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segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021
sexta-feira, 14 de agosto de 2015
Dona de si
Por
Geraldo lima
Era uma mulher livre – no sentido
pleno da palavra.
Ele a conheceu assim, um horizonte
amplo e indefinido. Ainda que o amasse, não conhecia fronteiras nem amarras. Era
uma dessas capazes de nos fazer sofrer mesmo em pleno gozo, tal a sensação de
fluidez do seu espírito e o estado sempre movediço do seu corpo. Um corpo que,
estando em nossos braços, já escorregava para outro plano, outros desvãos de
desejos e sonhos.
– Morri no dia em que ela me deixou – ele me
revela com a voz ainda doente, cravada de pus e dor. Essa sua voz sem cura
reverbera em minha pele e atravessa minha mente de ponta a ponta.
Dela, ele se recorda principalmente
do cheiro de carne e de alma em brasa. Isso que, para ele, é uma incisão
profunda na memória, como essas que o vento, ao longo de séculos, milênios,
inscreve nas rochas.
segunda-feira, 26 de janeiro de 2015
XIV. Revolução de Trinta
Por Geraldo Lima
(Trecho de uma carta
encontrada nos pertences de minha vó.)
Amália,
A escrita, commo podes ver, vae torta, diversa da de antes, não
por me encontrar trêmulo no mommento por cauza da metralha, das grannadas, do
transtorno que é viver essa tempestade das idéas, mas por me restar, meo amor,
somente a esquerda, pôsto que a destra levou-a a fera da guerra. Ainda assim
ella diz tudo, do amor e da saudade que trago em mim, pensando em ti agora, e
se ao te rever não correr desembalado rumo aos teus braços, não será por falta
de vontade, mas tão-somente por ter me levado uma das pernas a bôca faminta
d’uma grannada.
(...)
(Do livro Tesselário, Selo 3 x 4, Editora Multifoco.)
segunda-feira, 16 de junho de 2014
Ombro
Por Geraldo Lima
Deixou a alça da blusa escorrer pelo ombro, descobrindo-o todo, desnudando-o sem pudor aparente, a pele, a carne, a parte mais visível do ser ali, dada, exposta, latejando. Esse pequeno descuido, esse relaxo quase sem propósito, esse marketing súbito, sem almejar um efeito imediato, ali, em plena avenida, a céu aberto, exposto aos olhos de Deus e do Diabo, dos que se julgam santos e dos que já se renderam a todo tipo de danação, isso, esse gesto sem um cálculo preciso, que veio assim sem esboço, sem script, sem o "Ação! gravando!" de algum diretor invisível, fez com ele desviasse alguns centímetros do trajeto, no que costumamos chamar de "perder o rumo", "ficar sem norte", "andar à deriva", fez com que se alienasse de tudo o mais à sua volta, questão de segundos, milésimos de segundo, uma eternidade na frequência dos desejos e do encanto.
segunda-feira, 16 de dezembro de 2013
III. Strip-tease
Por
Geraldo Lima
Que ventre mais polido logo debaixo do peito!
(Ovídio)
Restou a calcinha: preta, lycra com renda.
Peça
mínima, semiocultando.
Quase
nu frontal agora. Espelho suspenso no teto, prestes a reter a imagem móvel. O
corpo dele na expectativa, se alterando.
Ela veio vindo, contida, sem exageros. Vista assim, dir-se-ia: para ela
é a primeira vez.
Junto dele, os seios. Barriga quase nenhuma.
Por capricho, quem sabe, ela preservara a trilha de pelos. Uma estrela tatuada
logo acima do púbis apontava a direção do abismo. Talvez o gesto mais próximo fosse descer-lhe
a calcinha e tocar-lhe a parte íntima em busca de algum sinal de prazer. Sentado na cama, era só tombar de costas e
arrastá-la junto. Conteve-se. Queria estar ali, a boca rente àquele umbigo,
protelando o mistério.
Se
pedisse para dançar, por certo ela o faria. Com gemidos, unhas nas costas,
simulacro de gozo etc. etc. Cobraria mais por certas extravagâncias, tudo
informado previamente. Olhando assim, quem adivinharia ali uma profissional?
Para ele, no entanto, bastaria apenas um abraço sem o travo da grana. Se pudesse, prolongaria ainda o gozo desse
gesto.
Ela,
porém, dispensava preliminares, demonstração de afeto, corpo em brasa. Como não lhe restava nenhuma ilusão,
tombou-o, enfim, na cama. Duas imagens fundiram-se no espelho.
terça-feira, 24 de setembro de 2013
Escuro
Por
Geraldo Lima
Deus pariu um universo medonho
àquela hora da noite. Ao redor, a vegetação semicerrada criando um obstáculo
natural e sinistro. Moitas amoitavam-se grávidas de um perigo mortal. Ilhas de
escuridão gestavam fantasmas absurdos: mãos esquálidas estendiam-se para me
agarrar e me jogar num abismo de onde eu nunca mais sairia.
Meu corpo estava gelado. O medo
trincava meus ossos. O cricrilar dum
grilo, o voo dum morcego, o piar dum pássaro noturno, tudo crescia em horror e pânico.
Mas eu tinha que avançar, cruzar aquele trecho de purgação e mistério, até me
reencontrar outro numa clareira qualquer.
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