segunda-feira, 31 de maio de 2010









DIONÍSIO NA ESPLANADA DOS MINISTÉRIOS

Por Geraldo Lima

 Zé Celso Martinez montou seu Teat(r)o Oficina Uzyna Uzona no gramado da Esplanada dos Ministérios, ao lado da Biblioteca Nacional de Brasília, de frente para o Poder, e nos brindou com suas Dionisíacas. Das quatro peças apresentadas, assisti a duas: Taniko e As bacantes. Perdi as peças Calcida! e O banquete. Pudesse, teria assistido a todas. Um presente dos deuses assim não se deve menosprezar. Coisa que não teríamos chance de ver senão indo a São Paulo, estava ali, à nossa disposição, e praticamente de graça: o ingresso era trocado por um quilo de alimento não perecível. 
 Não é fácil assistir às montagens desse gênio do teatro brasileiro. Imagine uma peça cuja duração é de seis horas! Corpos e mentes mais cansados não aguentam mesmo. Além disso, a dramaturgia de Zé Celso segue as ideias antropofágicas do modernista Oswald de Andrade. Uma peça como As bacantes, nas mãos do diretor do Oficina, vira um barco delirante. À Grécia Antiga, presente nos textos de Eurípedes, Ésquilo, Sófocles e Aristófanes, junta-se a “Grécia do Brasil”, e aí entram o Candomblé, o Carnaval, Os mamonas assassinas, o sertão nordestino, o rock etc etc.  Em Taniko, o Teatro Nô funde-se com o ritual do Candomblé, com a Bossa Nova, enfim, com a cultura brasileira. O ritual é sempre no sentido da fusão, da miscigenação, do encontro entre culturas diferentes. O que se opõe de forma brutal, não-antropofágica, ao estrangeiro, à alegria e ao prazer paga um alto preço.  Penteu, rei de Tebas,  que se opõe à presença de Dionísio e ao ritual das bacantes, simboliza bem esse tipo de atitude, e paga caro por isso.
A estética teatral de Zé Celso Martinez é irmã siamesa da estética cinematográfica de Glauber Rocha. Todo esse ritual delirante e antropofágico pode ser visto, por exemplo, no filme A idade da Terra. Ambos os diretores bebem na fonte da cultura grega clássica e na  da cultura brasileira. O processo é o mesmo: trazer o mito para o mais próximo da nossa realidade, de modo que a leitura dos nossos problemas políticos, sociais, psicológicos e estéticos seja ampliada. Na base de tudo isso está, sem dúvida, a antropofagia de Oswald de Andrade.  
Um texto levado à cena por Zé Celso é puro ritual. No caso d’As bacantes, isso fica ainda mais evidente. É preciso entender que o que ele procura, nesse caso, é nos fazer mergulhar no mundo dionisíaco de fato. Corpos nus e erotismo tomam conta do palco. Dionísio está ali, e sua presença contamina até a plateia. Pessoas menos afeitas a esses rituais cênicos vão embora logo. Um espetáculo assim, que une as pulsões do ser natural e o mito grego ao mundo tecnológico, num tom de orgia e de crítica às estruturas de poder, não agradará mesmo a todos. Porém, os que ficam e resistem ao cansaço e à ousadia cênica levam na memória a imagem e a pulsação dessa experiência teatral única entre nós.

2 comentários:

  1. Eu sou míope e uma vez perdi os óculos. Só tinha um óculos escuros com grau - e foi com esse óculos que eu fui assistir ao Hamlet.
    Num determinado momento, tudo escuro, o Zé Celso parou diante de mim (o Oficina, na época, parecia uma grande passarela com arquibancada)e ficou lá, segundos e segundos olhando pra minha cara. Certamente pensando: "Cada maluco que aparece por aqui". Foi muito engraçado.

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  2. Parreira, a tenta-teatro que eles montaram aqui, na Esplanada dos Ministérios, de frente para o Congresso Nacional, tem essa estrutura aí: uma passarela. É como o Sambódromo ou a Marquês de Sapucaí. É carnaval também o teatro do Zé Celso. É dionisíaco. Orgiástico. Só num espaço assim é possível conceber as suas montagens cênicas.

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