sábado, 13 de maio de 2017

Adeus a Belchior


Por Geraldo lima



E lá se foi Belchior – agora, definitivamente. Se havia sumido de repente, em 2007, deixando todos perplexos, fãs, amigos e familiares, sabíamos, no entanto, que a qualquer momento poderia voltar e encher de novo teatros e ginásios com seu canto agudo e forte, como o fez no Ginásio de Esportes de Sobradinho, se não estou enganado, numa das Temporadas Populares. No dia 30 de abril, porém, essa esperança morreu. O cantor cearense, autor de músicas magistrais como “Apenas um rapaz latino-americano”, “Como nossos pais”, “A palo seco”, “Paralelas”, e tantas outras mais, partiu de vez para o andar de cima, como alguns costumam dizer.

Além da voz grave e reverberante, o que me chamou a atenção nas canções de Belchior foram as suas letras. Mais precisamente a sua capacidade de dizer, nessas letras, coisas contundentes e corajosas. Imagine que, depois de toda a revolução sexual dos anos sessenta, do movimento hippie, do feminismo em andamento, ele ousa dizer, em 1976, na música eternizada por Elis Regina: “Que apesar de termos/Feito tudo o que fizemos/Ainda somos os mesmos/E vivemos/(...) /Como os nossos pais”. Ter a coragem de se contrapor, de modo crítico, ao que havia cantado Caetano Veloso [ainda que com ironia] na sua música Divino maravilhoso, ao dizer, em Sou apenas um rapaz latino-americano: “Mas sei que nada é divino, nada, nada é maravilhoso”. Já em Alucinação, sem medo de contrariar os que cultivam algum misticismo ou buscam na cultura oriental um modo de suportar o cotidiano, ele diz, delimitando bem a matéria da sua poética musical: “Eu não estou interessado/Em nenhuma teoria/Nem nessas coisas do oriente/Romances astrais/A minha alucinação/É suportar o dia-a-dia/E meu delírio/É a experiência/Com coisas reais”. Era do real, da vida bruta do dia a dia, que ele extraía sua música, daí que essa sua música, às vezes lancinante, densa, irônica, nos diga tanto, signifique tanto para quem aprende a ouvi-la com apreço.

Foi-se então o bardo, o cantor/compositor que enriqueceu mais ainda, com suas canções geniais, o repertório da música popular brasileira. Valeu, no entanto, sua jornada por aqui, mesmo com os percalços dos últimos anos. Pena mesmo é não poder ouvi-lo mais ao vivo. 

[Texto publicado, originalmente, no Jornal de Sobradinho]

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Insônia, Tosse e TV

                                                (imagem:google)
Por Geraldo Lima

"Como nessa gente sadia, forte, alegre, tudo está equilibrado, como em suas almas e cérebros tudo está aplainado." (TCHEKHOV, Uma crise)

                                            
A noite passada foi pedreira: a sinusite, que tem me massacrado há três dias, me acometendo de uma tosse infernal, dessas que, se o sujeito passa dois dias tossindo ininterruptamente, ele definha, morre, verga sobre si mesmo até desaparecer de dor e fraqueza extrema. Creio que a coqueluche matava assim, de excesso de tosse, ou não era? Bom, pensei em driblar os ataques de tosse e acúmulo de catarro na garganta indo dormir mais cedo, às 22h, mais precisamente. Acordei em certo momento, o corpo suado e a garganta dolorida pedindo água. Imaginava já ter vencido metade da noite, mas, para minha derrota, ainda eram 23h.

Aí, sem sono e com a tosse voltando pior ainda, fui à cozinha e fiz um chá de camomila pra abrandar minha vontade desesperada de rachar a cabeça contra a parede. Pra ver se o sono voltava, resolvi assistir TV. Liguei o televisor e comecei a zapear. Invariavelmente estaciono no Arte 1. Ia ficar por ali até o sono voltar e a maldita tosse sumir. Estavam exibindo um documentário sobre o fotógrafo estadunidense David LaChapelle, que faz umas fotos bem bizarras, usando tipos extravagantes, exóticos, fora do padrão de beleza comumente aceito. Algumas das suas fotos são bem chocantes, mas o propósito dele é este mesmo: ir contra o lugar-comum da indústria de entretenimento e moda. Há quem goste, há quem deteste. As feministas costumam atacá-lo com veemência. Mas o cara tem aquela obsessão estética e aquela ousadia temática que costumam marcar os grandes artistas.

Acho que minha insônia ficou mais desperta depois de eu assistir ao documentário: aquele mundo, entre o grotesco e o sublime, me abalou. Como costumo fazer também, zapeei e fui bater no Canal Brasil. Depois de um longa nacional ruim, desses que nem a sinopse bate com o que é exibido, veio um curta bem bacana. Vi o longa ruim até o final e, para minha decepção, a insônia ainda estava lá. Na sequência, um longa de ficção, de baixo orçamento, como o anterior, e filmado em digital, dos jovens cineastas paulistas Andradina Azevedo e Dida Andrade. Os rapazes ganharam dois prêmios em Gramado, em 2013: melhor diretor e melhor fotografia. Os dois escreveram o roteiro, dirigiram e interpretaram os protagonistas. Chama-se A Bruta flor do querer. Pensa num filme bom, desses que jamais serão exibidos na Sessão da Tarde, mas que foi massacrado por parte da crítica. Feministas atacaram o suposto machismo em algumas de suas cenas; críticos execraram a metalinguagem, essa coisa do filme dentro do filme, e o coloquialismo dos diálogos, vistos como superficiais. O filme tem seus defeitos sim [o áudio às vezes é ruim], seus excessos [sexo explícito poderia ser descartado], mas daí a não enxergarem nele uma proposta arrojada de fazer cinema é dessas coisas que nos espantam. É um olhar jovem sem medo de se aventurar na estética e na temática. Acharam muito afetada a interpretação do Dida Andrade; eu gostei. De quebra, o cara nos lembra, às vezes, de certos ângulos, o cineasta baiano Glauber Rocha. Há situações que nos arrastam para dentro da angústia existencial do personagem, um desses tipos nascidos pra perder. Dói. Comove. Às vezes arranca risos. É desses filmes que exigem entrega e paciência do espectador.

Ah, e a tosse e a insônia? Às três da madruga, a tosse havia cessado; já a insônia, mesmo dando sinais de fraqueza, ainda me atormentava. Aproveitei e caí na cama. Tinha que acordar às oito da manhã para tomar o antibiótico, rigorosamente fiscalizado pela minha esposa, que sem ela eu já teria sucumbido há tempos. O bom de tudo isso é que, pra curar meu estado debilitado, ganhei café da manhã na cama. E antes que alguém veja nisso submissão dela ou machismo da minha parte, saiba que retribuo na mesma proporção de gentileza e afeto.



sábado, 8 de abril de 2017

Borboletas

                                                                    (imagem:google)

Por Geraldo Lima


Borboletas sobrevoam o quintal, dão rasantes, voluteiam, pousando em seguida na flor vermelha da falsa-emília [seu pompom lembra muito o do dente-de-leão: ao soprá-lo, suas sementes voam ao sabor do vento feito helicóptero] e na flor do picão-amarelo. As borboletas [da amarela grande e destrambelhada ao voar às pequenas, elegantes no pouso sobre as pétalas e um encanto para os olhos com suas cores em tons variados] aproveitam que o mato venceu meu ritmo de trabalho [a dor nas costas já não me permite manejar a enxada em longas jornadas de labor rural] e povoaram o quintal com uma beleza frágil e temporária. Num pouso e outro, depositam estrategicamente camuflados seus ovos nas folhas da couve e da rúcula. Em breve [e preciso estar atento para isso] desgraciosas lagartas emergirão famintas e prontas para devorar as folhas das hortaliças. Das outras plantas ["as daninhas"] nem se lembrarão. Mas agora, aladas, fazem delas seu campo de pouso e seu jardim dos prazeres. 


(Texto publicado, originalmente, no Jornal de Sobradinho)

sábado, 28 de janeiro de 2017

Inseto


Por Geraldo Lima


Um inseto escala atônito o vidro da porta que dá para a sacada. Ele sobe, ágil e aflito, para dar em lugar algum; depois desce, até topar com o limite do piso, e então se apavora, ameaça um voo ao mesmo tempo em que emite um som forte, de motor ligado, mas querendo falhar. Sobe de novo, movendo agilmente suas pernas longas e finas. 

Poderia ser Gregor Samsa [protagonista da novela A metamorfose, de Franz Kafka] já de posse do domínio completo das suas perninhas, mas o inseto em que ele se transformou não tem asas: suas "costas duras como couraça" [num primeiro momento] não lhe permitiriam subir leve e rápido assim pelo vidro. O desespero pode ser o mesmo do personagem de Kafka, tentando escapar do quarto e do pesadelo em que se vê preso. Esse zumbido pode ser o mesmo da voz que Gregor Samsa tenta articular para se comunicar [em vão] com seus familiares. Não sei que inseto é este. Não é uma mosca [se for, é gigante], tampouco um marimbondo [me parece rechonchudo demais]. Um tipo de vespa, será? 

Agora se meteu entre o vão de um vidro e outro, mas sem chance de encontrar uma saída: a porta está semifechada e por ali não há passagem. Diferentemente dos que cercam o Gregor-inseto, devo ajudá-lo a escapar desse espaço liso e, provavelmente, infinito a partir da sua ótica de inseto. Depois de ler Kafka, essa visão do ser [seja ele qual for] encalacrado nos labirintos do absurdo nos parece intolerável.


[Texto publicado, originalmente, no Jornal de Sobradinho]