas de Sobradinho, uma das cidades satélites de Brasília, vi uma cena fantástica e (por que não?!) comovente. Dois cachorros chegaram junto ao meio-fio, fizeram aquela paradinha básica para dar tempo de os carros frearem e depois atravessaram, calmamente, sobre a faixa de pedestres. É isso, aqui até os cães conquistaram o direito de atravessar a rua sem serem atropelados.

(Texto publicado originalmente no Jornal de Sobradinho e no Jornal Opção)

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

III. Strip-tease



                           

Por Geraldo Lima

                                     Que ventre mais polido logo debaixo do peito!                          
                                                                              (Ovídio)             
        
        Restou a calcinha: preta,  lycra com renda.

Peça mínima, semiocultando.

Quase nu frontal agora. Espelho suspenso no teto, prestes a reter a imagem móvel. O corpo dele na expectativa, se alterando.  Ela veio vindo, contida, sem exageros. Vista assim, dir-se-ia: para ela é a primeira vez.

 Junto dele, os seios. Barriga quase nenhuma. Por capricho, quem sabe, ela preservara a trilha de pelos. Uma estrela tatuada logo acima do púbis apontava a direção do abismo.  Talvez o gesto mais próximo fosse descer-lhe a calcinha e tocar-lhe a parte íntima em busca de algum sinal de prazer.  Sentado na cama, era só tombar de costas e arrastá-la junto. Conteve-se. Queria estar ali, a boca rente àquele umbigo, protelando o mistério.

Se pedisse para dançar, por certo ela o faria. Com gemidos, unhas nas costas, simulacro de gozo etc. etc. Cobraria mais por certas extravagâncias, tudo informado previamente. Olhando assim, quem adivinharia ali uma profissional? Para ele, no entanto, bastaria apenas um abraço sem o travo da grana.  Se pudesse, prolongaria ainda o gozo desse gesto.

Ela, porém, dispensava preliminares, demonstração de afeto, corpo em brasa.  Como não lhe restava nenhuma ilusão, tombou-o, enfim, na cama. Duas imagens fundiram-se no espelho. 

(Do livro de minicontos Tesselário, Selo 3 x 4, Editora Multifoco)